Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza đ
SĂł que perdi muito tempo da minha vida achando que viveria uma histĂłria de cinema. Achando que amar seria fĂĄcil.
Eu sei que nĂŁo tem mais jeito, que nĂŁo dĂĄ mais pra ficar tentando. Mas eu amo muito vocĂȘ. De verdade. E queria terminar dizendo isso: eu amo muito vocĂȘ, independente de qualquer coisa.
E depois senti um vento maior do que todos os ventos contrårios passar entre meus cabelos. Tive certeza que havia chegado a hora de mudar pra um caminho reto, que não me desse dor de cabeça e nem deixasse mågoas.
Eu moro no quarto andar e ele no terceiro. Eu tenho quase um mĂȘs nesse prĂ©dio e ele parece ter nascido aqui. Eu vou ao banco, ao supermercado, volto do cinema e faço uns trabalhos da faculdade na casa da FĂȘ. Ele loca uns filmes, aos sĂĄbados, na vĂdeo-locadora do seu Geraldo; lava o carro do pai na frente do prĂ©dio e sai com uns amigos da Zona Sul e tal. Mas a gente nunca se encontra e nunca se fala e nunca se olha e nem nada. Pra falar a verdade, ele nunca reparou em mim. E eu torço, assim, pra que do nada, a gente se esbarre na escada ou fique preso no elevador. Eu sei o nome dele. Quer dizer, eu ouvi a dona LuĂza, a sindica do prĂ©dio, reclamar da Ășltima festa que ele deu e o chamou de Bernardo. Ele tem cara de festa e tem cara de Bernardo. Voltei pra casa nesse dia e fiquei pensando no nome dele antes de dormir e na cara de festa dele pra nĂŁo dormir. E fiquei pensando como a mĂŁe dele deve gritar o nome dele e como os outros meninos com cara de festa devem pronunciar o nome dele e como eu possivelmente falaria o nome dele, assim, num encontro repentino no metrĂŽ, numa tarde em uma confeitaria, numa despedida qualquer ou atĂ© mesmo pra reclamar da saudade. E fiquei pensando muito em como o nome da gente se combina e como a inicial do nome dele me lembra beijo e como isso e como aquilo. Mas aĂ depois eu lembrei que ele nunca reparou em mim. Nunca reparou que eu finjo falar ao celular sĂł pra chamar atenção dele. Nunca reparou que eu o olho, pela canto dos olhos, enquanto ele estĂĄ distraĂdo no elevador. Nunca reparou que atrĂĄs das cortinas da janela do meu quarto tem uma sombra, que sou eu quem perde o sono pra vĂȘ-lo tocar violĂŁo nas madrugadas. Nunca percebeu que eu sĂł apago as luzes do meu quarto quando ele apaga as do quarto dele tambĂ©m. Nunca deve ter sentido eu apertar o travesseiro e ouvido desejar boa noite. E ele nĂŁo sabe que eu sei, mas eu conheço a marca da roupa que ele usa. Sei de cor o perfume, as cores e os endereços que frequenta. E sei que ele adora o All Star verde, mas aos domingos prefere calçar as Havaianas 42. E eu conheço tudo, tanto nele, tudo nele, sem nem conhecer. Porque ele nĂŁo Ă© sĂł um cara do meu prĂ©dio, nĂŁo Ă© sĂł um cara do terceiro andar, nĂŁo Ă© sĂł um cara que calça Havaianas 42. Ele Ă© aquela sensação de que pela primeira vez na vida alguma coisa pode dar certo. Ele Ă© aquela sensação de friozinho na barriga que causa ansiedade. Ele Ă© tudo o que eu quero hoje e atĂ© onde o pra sempre der.
Eu acho que Ă© sĂł uma fase. Dessas de querer tudo e ao mesmo tempo nĂŁo querer nada. Ă estranho, eu sei. Mas nada em mim Ă© tĂŁo normal quanto parece.
Sempre pego a fila mais lenta no supermercado, sou barrado na porta giratĂłria do banco, vivo parado por freios de carros. Sou a confusĂŁo em pessoa. NĂŁo tenho sorte no jogo e muito menos no amor, mas de alguma forma te conheci.
E eu, como estava dizendo, jĂĄ vivi outras histĂłrias que terminaram desse jeito. Mas dessa vez eu queria muito que desse certo. Pela forma como a gente se conheceu, por tudo que vivemos, pelas nossas tentativas, pela nossa quĂmica e porque eu mereço muito ser feliz.
Catarina abre o chuveiro e senta no banheiro e começa a chorar. Tå sofrendo porque não entende nada, mas continua insistindo.
Me pergunto, às vezes, o que ele anda fazendo na vida. Fico pensando, principalmente antes de dormir, se ele tem se cuidado direito, se conseguiu ser feliz ao lado de alguém.
Mas Ă© quando vocĂȘ me abraça forte, muito forte, como se nĂŁo fosse soltar mais, que eu esqueço onde estou.
Foi aĂ que vim perceber que eu sempre me apaixono por vocĂȘ. NĂŁo importa onde, quando e nem como. Toda vez que te vejo, eu sempre vou ter o vĂcio de me apaixonar por vocĂȘ.
E hoje, parando pra pensar, lamento muito por mim. Por ter perdido tempo, por ter me apaixonado por um idiota como ele.
Eu tĂŽ torcendo muito pra gente, tĂŽ confiando muito na gente. NĂŁo estraga o que estĂĄ acontecendo, por favor. NĂŁo destrĂłi, nĂŁo destrĂłi, nĂŁo destrĂłi.
Ele me olha e me olha com muita mĂĄgoa. Assim, como se pudesse me estrangular com as prĂłprias Ăris em poucos segundos. E, pensando bem, se eu estivesse no lugar dele, tambĂ©m sentiria muita raiva de mim.
Eu tĂŽ caindo fora. TĂŽ desistindo da gente, dessa vez Ă© sĂ©rio. TĂŽ abrindo mĂŁo de vocĂȘ enquanto ainda dĂĄ tempo de cuidar de mim.
Entrei naquele quarto e senti uma solidĂŁo profunda. Uma dor tĂŁo devastadora e invencĂvel, uma mĂĄgoa inexplicĂĄvel por ter sido usado por quem eu confiava muito. Fiquei tĂŁo triste, tĂŁo frĂĄgil, tĂŁo inseguro, que planejei nĂŁo sair dali nunca mais. Duas horas depois de soluçar um bocado, eu dormi meio chorando.
Mas nĂŁo faz desse jeito. NĂŁo me olha com essa cara de bobo e diz que me quer. NĂŁo faz a cidade inteira ficar desinteressante porque estar com vocĂȘ Ă© mais surpreendente. NĂŁo transforma assim a minha vida numa coisa mais fĂĄcil e divertida. NĂŁo me deixa com essa sensação absurda de que sou feliz sĂł porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado Ă© perda de tempo.
Eu chorei muito, eu pedi muitas desculpas, eu ouvi bastante desaforo, eu corri atrås, eu quis encontrar solução pra cada problema.
E pra falar a verdade, eu sĂł queria me bater com uma Ășnica pessoa no mundo, alguĂ©m que me encontrasse com cara de balada nessas festas e me dissesse: Para de querer chamar atenção. Fica na sua, conversa com seus amigos baixinho, num cantinho, escondido. VocĂȘ Ă© bonito, inteligente e engraçado, nĂŁo precisa fazer tudo isso. Eu tĂŽ te observando muito, eu tĂŽ reparando muito em vocĂȘ, eu sei o que vocĂȘ tem por dentro.
