Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza 😉

Com o amor consegue-se viver mesmo sem fellicidade.

HĂĄ uma linha fina entre o amor e Ăłdio.

“
 isso que chamamos de amor, esse lugar confuso entre o sexo e a organização familiar
”

Sérgio, não sabia como começar - então comecei copiando essa frase aí de cima, é Caetano Veloso numa entrevista ao JB, vim lendo pelo caminho, não consegui me livrar dela.

Agora estou aqui, escrevendo para vocĂȘ no meu quarto antigo, que minha mĂŁe conserva tal-e-qual, como se eu um dia fosse voltar para casa. E lĂĄ se vĂŁo - quantos mesmo? - sei lĂĄ, quinze vinte anos, qualquer coisa assim.

Chove. Faz frio. É bom estar aqui. TĂŁo bom. Me sinto protegido. Ficamos vendo velhas fotografias, bebendo vinho e rindo muito. Meu irmĂŁo Felipe vestiu um modelinho de couro negro e saiu “para dar uma prensa numa caixa de supermercado”. MĂĄrcia estĂĄ tĂŁo bonita. E Rodrigo, meu sobrinho, que tem dois anos e nĂŁo parece quase me desconhecer. Deixei-os vendo um filme antigo dos Beatles, Lennon repetindo “donÂŽt let me down” - e agora percebo que meu inglĂȘs anda tĂŁo precĂĄrio que nĂŁo lembro se Ă© dÂŽont ou donÂŽt.

Cansado, cansado. Quase nĂŁo dormi. E nĂŁo consigo tirar vocĂȘ da cabeça. Estou te escrevendo porque nĂŁo consigo tirar vocĂȘ da cabeça. Hesito em dizer qualquer coisa tipo me-perdoe ou qualquer coisa assim. Mas quero te contar umas coisas. Mesmo que a gente nĂŁo se veja mais. Penso em vocĂȘ, penso em vocĂȘ com força e carinho. AxĂ©.

Foi mau, ontem. Fui mau, tambĂ©m. Menos com vocĂȘ, mais comigo mesmo. Depois nĂŁo consegui dormir. Me bati pela casa atĂ© quase oito da manhĂŁ. Teria telefonado para vocĂȘ, nĂŁo fosse tĂŁo inconveniente. Acabei ligando para Grace, pedi paciĂȘncia, chorei, contei, ouvi.

NĂŁo era nada com vocĂȘ. Ou quase nada. Estou tĂŁo desintegrado. Atravessei o resto da noite encarando minha desintegração. Joguei sobre vocĂȘ tantos medos, tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor. DifĂ­cil explicar. Muitas coisas duras por dentro. Farpas. Uma pressa, uma urgĂȘncia.E uma compulsĂŁo horrĂ­vel de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com sofreguidĂŁo, com textos que me vĂȘm prontos e faces que se sobrepĂ”em Ă s outras. Para que nĂŁo me firam, minto. E tomo a providĂȘncia cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro tambĂ©m. NĂŁo queria fazer mal a vocĂȘ. NĂŁo queria que vocĂȘ chorasse. NĂŁo queria cobrar absolutamente nada. Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar.

Te escrevo com um cigarro aceso e uma xĂ­cara de chĂĄ de boldo. A escrivaninha Ă© muito antiga, daquelas que tĂȘm uma tampa, parece piano. Tem um pĂŽster com Garcia Lorca na minha frente. Um retrato enorme de Virginia Woolf. E posso ver na estante assim, de repente, todo o Proust, e muito Rimbaud, e Verlaine, Faulkner, Ítalo Svevo, William Blake. Umas reproduçÔes de Picasso. Outras de Da Vinci. Um biscuit com um pierrĂŽ tĂŁo patĂ©tico. Uma pedra esotĂ©rica ainda de Stonehenge, Inglaterra, uma caixinha indiana. Todos os meus pedaços aqui.

E vocĂȘ nĂŁo me conhece, eu nĂŁo conheço vocĂȘ.

Te escrevo por absoluta necessidade. NĂŁo conseguiria dormir outra vez se nĂŁo te escrevesse.

Zelda, hĂĄ tambĂ©m o Ășnico romance escrito por Zelda Fitzgerald, a mulher de Scott Fitzgerald, que morreu louca, um incĂȘndio, um hospĂ­cio. Chama-se “Save me the waltz”. “Reserve-me a valsa”, nĂŁo Ă© lindo? Lembra o Brahma, se se dançasse no Brahma.

Please, save me the waltz.

Fiz fantasias. No meu demente exercĂ­cio para pisar no real, finjo que nĂŁo fantasio. E fantasio, fantasio. AtĂ© o Ășltimo momento esperei que vocĂȘ me chamasse pelo telefone. Que vocĂȘ fosse ao aeroporto. Casablanca, Ășltima cena. Todas as cartas de amor sĂŁo ridĂ­culas. Esse lugar confuso de que fala Caetano. E eu estava sĂł começando a entrar num estado de amor por vocĂȘ. Mas nĂŁo me permiti, nĂŁo te permiti, nĂŁo nos permiti. Pedro Paulo me dizendo no ouvido “nunca vi essas luz nos seus olhos”.

Eu nĂŁo queria saber.

Tão artificial, tão estudado. Detesto ouvir minha voz no gravador ou ver minha imagem em vídeo. SÎo falso para mim mesmo. A calma, o equilíbrio, as palavras ditas lentamente, como se escolhesse. Raramente um gesto, um tom mais espontùneo. Tão bom ator que ninguém percebe minha péssima atuação.

VocĂȘ compreende tudo isso?

Pausa. Campainha. O jornal de domingo. Desço, outro chĂĄ de boldo. Um comentĂĄrio de Rubens Ewald sobre Aqueles dois, diz que Ă© excelente, fala da “dignidade e tratamento delicado dado ao tema”. Lembro da crĂ­tica de SĂ©rgio Augusto, de como fez mal por dentro. JĂĄ passou.

Quando pergunto vocĂȘ-compreende-tudo-isso nĂŁo estou subestimando vocĂȘ. Ah, deus, perdoe. NĂŁo sinto agressividade nenhuma em relação a vocĂȘ. E gosto das tuas histĂłrias. E gosto da tua pessoa. DĂĄ um certo trabalho decodificar todas as emoçÔes contraditĂłrias, confusas, soma-las, diminui-las e tirar essa sĂ­ntese numa palavra sĂł, esta: gosto.

Dormi umas trĂȘs horas e acordei ouvindo Quereres, de Caetano. Repeti, vĂĄrias vezes, cada vez mais alto. Ah, bruta flor do querer. Discutia tanto com Ana Cristina CĂ©sar, antes que ela acolhesse a morte (acertadamente? Me pergunto atĂ© hoje, nunca sei responder): nossa necessidade fresca & neurĂłtica de elaborar sofrimentos e rejeiçÔes e amarguras e pequenos melodramas cotidianos para depois sentar Atormentado & SolitĂĄrio para escrever Belos Textos LiterĂĄrios.

O escritor Ă© uma das criaturas mais neurĂłticas que existem: ele nĂŁo sabe viver ao vivo, ele vive atravĂ©s de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O nĂŁo-real, o nĂŁo-palpĂĄvel. VocĂȘ me dizia “que diferença entre vocĂȘ e um livro seu”. Eu nĂŁo sou o que escrevo ou sim, mas de muitos jeitos. Alguns estranhos.

NĂŁo hĂĄ nenhum subtexto nisto que te escrevo. NĂŁo acho bonito que a gente se disperse assim, sĂł isso. Encontre, desencontre e nada mais, nunca mais, Ă© urbano demais - e eu nasci praticamente no campo, atĂ© os 15 anos quase no campo, cĂ©u e campo. NĂŁo sei se a gente pode continuar amigo. NĂŁo sei se em algum momento cheguei a ver vocĂȘ completamente como Outra pessoa, ou, o tempo todo, como Uma Possibilidade de Resolver Minha CarĂȘncia. Estou tentando ser honesto e limpo. Uma possibilidade que eu precisava devorar ou destruir. Porque atĂ© hoje nĂŁo consegui conquistar essa disciplina, essa macrobiĂłtica dos sentimentos, essa frugalidade das emoçÔes.

Fico tomado de paixĂŁo. HĂĄ tempos nĂŁo ficava.

E toda essa peste, meu amigo. O que tem me mantido vivo hoje Ă© a ilusĂŁo ou a esperança dessa coisa, “esse lugar confuso”, o Amor um dia. E de repente te proĂ­bem isso. Eu tenho me sentido muito mal vendo minha capacidade de amar sendo destroçada, proibida, impedida, aos 36 anos, tĂŁo pouco. Nem vivi nada ainda. E nĂŁo sou sequer promĂ­scuo. Dum romantismo nĂŁo pĂłs, mas prĂ© todas as coisas - um romantismo que exige sexualidade e amor juntos. Nunca consegui. Uns vislumbres, visĂ”es do esplendor. Me pergunto se atĂ© a morte - serĂĄ? SerĂĄ amor essa carĂȘncia e essa procura de amor, nunca encontrar a coisa?

Das minhas heterossexualidades, dois filhos mortos, nĂŁo ficou nada. Das minhas homossexualidades, esse pĂąnico lento e uma solidĂŁo medonha. A hora Ă© tĂŁo grave.

Vim pegar energia. Sim. Preciso ver a terra, preciso do horizonte do pampa. Jå começa a agir, meus ombros se soltaram. Olhei no espelho e aquela ruga entre as sobrancelhas se desfez.

NĂŁo quero me tornar uma pessoa pesada, frustrada, amarga. NĂŁo vou me tornar assim. EntĂŁo vacilo, escorrego e a mania de perfeição virginiana e a estĂ©tica libriana no dia seguinte me dizem “que vergonha, que vergonha, que vergonha”.

Eu podia dizer que tinha/tĂ­nhamos bebido demais. Eu podia dizer que estava com tanto medo de vir para Porto Alegre. Eu podia contar a vocĂȘ dos meus Ășltimos meses, oito, dez, doze horas por dia sobre a mĂĄquina de escrever, falando com quase ninguĂ©m. Sozinho, Ă s vezes. Cantando tambĂ©m. Tudo isso, se eu te dissesse, talvez tivesse ajudado a doer menos em vocĂȘ.

De repente me passa pela cabeça que vocĂȘ pode estar detestando tudo isso e achando longo e choroso e confuso. Mas eu nĂŁo quero ter vergonha de nada que eu seja capaz de sentir. Tento nĂŁo ficar assustado com a idĂ©ia que este tempo aqui Ă© curto, que eu vou voltar a SĂŁo Paulo e que talvez nĂŁo veja mais vocĂȘ. Sei que nĂŁo fico assustado demais, e enfrento, e reconstituo os pedaços, a gente enfeita o cotidiano - tudo se ajeita. Menos a morte.

Mas de tudo isso, me ficaram coisas tĂŁo boas
 Uma lembrança boa de vocĂȘ, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De nĂŁo morrer, de nĂŁo sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trarĂĄ, porque sempre traz, e entĂŁo nĂŁo repetir nenhum comportamento. Ser novo.

Quando te falo da idade, quando te falo do tempo, e nĂŁo tivemos tempo - queria te falar de Cronos, Saturno, da volta pelo ZodĂ­aco quando se completa 30 anos. A tua estrela Ă© muito clara, tem sinais bons na tua testa. Compreendo teu PlutĂŁo e a Lua encarcerados na casa XII - as emoçÔes e paixĂ”es aprisionadas -, e tambĂ©m Urano, todo o impulso bloqueado. Na mesma casa, a do Karma, a dos espĂ­ritos que mais sofrem, tenho tambĂ©m o Sol, MercĂșrio e Netuno. Somos muito parecidos, de jeitos inteiramente diferentes: somos espantosamente parecidos. E eu acho que Ă© por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim - para nĂŁo querer, violentamente nĂŁo querer de maneira alguma ficar na sua memĂłria, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura. Perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inĂĄbeis, desajeitadas, de segurar a maçã no escuro. Me queira bem.

Estou te querendo muito bem neste minuto. Tinha vontade que vocĂȘ estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importĂąncia, algumas. Fique feliz, fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. VocĂȘ Ă© muito lindo e eu tento te enviar a minha melhor vibração de axĂ©. Mesmo que a gente se perca, nĂŁo importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para vocĂȘ, para mim.

Com cuidado, com carinho grande, te abraço forte e te beijo,

Caio F.

p.s.: Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem vocĂȘ nem eu somos descartĂĄveis. E amanhĂŁ tem sol.

Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu: Cartas

Como saber quanto é demais? Demais, cedo demais. Informação demais. Diversão demais. Amor demais, ou demais pra se pedir de alguém? Quanto é demais de tudo pra que consigamos suportar?

Quando na realidade o amor Ă© uma coisa tĂŁo simples... Veja-o como uma flor que nasce e morre em seguida por que tem que morrer. Nada de querer guardar a flor dentro de um livro, nĂŁo existe nada mais triste no mundo do que fingir que hĂĄ vida onde a vida acabou.

Lygia Fagundes Telles
VerĂŁo no aquĂĄrio. SĂŁo Paulo: Companhia das Letras, 2010.

VocĂȘ pode nĂŁo ter sido meu primeiro amor, mas foi o amor que tornou todos os outros amores irrelevantes.

Se era amor? NĂŁo era. Era outra coisa. Restou uma dor profunda, mas poĂ©tica. Estou cega, ou quase isso: tenho uma visĂŁo embaraçada do que aconteceu. É algo que estimula minha autocomiseração. Uma inexistĂȘncia que machucava, mas ninguĂ©m morreu. É um velĂłrio sem defunto. Eu era daquele homem, ele era meu, e nĂŁo era amor, entĂŁo era o quĂȘ?
Dizem que as pessoas se apaixonam pela sensação de estar amando, e nĂŁo pelo amado. É uma possibilidade. Eu estava feliz, eu estava no compasso dos dias e dos fatos. Eu estava plena e estava convicta. Estava tranquila e estava sem planos. Estava bem sintonizada. E de um dia para o outro estava sozinha, estava antiga, escrava, pequena. Parece o final de um amor, mas nĂŁo era amor. Era algo recĂ©m-nascido em mim, ainda nĂŁo batizado. E quando acabou, foi como se todas as janelas tivessem se fechado Ă s trĂȘs da tarde num dia de sol. Foi como se a praia ficasse vazia. Foi como um programa de televisĂŁo que sai do ar e ninguĂ©m desliga o aparelho, fica ali o barulho a madrugada inteira, o chiado, a falta de imagem, uma luz incĂŽmoda no escuro. Foi como estar isolada num paĂ­s asiĂĄtico, onde ninguĂ©m fala sua lĂ­ngua, onde ninguĂ©m o enxerga. Nunca me senti tĂŁo desamparada no meu desconhecimento.
Quem pode explicar o que me acontece dentro? Eu tenho que responde Ă s minhas prĂłprias perguntas. Eu tenho que ser serena para me aplacar minha prĂłpria demĂȘncia. E tenho que ser discreta para me receber em confiança. E tenho ser lĂłgica para entender minha prĂłpria confusĂŁo. Ser ao mesmo tempo o veneno e o antĂ­doto.
Se nĂŁo era amor, Lopes, era da mesma famĂ­lia. Pois sobrou o que sobra dos coraçÔes abandonados. A carĂȘncia. A saudade. A mĂĄgoa. Um quase desespero, uma espĂ©cie de aviĂŁo em queda que a gente sabe que vai se estabilizar, sĂł nĂŁo sabe se vai ser antes ou depois de se chocar com o solo. Eu bati a 200Km/h e estou voltando a pĂ© pra casa, avariada.
Eu sei, nĂŁo precisa me dizer outra vez. Era uma diversĂŁo, uma paixonite, um jogo entre adultos. Talvez seja este o ponto. Talvez eu nĂŁo seja adulta suficiente para brincar tĂŁo longe do meu pĂĄtio, do meu quarto, das minhas bonecas. Onde Ă© que eu estava com a cabeça, Lopes, de acreditar em contos de fadas, de achar que a gente manda no que sente e que bastaria apertar o botĂŁo e as luzes apagariam e eu retornaria minha vida satisfatĂłria, sem sequelas, sem registro de ocorrĂȘncia?
Eu nunca amei aquele cara, Lopes. Eu tenho certeza que nĂŁo. Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada. NĂŁo era amor, era uma sorte. NĂŁo era amor, era uma travessura. NĂŁo era amor, era sacanagem. NĂŁo era amor, eram dois travessos. NĂŁo era amor, eram dois celulares desligados. NĂŁo era amor, era de tarde. NĂŁo era amor, era inverno. NĂŁo era amor, era sem medo. NĂŁo era amor, era melhor.

O amor faz passar o tempo; o tempo faz passar o amor.

"Eu vou cercĂĄ-la de amor enquanto rezo por sua felicidade."

Nunca pense que seu amor Ă© impossĂ­vel, nunca diga "eu nĂŁo acredito no amor". A vida sempre nos surpreende.

O amor nĂŁo funciona desse jeito, concluĂ­. Depois que vocĂȘ gosta de uma pessoa, Ă© impossĂ­vel ser lĂłgica com relação a ela.

Eu quero a sorte de um amor tranquilo
Com sabor de fruta mordida
NĂłs na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pĂŁo, ser tua comida
Todo o amor que houver nessa vida
E algum trocado para dar garantia

E ser artista no nosso convĂ­vio
Pelo inferno e céu de todo dia
Para poesia que a gente nĂŁo vive
Transformar o tédio em melodia
Ser teu pĂŁo, ser tua comida
Todo o amor que houver nessa vida
E algum veneno anti-monotonia

E se eu achar a sua fonte escondida
Te alcance em cheio o mel e a ferida
E o corpo inteiro feito um furacĂŁo
Boca, nuca, mĂŁo, e a tua mente, nĂŁo
Ser teu pĂŁo, ser tua comida
Todo o amor que houver nessa vida
E algum remĂ©dio que me dĂȘ alegria

NĂŁo procure a quem amar, pois Ă© o amor que escolhe a quem deve juntar.

Meu amor, nesse dia queria apenas te dizer que vocĂȘ nĂŁo Ă© sĂł a minha metade, vocĂȘ Ă© meu tudo, vocĂȘ Ă© minha verdade, vocĂȘ Ă© meu caminho, vocĂȘ Ă© meu futuro, minha vontade, vocĂȘ Ă© meu coqueiro, eu sou sua ilha. Com vocĂȘ eu vou para todo lugar, vocĂȘ Ă© minha estrela que mais brilha, agradeço a Deus por te encontrar, pessoa como vocĂȘ Ă© um grĂŁo na areia do mar. Como Ă© bom te amar.

Nem sempre o amor ganha. Às vezes vocĂȘ terĂĄ que abrir mĂŁo dele pra continuar. Às vezes Ă© o outro quem irĂĄ embora. NĂŁo por egoĂ­smo ou intuição, mas por força. É preciso força para abandonar coisas, roupas que nĂŁo servem mais, pessoas que a gente ama muito. É com muita força tambĂ©m que vocĂȘ segue em frente. E encontra outros motivos para viver. Porque força e coragem dependem de vocĂȘ.

Do primeiro amor gosta-se mais, dos outros gosta-se melhor.

Para onde vĂŁo as palavras de amor nĂŁo ditas?
Esquecidas em orfanatos por serem precoces demais

Envelhecidas em asilos..
por terem enrugado e perdido a independĂȘncia

Amarradas em camisa de força
por serem insanas e incontrolĂĄveis

Suplicando nas sarjetas
por precisarem de ajuda

Nas fotos dos desaparecidos
por um dia ter virado saudade

Se por ventura elas forem vistas por ai
diga que sinto fala.
sinto muita falta.

Viver um amor nĂŁo correspondido Ă© como ver um cĂ©u cheio de estrelas e se encantar com o brilho apenas de uma. Por mais que vocĂȘ a veja, sabe que nunca poderĂĄ alcançå-la.

A inutilidade e o amor

Ter que ser Ăștil pra alguĂ©m Ă© uma coisa muito cansativa. É interessante vocĂȘ saber fazer as coisas, mas acredito que a utilidade Ă© um territĂłrio muito perigoso porque, muitas vezes, a gente acha que o outro gosta da gente, mas nĂŁo. Ele estĂĄ interessado naquilo que a gente faz por ele. E Ă© por isso que a velhice Ă© esse tempo em que passa a utilidade e aĂ­ fica sĂł o seu significado como pessoa. Eu acho que Ă© um momento que a gente purifica, nĂ©? É o momento em que a gente vai ter a oportunidade de saber quem nos ama de verdade.

Porque sĂł nos ama, sĂł vai ficar atĂ© o fim, aquele que, depois da nossa utilidade, descobrir o nosso significado. Por isso eu sempre peço a Deus para poder envelhecer ao lado das pessoas que me amem. Aquelas pessoas que possam me proporcionar a tranqĂŒilidade de ser inĂștil, mas ao mesmo tempo, sem perder o valor.

Quero ter ao meu lado alguém que saiba acolher a minha inutilidade. Alguém que olhe pra mim assim, que possa saber que eu não servirei pra muita coisa, mas que continuarei tendo meu valor.

Porque a vida Ă© assim, fique esperto, viu? Se vocĂȘ quiser saber se o outro te ama de verdade Ă© sĂł identificar se ele seria capaz de tolerar a sua inutilidade. Quer saber se vocĂȘ ama alguĂ©m? Pergunte a si mesmo: quem nessa vida jĂĄ pode ficar inĂștil pra vocĂȘ sem que vocĂȘ sinta o desejo de jogĂĄ-lo fora?

É assim que descobrimos o significado do amor. SĂł o amor nos dĂĄ condiçÔes de cuidar do outro atĂ© o fim. Por isso eu digo: feliz aquele que tem ao final da vida, a graça de ser olhado nos olhos e ouvir do outro: "vocĂȘ nĂŁo serve pra nada, mas eu nĂŁo sei viver sem vocĂȘ".

Despedida de nĂłs

Hoje estamos partindo de nĂłs
NĂŁo sabemos aonde o amor se perdeu
Tudo o que fizemos e sonhamos
Tanto amor e carinho
Deixamos pelo caminho

Hoje estamos nos despedindo
Com incertezas, dĂșvidas, saudade
Nos olhamos, mas os olhos
Marejados pela tristeza
NĂŁo conseguiram se encontrar

Não tivemos tempo para um abraço
Como no primeiro encontro
NĂŁo tivemos tempo para um sorriso
Como tantos que o tempo nos deu
O mesmo tempo que agora
Diz que nosso tempo acabou

Tempo!
Por que nĂŁo parou naquele exato momento
Do carinho, paixĂŁo e alegria
Por que nĂŁo parou naquele instante
Do beijo roubado, do carinho ousado
Do amor bem feito
Por que, tempo?

Tinha que ser desse jeito?
Resolveu parar logo agora
Na hora da dor
Da saudade
E da falta que faz
Um grande amor
Por quĂȘ?