Introspecção
Nada é completamente tudo, quando tudo não é completamente nada. Nada é complicado quando tudo é completamente.
Muitas vezes pego-me a observar-me, como se fora um outro, um terceiro, até mesmo um fantasma assombrando a si próprio. É um sentimento estranho, outro dia, enquanto conversava com uma amiga sobre nossas experiências sexuais, eu não parava de me perguntar internamente o porquê de estar fazendo aquelas escolhas de palavras, não seria as palavras que eu falaria se eu fosse realmente eu. Não é estranho esses momentos em que percebemos que deixamos de ser.
Ali, de repente, fui tomado por um outro, a quem fui observando de longe, um outro que eu não conhecia, mas que ainda acho ser eu em algum espectro, alguma nuance. Um eu reprimido.
Outras vezes que percebo esse fenômeno é quando me apaixono por alguém, abandono-me fácil de mais. Meu espirito sóbrio foge do meu corpo, como em uma espécie de projeção astral. Mas meu corpo não fica oco, logo trata de si preencher e penso, falo e ajo de um jeito absurdo, clamando pela atenção de estranhos. Por isso não gosto muito de mim quando me apaixono e isso tem acontecido com certa frequência, digo que conheci um menino na segunda e na sexta não paro de pensar na nuca de um outro. É repugnante me assistir agindo dessa maneira, se apaixonando por puro tédio e se convencendo de que esses sentimentos são reais. E chega a ser patético me ver me humilhando assim.
Quem sabe esse não seja um problema a ser resolvido, tenho que aprender a conviver com essas versões espaçosas de mim.
O pôr do sol é sem resquício de dúvidas a parte mais mágica do dia, permito receber as bençãos da aurora, me agarrando a esperança de dias melhores, que assim como sol, que tem hora para partir, sempre me dirá um "até logo", pois breve voltará a nascer, igualmente será a minha esperança. Esse é um milagre da criação ofuscado pela cegueira da vida banal, entretanto, me alegra saber que tenho bons olhos. Chega a ser curioso, não é tarde, e nem tampouco, ainda, se fez noite! Mas é aquele pequeno e fantástico espaço entre ambos, suas cores únicas sem exagero de um clarão intenso, luz que não chega a ser ausente e nem permite que, tão cedo, presente se faça a escuridão. As suas cores são tons alegres de amarelo e laranja em todas as suas nuances existentes. O fim da tarde é a mais bela das despedidas, um adeus em aquarela cobrindo o azul convencional do céu, é aquele alivio de fim de jornada, é lavar a alma cansada com água fria, é beleza diária, que se faz rotineira e infelizmente é um espetáculo pouco admirado.
Do Mundo Que Me Pertenço
Tudo do mundo é meu, mas, nada do que é dele me pertence,
Nem nada no que nele não tem, de nada me falta ou me convém.
...De tudo que do mundo nunca me faltou,
De tudo que eu tenho, difunde-se em quem eu definitivamente sou.
Você é quem escolhe o que absorver, pensar e expressar, fatos exteriores não tem o poder de mudar essas escolhas.
Olhe para o céu e conclua que as estrelas ainda diluem a vã existência do seu ser ao inimaginável universo.
"Mergulhe em si. A única verdade que realmente importa é sobre quem você é.
A medida que nos autoconhecemos emergimos, e parte do que somos, ora escondida, pode ser vista, porém não o essencial do ser, este sempre estará submerso. "
Quem sou eu de verdade? Sem as expectativas que carrego, sem os rótulos que aceitei, sem os planos que construí como um escudo contra o vazio?
Dizem que as redes sociais estragam três coisas: namoro, amizade e humildade.
Mas só destrói namoro fraco, amizade falsa e humildade de quem nunca teve.
Estar só
Dar lugar à dor
Esgotar as lágrimas
E finalmente chegar à conclusão de que o que me prendia àquela pessoa era o compromisso que levo a sério de não soltar a mão, mesmo quando as coisas não estavam boas em alguns aspectos. A gente vai levando, porque dissemos “sim” de forma tão intensa e verdadeira que nos perdemos de nós mesmos.
Nos nossos princípios de ser
Na forma de viver
No que queremos para nós enquanto pessoa e família
Nas músicas que gostamos
Nos ambientes onde realmente queremos estar presentes
Nos assuntos de mesa de jantar que toleramos
E quando a pessoa vai embora, percebemos que tinha que acontecer, que já estava passando da hora, só não tínhamos coragem. Se a vida te empurrou para o novo, se entregue. Agradeça e esteja preparada para novas aventuras, com mais cautela, com mais intencionalidade, com mais consciência do que é suportável e do que é insuportável. Porque você também passa a ser estranha em um meio que é muito diferente de você.
E não se trata de ser melhor ou pior do que você, é apenas energia, experiências de vida, propósitos distintos. E tá tudo bem…
Texto de Alexsándra Duárte
