Irmao Nao Va embora
Não existe mais
Mapinguari
morando no mato,
Mesmo assim
é preciso seguir
com cuidado
nesta vida;
O Bicho-Preguiça
continua útil,
se seguir preservado.
Os tempos mudaram
definitivamente...
Só sei que existe
mais de um
Mapinguari
por todos os lados,
E não têm mais idade
e as línguas deles
estão sempre afiadas.
Os tempos são outros...
O Bicho-Preguiça
traz o melhor ensinamento:
O convívio não
pede enfrentamento
com Mapinguari de qualquer tipo.
Os tempos de hoje pedem que
não seja dado mais nenhum espaço.
Quando um Mapinguari surgir
para provocar ou mentir,
é só mudar o seu caminho,
fingir que escuta,
deixar falando sozinho
ou comece a ler um livro.
Só não deixe o Mapinguari
continuar enchendo os seus ouvidos.
Beleza é conceito,
ter ou não ter 'defeito'
é convenção,
Ter ou não ter 'juízo'
é relativo,
O quê te falta ou sobra
pode ser ou não
motivo de admiração.
O importante é você
não se perder de você,
Deixar que falem
sem deixar de viver
e não cultivar
o vício da sofreguidão
e o hábito do conflito.
Na verdade o quê
realmente importa
e preenche uma vida
toda é a bondade
e a amorosidade
existentes no coração.
A Verdadeira Vitória é Íntima
Não existe satisfação maior para a alma do que olhar para trás e perceber que vencemos um desafio que julgávamos impossível. O verdadeiro prazer de lutar não está em derrotar os outros ou em provar algo para o mundo, mas em superar os nossos próprios limites. Cada barreira material ou emocional que quebramos no dia a dia é um troféu silencioso que a nossa consciência conquista. Olhe para a sua trajetória com orgulho. Cada passo dado com esforço e dedicação aproxima você do seu verdadeiro potencial, transformando o cansaço da batalha na alegria da colheita.
Apenas se importe - II
Não consigo imaginar que alguém realmente piscaria antes de tomar uma posição resoluta contra essas coisas, contra matar, desprezar (pois mata tanto quanto uma arma).
Além de nações e nacionalidades fabricadas, preconceitos ideológicos e movimentos de xadrez geopolíticos.
É preciso estar do outro lado da ameaça para não desejá-la para o outro?
ouvir o som ensurdecedor de mísseis e jatos militares
contemplar todos os tons de cinza em um céu matinal.
cheirar a morte.
perder lamentavelmente um ente querido.
ver o terror nos olhos de um pai e uma avó e presenciar a fragilidade da pele humana?
Vejam que estou sendo mais direcionado por minha mente a citar guerras e guerras e guerras. Mas tanto quanto as guerras literais, o que ocorre nos bairros miseráveis, sujos e desprovidos de cuidados da administração do Estado, fazem parte dessa tal “guerra”.
Se é verdade que os líderes mundiais são o reflexo sombrio de nossa psique coletiva, então você é importante.
E você importa muito.
Sua semente de empatia é importante.
Por mais árdua que seja, sua vontade de ser responsável é importante.
Russo, ucraniano, sírio, líbio, iemenita, palestino, israelense, iraquiano, Iraniano, americano, libanês e **** favelados **** são todos nomes de marcas defensivas para uma divisão ilusória.
Paulo H Salah Din
Apenas se importe – III
Você não é nada disso.
Você é humano.
A humanidade não tem limites.
A consciência não tem fronteiras. E você é isso.
Como parte dos padrões e processos atemporais que compõem a saga humana em cada instante precioso, o que você faria hoje para mudar o comprimento de onda do coletivo?
O que você faria para reconciliar a perspectiva binária que impusemos à nossa existência unitária
O que você faria para sonhar um sonho coletivo melhor?
O que você faria?
****************Simplesmente se importe.******************
E se o fizer, importe-se um pouco mais.
E se você deixou de se importar, se preocupe em saber o porquê.
_____________________________________________________________
Quando você começou a ensaiar a couraça preventiva de não se importar o suficiente - para evitar dor e danos emocionais?
_____________________________________________________________
Cuide porque cada parte verdadeira de sua humanidade anseia por cuidar.
Porque você foi feito para cuidar.
Eu me importo.
“Não voltarei a um universo
de objetos que não se conhecem,
como se as ilhas não fossem as crianças perdidas
de um grande continente.” _Monet_
E só para ser ácido: crer, ter fé, não tem nada a ver com cristianismo, islamismo, judaísmo ou qualquer outro “ismo” que por ventura alguém professe.
Paulo H Salah Din
Viaje, mas não para fugir
Sente-se sozinho, mas não para se esconder
Olhe, mas não para preencher
Veja, mas não para encontrar
reconheça, mas não para nomear
possua, mas não para reivindicar
Ame, mas não possua
maravilhe-se, mas não fique obcecado
Aspire, mas não alcance
ensina, mas não pregue
confie, mas não espere
desista, mas não desista
Pergunte, mas não para dar significado
observe, mas não julgue
conecte-se, mas não divida
pertença, mas não se encaixe
Deseje, mas não se satisfaça
individualize, mas não identifique
Paulo H Salah Din
Não sussurre no meu ouvido "só vivemos uma vez".
Nós não.
Vivemos infinitamente.
Eternamente,
Condenado a um "requintado para sempre".
Parece que o eu leva ao não-eu,
a mente aponta para a não-mente
e o sonho reflete de volta o sonhador.
No entanto, tudo acontece sem estrada, sem ponteiro,
e sem reflexo.
Quero dizer-te coisas,
mas tu e eu sabemos que
as palavras não passam de um fluxo de ar complicado.
Só o silêncio diz a verdade.
“Todos os caminhos levam ao lar.”
Verdade, mas não em um sentido linear, não como um meio para um fim.
O lar não é um destino encontrado no limiar do tempo.
A verdade é o reconhecimento sem caminhos do que é.
Não apenas um reconhecimento, mas simplesmente as gargalhadas existenciais que surgem quando a busca desmorona o sujeito buscador e o caminho se aniquila.
“Todos os caminhos levam a lugar nenhum” tem um tom melhor de verdade.
A maioria dos ensinamentos espirituais objetiva a verdade que o deixa preso na dualidade sutil de sujeito/objeto.
A mente o ama, pois é diviso em sua própria natureza.
Tudo o que ela faz é conceituar o absoluto.
Ele evoca um assunto de um acontecimento contínuo e diz
"este sou eu,
o resto não é"
como pegar uma onda do oceano ... fofo, mas impossível na realidade.
A maioria dos ensinamentos lança a ilusão de um caminho que obscurece o verdadeiro olhar do supremo e o deixa engolido pela inquietação envolvente da linearidade - a imitação da chegada.
E mais cedo cada caminho que você trilhar será deixado abandonado,
mais frequentemente julgado por tê-lo enganado.
Você então atesta seu caminho recém-descoberto.
"Esse é o novo caminho. Eu encontrei o caminho."
Então, por que ensinar?
não ensine.
Simplesmente compartilhe o que mexe com sua alma, humildemente.
Minha descrição favorita de um verdadeiro professor é transmitida pelas palavras de Laozi
“ele/ela ensina sem um ensinamento, para que as pessoas não tenham nada a aprender”
A verdade não precisa de caminho nem de ponteiro.
É o dedo e a lua, pois nunca houve distância entre sua existência aparente.
A verdade se manifesta em todas as coisas.
Mesmo objetos inanimados tentam nos revelar Deus.
Para saborear a verdade irrevogavelmente,
todos os caminhos ou a ilusão deles devem desaparecer,
toda conceituação deve ser abandonada,
... incluindo o mito do "eu".
Existe realmente um caminho certo
Ela deixa ir.
E talvez seja isso a coisa mais próxima de liberdade que existe: não confundir queda com morte. Não confundir mudança com derrota.
As folhas caem e ninguém pede desculpa.
O tronco continua.
E de algum jeito que ninguém explica direito, isso ainda é vida.
PARA QUE SERVE POESIA?
Dizem que poesia não enche a barriga.
E estão certos.
Também não troca o óleo do carro, não paga o aluguel atrasado nem impede que o mundo continue fabricando idiotas em série.
Mas experimente viver sem ela.
A vida vira uma fábrica. Um relógio. Uma fila. Você acorda, trabalha, sorri por obrigação, envelhece e morre sem nunca ter descoberto quem estava respirando dentro da sua própria pele.
A poesia é o que sobra quando todas as desculpas acabam.
Ela é o sujeito bêbado olhando a chuva pela janela e percebendo que ainda existe alguma coisa que dinheiro nenhum consegue comprar. É a mulher que ri no momento errado. É o velho cachorro esperando o dono voltar. É o silêncio entre dois amantes que já disseram tudo.
O mundo vive perguntando para que serve a poesia.
É a pergunta errada.
Ninguém pergunta para que serve um pôr do sol. Um beijo. Uma gargalhada. Um coração que insiste em bater depois de ter sido partido vinte vezes.
A poesia serve ao mesmo propósito de continuar vivo quando tudo ao redor parece empenhado em convencer você de que sobreviver já é suficiente.
E sobreviver...
Isso qualquer máquina faz.
Viver exige versos.
*DENTADA*
Te invadi.
Te ocupei.
Não foi guerra.
Foi convite.
A boca veio sem pedir licença
e assinou na pele o recibo:
estive aqui.
Com fome.
Não tem sangue, tem marca.
Roxo que vira amarelo,
depois some.
Efêmero como tudo que queima.
Ninguém bateu.
Ninguém prendeu.
Foi mordida de quem sabe
que a carne é fruta
e a noite é curta.
Não me venha com culpa.
Culpa é pra quem reza.
Aqui a gente devora.
Sem faca, sem garfo,
só dente e vontade.
A marca fica dois dias.
A lembrança fica dois anos.
A tensão não conta tempo.
Ela mora entre a pele e o lençol,
naquele lugar onde o arrepio
ainda não decidiu
se é medo ou se é mais.
Não foi castigo.
Foi assinatura.
Um carimbo de "estive viva"
num corpo que esquece rápido
mas que, por um segundo,
quis ser banquete.
E se amanhã não tiver nome,
pelo menos teve gosto.
E o gosto,
ninguém tira.
Houve um tempo em que ele acreditava que pisaria num foguete. Não porque gostasse de ciência. Porque toda criança precisa inventar um céu onde a vida pareça valer a pena. O foguete nunca foi um veículo. Era uma mentira bonita. Daquelas que se contam para não perceber cedo demais que o mundo costuma distribuir mais boletos do que milagres.
Depois vieram os quarenta.
A idade em que o espelho deixa de fazer gentilezas.
Ali ficou claro que nenhum foguete pisaria o quintal daquela casa. Restou o café frio, os bares de luz amarela, algumas mulheres que passaram como chuva de verão e amigos que aprenderam a sorrir para fotografias enquanto enterravam silenciosamente a própria fome de existir. Ele ainda procurava alguma coisa. Não sabia o nome. Chamava de sentido porque qualquer palavra menor pareceria covardia.
Agora vieram os sessenta e dois.
A essa altura, não dói apenas o corpo. Doem as expectativas que sobreviveram tempo demais.
Os dias se parecem com copos vazios esperando por uma bebida que nunca chega. Não é exatamente tristeza. É um cansaço antigo. Um animal velho dormindo no peito.
Às vezes, observa uma folha cair da árvore.
E sente um impulso ridículo de colocá-la de volta no galho.
Como quem pudesse devolver um casamento ao começo, uma amizade ao primeiro abraço, um pai à juventude, um amor ao instante em que ainda não conhecia a despedida.
Mas folhas não voltam.
Nem pessoas.
Nem o tempo.
Todo mundo merece um dia melhor, pensa ele. O problema é que ninguém ensina o caminho. Ensinam a produzir, competir, acumular, parecer feliz. Nunca a existir.
Durante muitos anos procurou sua rainha da beleza.
Não a mulher das revistas.
Essa morre quando a maquiagem encontra a primeira lágrima.
A rainha que procurava tinha outra anatomia. Beleza sentimental. Inteligência que abraça sem tocar. Capacidade de permanecer em silêncio sem transformar o silêncio em distância. Uma mulher cuja alma não estivesse à venda por curtidas, status ou conveniências.
Ainda procura.
Talvez ela também esteja perdida em algum balcão de bar, fingindo que o gelo do copo basta para resfriar a solidão.
Olha para antigos amigos.
Todos parecem brilhar.
Casas maiores.
Carros melhores.
Viagens.
Sorrisos impecáveis.
Mas ele já não acredita tanto na luz.
Aprendeu que existe um sol artificial iluminando a terra da normalização.
Lá, o verbo ser foi lentamente assassinado pelo verbo ter.
As pessoas compram identidades em prestações.
Vendem a própria autenticidade em troca de aprovação.
Sorriem como quem cumpre expediente.
Abraçam como quem assina um contrato.
A empatia virou artigo de luxo.
A delicadeza, uma excentricidade.
A verdade, inconveniente.
Talvez seja por isso que se sinta preso numa bolha.
De um lado, o mundo do faz de conta.
Do outro, um mundo real que quase ninguém parece querer habitar.
Nesse lugar antigo, os valores ainda tinham peso. A palavra ainda valia mais que uma assinatura. O afeto não precisava produzir conteúdo. A dor podia existir sem virar espetáculo.
Talvez o erro nunca tenha sido do mundo.
Talvez tenha sido nascer acreditando que honestidade seria suficiente.
Ainda assim, todas as manhãs ele acende um cigarro imaginário para conversar com as próprias ruínas. Serve um copo como quem brinda aos mortos, aos amores que não vieram, aos sonhos que explodiram antes da decolagem.
E continua vivo.
Não porque espere um foguete.
Nem porque a felicidade esteja logo ali na esquina.
Continua vivo porque existe uma estranha dignidade em permanecer inteiro quando tudo ao redor insiste em ensinar a arte de apodrecer por dentro.
Talvez seja isso envelhecer.
Descobrir que o mundo nunca prometeu salvação.
E, mesmo assim, recusar-se a chamar de vida essa enorme coleção de sorrisos emprestados
A HUMANIDADE MORRE EM SILÊNCIO: A INDIFERENÇA TEM MÃOS LIMPAS
A cidade fede.
Não por causa do esgoto.
É o cheiro da consciência apodrecendo devagar.
Você aprende isso quando passa dos sessenta.
Os anos deixam marcas onde antes havia certezas. O espelho passa a contar verdades que ninguém pediu para ouvir. Alguns amigos viram fotografias, outros apenas silêncio. Os cães que juravam amor eterno descansam sob a terra. Os balcões onde você gastou madrugadas cedem lugar a farmácias e franquias. Algumas mulheres levam consigo os planos que um dia pareciam indestrutíveis. E a vida, insolente, sequer diminui o passo. Amanhece do mesmo jeito, como se nenhuma ausência merecesse um minuto de luto.
O problema nunca foram os assassinos.
Eles são poucos.
O problema sempre foi essa multidão de gente decente.
Os que dizem:
"Não é comigo."
Essa frase matou mais gente do que qualquer exército.
Todo império foi construído sobre ela.
Toda cruz.
Toda bomba.
Toda criança enterrada antes do tempo.
Você quer encontrar o diabo?
Não procure chifres.
Procure conforto.
Ele mora ali.
Na poltrona.
No controle remoto.
No dedo que desliza pela tela para não olhar uma fotografia de guerra por mais de três segundos.
A alma não morre de uma vez.
Ela enferruja.
Primeiro deixa de sentir o mendigo.
Depois deixa de sentir o velho.
Depois a mulher espancada.
Depois a criança.
Quando percebe, já não sente nem a própria dor.
Só o vazio.
E chama isso de maturidade.
Que piada.
Passei tempo demais em bares para acreditar em gente iluminada.
Conheci bêbados mais honestos que muitos santos.
Pelo menos eles admitiam que estavam quebrados.
Os outros escondem a podridão atrás de sorrisos bem escovados e frases motivacionais.
A espiritualidade, se existe alguma, nunca esteve nos altares.
Ela aparece quando a dor de um desconhecido estraga o seu sono.
Quando você não consegue terminar o café porque uma notícia ficou presa na garganta.
Quando percebe que nenhuma fronteira impede um coração de reconhecer outro coração.
Nesse instante você entende uma coisa terrível.
Nunca existiram "eles".
Sempre fomos "nós".
E essa é a pior notícia que alguém pode receber.
Porque acaba a desculpa.
Acaba Deus levando a culpa.
Acaba o governo.
Acaba o destino.
Sobra você.
Você e a escolha ridiculamente simples que a maioria evita fazer.
Importar-se.
Não para parecer bom.
Não para ganhar o céu.
Nem para aliviar a consciência.
Importar-se porque, no dia em que a dor do outro deixar de atravessar o seu peito, você continuará andando, falando e pagando contas...
...mas a única coisa realmente viva dentro de você já terá ido embora.
Continuar
Há um tipo de cansaço que não aparece nos olhos. Ele mora entre uma tragada e outra, entre o café frio e a louça esquecida na pia. É o cansaço de quem acorda todos os dias e percebe que o mundo continua exigindo o mesmo espetáculo de entusiasmo, quando por dentro só restou o silêncio.
A morte deixa de ser um monstro. Torna-se apenas uma vizinha discreta. Você sabe que ela existe. Ela sabe que você existe. Mas nenhum dos dois bate à porta.
O problema nunca foi morrer.
O problema sempre foi continuar.
Continuar pagando contas. Continuar respondendo "está tudo bem" para pessoas que não esperam uma resposta verdadeira. Continuar alimentando relógios, calendários e compromissos enquanto alguma parte de você resolveu abandonar o navio há muito tempo.
É curioso como a sobrevivência deixa de ser um instinto e passa a ser uma disciplina. Respirar vira uma decisão. Levantar da cama vira uma pequena rebelião contra o vazio. O coração bate sem pedir licença, como um velho motor teimoso que se recusa a desligar, mesmo depois de percorrer estradas demais.
Há quem chame isso de esperança.
Eu não.
Esperança é um luxo. O que sobra é insistência. Uma insistência quase vulgar. Um cigarro aceso, um gato dormindo no sofá, o gosto amargo do uísque barato, uma música tocando baixo enquanto a madrugada faz o que sempre fez: lembrar que ninguém escapa de si mesmo.
Talvez a luta nunca termine da forma que imaginamos. Talvez ela apenas fique mais leve em alguns dias e mais pesada em outros. Talvez o segredo não seja vencer, mas atravessar.
Porque existe uma estranha dignidade em permanecer de pé quando já não há aplausos, quando ninguém percebe o esforço gigantesco necessário para simplesmente colocar um pé diante do outro.
No fim, a coragem raramente grita.
Ela apenas respira.
E, por mais absurdo que pareça, às vezes isso basta para sobreviver a mais uma noite.
Há perguntas que não têm remédio.
E isso não é uma tragédia. É uma libertação.
Passamos anos tentando consertar aquilo que nasceu para não ser consertado. Procuramos respostas como quem revira os bolsos de um casaco velho atrás de uma chave que nunca existiu. Enquanto isso, a vida passa pela porta da frente, acende um cigarro, sorri de lado e vai embora.
Há dores que não serão curadas.
Então estão curadas.
Porque a única cirurgia possível é aceitar que elas continuarão caminhando ao nosso lado.
A decisão sempre foi nossa.
Mas, por favor, caminhe com empatia. Todo mundo carrega um cadáver invisível nas costas. Uns escondem melhor. Outros bebem. Outros rezam. Outros escrevem. No fim, todos sangram.
O verdadeiro horror nunca foi sofrer.
O verdadeiro horror é morrer antes da morte.
É viver como uma máquina programada para acordar, trabalhar, consumir, dormir e repetir. É escolher a segurança como quem escolhe uma cela confortável.
Sempre imaginei a zona de conforto como um quarto mofado.
O cheiro de umidade impregnado nas paredes.
Uma luz fraca que nunca chega a iluminar nada.
Nenhuma janela.
Nenhum vento.
Nenhum risco.
Nenhuma possibilidade.
Só a lenta decomposição de alguém que ainda respira.
Não tente viver ali.
A vida não pede anestesia.
Ela pede presença.
Sem dor não existe profundidade.
Sem prazer não existe lembrança.
Sem paixão não existe história.
O fracasso nunca foi o inimigo.
O horror é nunca ter tentado.
Nada é tão urgente quanto dizem.
Nem dinheiro.
Nem prestígio.
Nem a opinião de quem sequer conhece o seu nome.
Urgente é viver.
Porque a mente humana é um universo sem cercas. Ela consegue revisitar o passado, inventar futuros, criar mundos inteiros enquanto o corpo permanece sentado numa cadeira qualquer.
Somos infinitos por dentro e temporários por fora.
Essa talvez seja a piada mais bonita do universo.
Então viva.
Até aquele instante inevitável que ninguém negocia.
Quando esse dia chegar, que encontre em você cicatrizes e não ferrugem.
Seja visceral.
Seja sanguíneo.
Não esconda as desilusões.
Não esconda as decepções.
Elas nunca foram o fim da estrada.
Foram o asfalto.
Talvez a missão que tanto perguntamos ao céu nunca tenha sido vencer.
Talvez fosse simplesmente atravessar.
Continuar andando mesmo depois de perder a fé nas placas.
Mesmo depois de descobrir que ninguém virá nos salvar.
Se as desilusões quase o mataram...
Acorde.
Quase.
Não mataram.
Você ainda está aqui.
Ainda respira.
Ainda pode amar.
Ainda pode quebrar a cara de novo.
Ainda pode rir alto de si mesmo.
Ainda pode incendiar esse quarto mofado e abrir uma janela.
E, quanto a mim...
Escrevo.
Porque existem coisas que não podem permanecer dentro de um homem.
Se eu não colocar para fora,
eu explodo.
O pior tipo de gente não é a que sangra.
É a que transforma o próprio sangue em licença para fazer os outros sangrarem.
Toda tragédia merece memória. O Holocausto merece memória. Não para fabricar santos, mas para lembrar do que o homem é capaz quando decide que existe uma raça, uma religião ou um povo que vale menos que ele.
Mas a memória apodrece quando vira escudo.
Quando um crime de ontem passa a ser usado como salvo-conduto para justificar o sofrimento de hoje, a história deixa de ensinar e começa a servir de álibi.
Não existe povo imune à crueldade.
Quem sobreviveu ao horror não recebe, por isso, um certificado de inocência eterna. O poder corrói qualquer bandeira. Corrói qualquer governo. Corrói qualquer fé.
Se alguém grita pela morte de outro povo, pouco importa o idioma, a religião ou a bandeira que carrega. O ódio continua sendo o mesmo animal. Apenas muda de uniforme.
Os mortos não escolhem lados.
São os vivos que escolhem transformar cadáveres em propaganda.
E talvez essa seja a maior obscenidade de todas: usar os fantasmas de ontem para impedir que o mundo enxergue os cadáveres de hoje.
O sujeito da mesa ao lado bebia como quem carregava um funeral dentro do peito.
Não havia enterro algum.
Só um ego grande demais para caber na cadeira.
Batia o copo no balcão com força suficiente para avisar ao mundo que sofria. Achava que o silêncio do bar era respeito.
Não era.
Era apenas gente ocupada demais tentando sobreviver para desperdiçar atenção com a tragédia particular de um desconhecido.
Pedi outro uísque.
A garçonete nem olhou para mim.
Nem para ele.
Estava cansada.
Os pés doíam.
O aluguel venceria na segunda-feira.
Mas aquele sujeito sairia dali convencido de que a indiferença dela era mais um capítulo da sua epopeia sentimental.
As pessoas têm um talento extraordinário para transformar o universo em um espelho.
Se chove, é contra elas.
Se alguém vai embora, é por causa delas.
Se um estranho não sorri, já imaginam um julgamento.
Se a mulher demora a responder, escrevem um romance inteiro antes do café esfriar.
Nunca lhes ocorre a hipótese mais ofensiva de todas:
Talvez ninguém esteja pensando nelas.
É engraçado.
Ele acreditava ser o protagonista.
Mal conseguia um papel de figurante.
Olhei para as mãos dele.
Tremiam um pouco.
Não pelo álcool.
Pelo medo.
O medo de descobrir que sua dor era comum.
Nenhuma dor gosta de ser chamada de comum.
A cidade inteira estava cheia de homens iguais.
Sentados em bares diferentes, convencidos de que eram a obra-prima da própria desgraça.
O mundo, porém, nunca teve vocação para plateia.
Continuou girando com a indiferença impecável de quem jamais prometeu assistir ao espetáculo.
Sorri.
Não dele.
De mim.
Porque, anos antes, eu também fazia discursos silenciosos para um copo de uísque, esperando que o teto, a fumaça ou qualquer divindade escondida no mofo do bar confirmasse que o universo tinha uma implicância particular comigo.
Demorei muito para descobrir a verdade.
O universo nunca soube meu nome.
E isso, estranhamente, foi um alívio.
O pior é que aquele homem nem podia ser culpado por completo.
Nem eu.
Você não escolhe nascer.
Não escolhe quem lhe ensina o medo.
Não escolhe a primeira humilhação.
Não escolhe o cérebro que insiste em acordá-lo às três da manhã para reabrir feridas antigas.
Nem escolhe o corpo que, um dia, começa a enferrujar sem pedir licença.
Recebemos tudo isso como quem herda uma casa velha.
Telhado furado.
Canos estourados.
Paredes rachadas.
E uma conta que nunca fecha.
Depois batizamos a herança de "eu".
Como se tivesse sido construída pelas nossas próprias mãos.
Que piada.
Boa parte do que chamamos personalidade é apenas a cicatriz tentando convencer a pele de que nasceu desenho.
O homem terminou a bebida.
Vestiu o casaco.
Foi embora acreditando que aquela noite havia sido escrita especialmente para ele.
A noite não percebeu sua partida.
Nem o bar.
Nem a lua.
Nem os carros.
Apenas a cadeira vazia permaneceu onde sempre esteve, esperando outro infeliz disposto a acreditar que o mundo acompanha seus pensamentos.
Acendi um cigarro.
O gosto era horrível.
Como sempre.
Continuei fumando.
Algumas coisas não melhoram.
Você apenas se acostuma.
Foi então que compreendi por que envelhecer cansa tanto.
Não é o peso dos anos.
É o esforço ridículo de sustentar um personagem chamado "eu", quando a vida inteira está ocupada demais para aplaudir a atuação.
Ainda assim, amanhã eu acordaria.
Pagaria contas.
Escreveria alguma coisa.
Talvez amasse alguém.
Talvez errasse de novo.
Porque a única maneira decente de atravessar este desastre é cuidar da própria vida como se tudo dependesse de nós...
...e aceitar, entre um gole e outro, que quase nada depende.
O CICLO QUE NINGUÉM VÊ
Há uma folha desenhada sobre a madeira velha deste balcão. Não está realmente aqui. Está apenas na minha cabeça, entre um copo de uísque barato, a fumaça de um cigarro que insiste em sobreviver e o silêncio que os bêbados confundem com paz.
A vida inteira cabe numa folha.
Ela nasce verde, arrogante, convencida de que o vento é liberdade. Dança porque acredita que escolheu dançar. Depois aprende que era apenas o galho decidindo por ela. Mais tarde, o tempo amarela suas certezas, rouba o brilho, seca suas vaidades e, por fim, a entrega ao chão, onde ninguém mais olha.
Engraçado... fazemos exatamente o mesmo.
Neste bar há homens falando sobre carros que nunca comprarão, mulheres sorrindo para pessoas que jamais amarão e jovens planejando futuros que venderão na primeira promoção de estabilidade. Todos parecem ocupados demais para perceber que estão envelhecendo enquanto discutem banalidades.
A correnteza não faz barulho.
Ela apenas leva.
Leva os sonhos, a curiosidade, a coragem de dizer "não". Leva aquele impulso infantil de observar uma chuva, ouvir um disco inteiro, sentir o cheiro da madeira molhada ou reparar como a fumaça desenha fantasmas sob a luz amarela do teto.
As pessoas chamam isso de amadurecer.
Eu chamo de desistir.
Não falo da resistência dos heróis estampados nos livros. Essa costuma render medalhas e discursos. Falo da resistência silenciosa, quase invisível: a de não acreditar em todas as mentiras que vendem como felicidade; a de não transformar a própria existência numa fila de boletos, relógios e domingos ansiosos; a de continuar enxergando beleza numa folha caída enquanto o resto do mundo só enxerga sujeira para ser varrida.
Porque morrer não começa quando o coração para.
Começa quando deixamos de notar os detalhes.
Quando o café perde o aroma, o abraço vira protocolo, o beijo vira rotina e a janela deixa de ser uma moldura para o mundo e passa a ser apenas vidro.
Olho para o fundo do copo. O gelo já desapareceu, como desaparecem tantas coisas sem pedir licença.
A folha da fotografia teve uma vida inteira. Nasceu, brilhou, alimentou a árvore, envelheceu e caiu. Nunca fingiu ser outra coisa.
Nós, ao contrário, passamos décadas fingindo viver.
E talvez seja essa a tragédia mais elegante da espécie humana: não a morte, mas a facilidade com que entregamos nossa vida à correnteza, chamando de destino aquilo que foi apenas falta de coragem para abrir os olhos.
No fim da noite, o garçom apaga as luzes. A fumaça desaparece. O balcão continua ali, velho como sempre.
E, em algum lugar, outra folha começa a nascer.
Tomara que ela aproveite melhor o vento do que nós.
