Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza đ
Eu sempre digo que vou suportar calado as maiores dores do mundo, mas Ă© tudo mentira. Eu nĂŁo aguento mais conviver com a tristeza.
Fiquei tão desacreditado que cheguei a pensar que o tempo jamais passaria, não iria me curar nunca. Mas passou. Mas curou. Como dizia minha vó, o tempo sempre passa, essa é uma das maiores crenças que uma pessoa pode ter na vida. Fora a morte, que, claro, um dia ela chega. Mas hoje não quero pensar nesse negócio de morte, Deus me livre. Quero pensar é na vida. Na minha nova vida daqui pra frente.
Ă nessa mesma hora em que sua cabeça Ă© tomada por uma onda de loucura que vocĂȘ precisa escolher a vida. Pra mim jĂĄ estĂĄ mais do que claro que a hora dessa escolha Ă© agora, nĂŁo dĂĄ pra adiar, estĂĄ acontecendo.
Uma sensação infeliz de que ando, ando e ando, mas nĂŁo chego a lugar algum. Uma impressĂŁo de que todos os esforços sĂŁo sempre inĂșteis, desnecessĂĄrios.
Eu quero me apaixonar por alguém que morda os låbios e estale os dedos de ansiedade enquanto me espera do outro lado da rua.
Pare de reclamar que as coisas estĂŁo dando errado. O descaminho, na verdade, Ă© um caminho que o destino te mostra para vocĂȘ encontrar alguma coisa que realmente vale a pena mais Ă frente.
Não confio mais nem na minha própria sombra que perambula por esta cidade. Aqui ninguém tem sossego, não se tem amor, não se busca por paz. E acabei me acostumando com esse jeito de viver. Com o tempo, fui me tornando mais descrente, mais desumano, duro, frio, metido a dono da verdade. Não me sinto feliz dessa forma. Deixa pra lå.
Mas aĂ, no Ășltimo minuto da conversa, antes de fechar a porta, eu disse que ele sĂł era capaz de se relacionar com pessoas tipo maçãs: homogĂȘneas, cansativas, bonitas por fora, medĂocres, com quem ele pudesse conviver tranquilamente sem se preocupar com a casca, os caroços. AlguĂ©m que desse pra segurar pelo cabinho, sem sujar as mĂŁos.
VocĂȘ embaralhou minha cabeça desde o primeiro contato e me enlouqueceu ao fugir da confusĂŁo que teus beijos causaram quando tocaram meus lĂĄbios. Restaram alguns fantasmas possessivos e uma esperança que se cansa fĂĄcil de rotina. A cada neblina um pesadelo falece enquanto outro nasce. Te amar Ă© viver irreversivelmente no olho do furacĂŁo.
TĂŽ resolvendo umas coisas aqui, tentando arrumar o que estĂĄ errado, estĂĄ mais do que na hora. Achei necessĂĄrio, por exemplo, abrir mĂŁo de algumas pessoas para me aproximar de outras. Tem gente que atrapalha um pouco a caminhada.
NĂŁo demora muito e eu canso, procuro defeito onde nĂŁo tem ou me empolgo demais. Eu meio que estrago as coisas.
LĂĄ fora o mundo te maltrata. As pessoas te olham torto, te empurram nas filas, nĂŁo te respeitam dentro dos ĂŽnibus, te xingam nas esquinas, procuram bater boca por besteira. Parecem um bando de animal que nĂŁo deu muito certo. Eu fico na minha, mal me movo. NĂŁo sei mais lidar com pessoas.
De todos os tipos de pessoas que conheci, das mais talentosas, complicadas e intensas, e que de alguma forma modificaram meus conceitos, eu sempre gostei mais daquelas que sabem nos tocar sem nem precisar encostar um dedo; sĂł pelo olhar, pelo silĂȘncio. Sempre gostei das que entram inteiras quando a gente jĂĄ se acostumou ou se contentou com metades.
Chorei desesperadamente ao sair daquele lugar. E chorei ainda mais quando cheguei em casa e lembrei daquilo tudo que tinha acontecido.
Foi entĂŁo que eu resolvi esquecĂȘ-lo, ainda que doesse e doesse muito atĂ© o Ășltimo fio de cabelo. Mas eu nĂŁo podia negar que o rapaz por quem ele se apaixonou Ă© surrealmente mais bonito do que eu. Parece ser mais alto e bastante engraçado. Ele tem mais amigos, deve ser legal com as pessoas, nĂŁo deve ser tĂŁo dramĂĄtico. O cabelo dele Ă© melhor que o meu, tem um brilho absurdo, irradiante, fantĂĄstico atĂ©. Ele sorri nas fotos, parece ser mais inteligente, aparentemente parece ter mais cultura. Deve ter viajado muito, deve conhecer lugares Ă beça, deve gostar das mesmas coisas que ele gosta. Vi que tem um corpo mais forte, uma disposição que nĂŁo tenho nos olhos, deve se doar bem menos do que eu. NĂŁo deve ficar reclamando das coisas o tempo inteiro, nem deve levar as coisas tĂŁo a sĂ©rio. Acho que esse menino deve merecĂȘ-lo mesmo. Deixa pra lĂĄ.
