Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza đ
Amar Ă© ser ferido de morte diariamente. Morre o ego, o individualismo, o "eu".
Amar Ă© reviver diariamente.
VocĂȘ vai andar sob o gume da espada. E enquanto seus pĂ©s sangrarem ao corte, todos ao redor se perguntarĂŁo os motivos por nĂŁo estar usando botas, ao invĂ©s de se perguntarem o motivo dos gritos. O homem Ă© superfĂcie, e seu coração Ă© uma planĂcie ĂĄrida.
Quando as coisas que jĂĄ foram incĂŽmodas, que doĂam, acontecem na sua frente e nĂŁo causam nada, Ă© o alĂvio mais profundo que sua alma sentirĂĄ. Ă como um espinho que estava preso e um dia simplesmente caiu sozinho.
Eu abriria mão de todas as homenagens que poderia receber depois da morte por um "eu te amo" realmente sincero em vida. As pessoas esperam demais pelas coisas que não são, até que realmente deixam de ser.
Nunca é numa praia às 23:00 da noite sob a luz do luar, ou numa praça antes do nascer do sol. à no bar, é numa taverna, num botequim qualquer, numa esquina sem iluminação, num portão velho. São nesses lugares que os maiores acertos e decepçÔes do amor realmente acontecem.
DE COR
Esse jogo de correr Ă© sem fim
VocĂȘ corre das contas,
Dos problemas,
De mim.
Foge de tudo
No inĂcio
Meio
Fim.
Sabe o que busca e tem medo
Sabe o que quer e nĂŁo estende a mĂŁo.
DestrĂłi tua prosa e teu verso
No medo de outra ingratidĂŁo.
Esquece que outrO risco Ă© viĂĄvel
Abre mĂŁo do que hĂĄ de melhor.
Sozinhos sĂŁo todos mais livres
Livres, infelizes e sĂł.
Abre os braços e vå de encontro
Desencontro que ata esse nĂł.
Ser feliz Ă© possĂvel, Ă© palpĂĄvel
Eu prometo, disso eu sei de cor.
Pessoas ficam no mesmo trabalho por anos, as vezes décadas, somente pelo comodismo. Sentem que não vão arranjar coisa melhor, que não possuem capacidade para serem felizes em outro lugar, e assim o tempo passa. Ah, isso também se aplica ao amor.
Tenho mil coisas no coração que provavelmente apodrecerão com ele no final. Tudo que senti, foi unicamente e exclusivamente meu.
A palavra de ordem sempre foi a "parcimĂŽnia". A medida certa de tudo que tĂĄ disposto a dar e fazer por alguĂ©m. Sempre amar na mesma medida, e responder o carinho na mesma quantidade. Ă impossĂvel ser feliz quando Ă© o Ășnico que se doa ao mĂĄximo.
Talvez, se eu tivesse sido um pouco mais corajoso, teria dito para as pessoas o quanto as amava, o quanto eram importantes. O tempo passou, e os sentimentos delas sĂŁo banais, superficiais e frios. Uma pena...
Acredito que para namorar, casar, enfim... Para que se chegue nessa decisĂŁo, uma pessoa precisa estar tomada por uma vontade, uma decisĂŁo profundamente convicta. NĂŁo se faz nada por motivos de "se nĂŁo der certo, eu sigo em frente", porque existe o outro lado, a outra pessoa, e ela pode nĂŁo ser tĂŁo boa em seguir em frente quanto vocĂȘ Ă©. O emocional nĂŁo Ă© um jogo.
â Lamento morena, desculpa dizer. NĂŁo fomos longe como achĂĄvamos possĂvel. Planejamos a longo prazo sem resolver as pendĂȘncias do agora. Lamentamos os lamentos de dois jovens que acreditavam serem vividos ou sĂĄbios o bastante para reconhecer e perseverar na verdadeira natureza do amor. Agora somos assim. Indiferentes, frios, distantes como uma estrela que viaja sĂł no espaço gelado. Faltou diĂĄlogo, meu bem. Mais do que isso, faltou conexĂŁo. Daquelas que a gente olha no olho e sabe que nĂŁo tĂĄ bem, e que reconhece no tom das brincadeiras que o riso Ă© agora frouxo e sem viço. Nessa dor sem fim, o fim veio a galope. Devorou os planos como a personificação da fome, bebeu da nossa pureza como a encarnação da sede, deixando no nosso oĂĄsis particular esse Saara de agonia, ĂĄrido, seco, vazio...
â NĂŁo Ă© sobre o que pensamos Ă s 2:00h da manhĂŁ em meio a solidĂŁo, e sim o que vem a mente numa tarde de domingo leve e tranquila. NinguĂ©m precisa de ninguĂ©m. Todos precisam de si apenas, e quando aprendem, aĂ estĂŁo prontos para pensar mais alĂ©m.
â As 19:00 eu nĂŁo era ninguĂ©m. Talvez nem tivesse essa pretensĂŁo. AtĂ© ali eu sempre estive sozinho, meus livros, bebidas e pensamentos. Quando bateu 20:00 eu ouvi uma voz, como quem chama em sussurros, e convida atravĂ©s de um buraco na fechadura da porta. Curioso e sozinho eu atendi. As 21:00 eu te vi pela primeira vez. Mas apesar de muito explĂcito o que vocĂȘ pensava, talvez o comodismo de estar sempre sĂł nĂŁo me permitia sair naquela noite. O relĂłgio soou Ă s 22:00 e eu resolvi apostar. Estava tĂŁo linda, e sua gentileza e bondade enrolados num sorriso mexeram com algo que eu nĂŁo sabia que tinha, ou que era capaz de sentir. 23:00 e a noite era nossa! A mĂșsica, a dança, fitei a felicidade como nunca antes na minha vida. 00:00! "Faça um pedido", nos beijamos. Talvez ele tenha se concretizado rĂĄpido. As vezes essa Ă© a sorte de uma vida. Como uma moeda da sorte. NĂŁo mais contei as horas, sĂł queria estar ali pra sempre.
O Trem das Cinco e Quinze
Na SuĂça, os trens sĂŁo pontuais como o bater de um relĂłgio de cuco. Foi Ă s cinco e quinze da tarde, precisamente, que ela entrou no vagĂŁo carregando uma mala de rodinhas desengonçada e um livro sob o braço. Ele jĂĄ estava lĂĄ, sentado prĂłximo Ă janela, com os olhos perdidos nos Alpes que desfilavam como pinceladas brancas e cinzas. O sol de inverno, baixo e pĂĄlido, fazia o lago de Zurique cintilar Ă distĂąncia, como um espelho quebrado.
Ele a viu primeiro tropeçar no degrau do trem, recuperar o equilĂbrio com uma risada abafada pelo cachecol vermelho. Ela se sentou diagonalmente a ele, dois assentos de distĂąncia. Entre eles, apenas o silĂȘncio alpino e o leve rangido do trem nos trilhos. AtĂ© que, em algum momento apĂłs St. Gallen, ele perguntou, em um alemĂŁo hesitante, se ela sabia a que horas chegariam a Lucerna. Ela respondeu em inglĂȘs, com sotaque francĂȘs: "VocĂȘ fala como quem decorou as frases de um manual ontem Ă noite". Ele riu, confessando que era brasileiro, um arquiteto em fuga de um projeto mal resolvido no Rio. Ela, por sua vez, era belga, pianista, voltando de um concerto em Viena onde havia tocado Chopin para uma plateia de casacos de pele e suspiros contidos.
No vagĂŁo-restaurante, dividiram uma garrafa de vinho branco suĂço tĂŁo seco quanto o humor dela. Ele falou de linhas retas e concreto; ela, de escalas menores e metrĂŽnomo. Quando o trem atravessou um tĂșnel, a escuridĂŁo os uniu mais do que a luz: naquele breu repentino, suas mĂŁos se encontraram sobre a mesa de mĂĄrmore, e nenhum dos dois soube dizer quem havia se movido primeiro.
Em Lucerna, desceram juntos, embora ela devesse seguir para Bruxelas e ele para MilĂŁo. Na plataforma nĂșmero 3, sob o relĂłgio que marcava sete e quarenta e trĂȘs, ele lhe deu um cartĂŁo de visita rabiscado com o nĂșmero de um hotel em Veneza. Ela lhe entregou uma partitura improvisada no verso de um mapa de trem, com notas que subiam e desciam como os trilhos que os haviam levado atĂ© ali. Prometeram escrever, ligar, encontrar-se na primavera. O beijo foi breve â um sopro de vapor no ar gelado â, mas suficiente para que, anos depois, ambos ainda se perguntassem se o gosto daquele momento havia sido de vinho, neve derretida ou simplesmente de *quase*.
Ele seguiu para o sul, onde o concreto de seus projetos ganharia raĂzes. Ela voltou ao norte, onde as teclas do piano a esperavam, frias e pacientes. Escreveram-se por um tempo, cartas que levavam semanas para cruzar a Europa, atĂ© que uma delas se perdeu no correio de Berna, e a outra, por orgulho ou cansaço, nunca foi reenviada.
Anos mais tarde, numa estação em Genebra, ele reconheceria uma melodia ao piano distante â *Nocturne op. 9 nÂș 2* â tocada por mĂŁos que jĂĄ nĂŁo usavam anel. Sentado num banco, deixaria o trem das cinco e quinze partir sem ele, paralisado pela doce crueldade de um destino que os reunia apenas em segundas estrelas, estaçÔes erradas, e em todas as versĂ”es nĂŁo vividas daquela tarde nos Alpes, onde o amor foi tĂŁo preciso quanto um horĂĄrio de trem, e tĂŁo fugaz quanto o vapor de seu hĂĄlito misturando-se ao frio.
"A Chuva que Trouxe VocĂȘ"
O Rio de Janeiro acordou coberto por um vĂ©u de nuvens cinzentas. A chuva fina, persistente, descia sem pressa, transformando as calçadas em espelhos que refletiam os contornos da cidade. Era um dia que parecia pedir cafĂ© quente, janelas embaçadas e histĂłrias para contar. Foi assim, entre pingos e esquivas, que Clara e Mateus se encontraram â ou reencontraram â na esquina da Rua do Ouvidor, no Centro.
Clara, de guarda-chuva vermelho desbotado e tĂȘnis encharcados, corria para escapar do aguaceiro quando tropeçou em uma poça. A bolsa escorregou de seu ombro, derramando livros e um caderno de esboços no asfalto. Antes que pudesse se lamentar, uma mĂŁo firme apareceu em seu campo de visĂŁo.
â Deixa eu ajudar â disse o dono da mĂŁo, um rapaz de cabelos cacheados e Ăłculos respingados de chuva. Ele usava um casaco azul-claro, jĂĄ manchado pela umidade, e um sorriso que parecia desafiar o tempo ruim.
Ela o reconheceu na hora. Mateus. Aquele colega de faculdade que sempre sentava no fundo da sala, desenhando nos cantos das folhas durante as aulas. Nunca haviam trocado mais que um "bom dia" tĂmido.
â VocĂȘ... faz Arquitetura, nĂ©? â perguntou Clara, recolhendo um livro sobre GaudĂ que ele entregou.
â E vocĂȘ desenha melhor do que qualquer um do curso â respondeu ele, apontando para o caderno aberto no chĂŁo, onde um esboço do Bondinho de Santa Teresa dominava a pĂĄgina.
A chuva insistia, mas eles pararam no meio da calçada, rindo da situação. Mateus sugeriu um café ali perto, no Largo das Artes, e ela aceitou antes mesmo que ele oferecesse dividir o guarda-chuva.
O lugar era pequeno, cheio de mesas de madeira riscada e o cheiro do expresso fresco. Enquanto secavam as mangas, a conversa fluiu como a ĂĄgua escorrendo pelas vidraças. Descobriram que ambos tinham o hĂĄbito de caminhar pela cidade nos dias chuvosos, colecionando detalhes invisĂveis sob o sol: grafites escondidos em becos, o brilho das pedras portuguesas molhadas, o silĂȘncio incomum da Praça XV.
â Acho que te vi uma vez desenhando no VLT â confessou Clara.
â Era eu! â ele riu, surpreso. â VocĂȘ passou correndo com um casaco amarelo. AtĂ© tentei te chamar, mas o bonde fechou a porta.
O tempo lĂĄ fora parecia ter parado, assim como o relĂłgio dentro do cafĂ©. Quando perceberam, jĂĄ era tarde, e a chuva diminuĂra para um mormaço. Mateus acompanhou Clara atĂ© o ponto de ĂŽnibus, sob o guarda-chuva agora compartilhado sem cerimĂŽnia.
â A gente podia... fazer isso de novo â ele sugeriu, as pontas dos dedos roçando os dela ao devolver o caderno.
â Ficar encharcado e perder o ĂŽnibus? â ela brincou, mas seus olhos nĂŁo disfarçavam a esperança.
â NĂŁo. Descobrir o Rio devagar, como se fosse a primeira vez.
Quando o Înibus chegou, Clara subiu os degraus sem saber se o calor no rosto vinha do café ou do aperto de mão prolongado que deixaram para trås. Na janela, viu Mateus acenando, até que a neblina e o trùnsito o levaram para fora de sua vista.
Naquela noite, enquanto a cidade secava sob um cĂ©u estrelado, Clara abriu o caderno. Na Ășltima pĂĄgina, um desenho novo: ela, de guarda-chuva vermelho, sorrindo sob a chuva do Rio. E no canto, um nĂșmero de telefone e uma frase: "AmanhĂŁ promete sol. Mas podemos torcer por outra tempestade."
â A amizade (da minha parte)
Miséria de amores que um dia foram radiantes,
Intensos e satisfeitos.
E um repouso lentoâŠ
TĂŁo lento que, dos amores, formou-se amizade.
Amizades â da minha parte.
Parte de quando finalizei na sexta,
E, em outra sexta, veio o recomeço.
E o ciclo se repete.
Miséria de amores que um dia foram radiantes,
Ardentes, ĂĄsperos, cortantes.
Agora, um repouso lentoâŠ
TĂŁo lento que, de colegas, tornaram-se desconhecidos.
E o ciclo, inevitĂĄvel, se repete.
