Indiretas de amor: demonstre interesse com sutileza đ
Na verdade, estou sentindo algo novo. Quando estava no fundo do poço, na mais obscura solidĂŁo, esperando que outra pessoa me salvasse, aparece vocĂȘ, um prĂncipe encantado no cavalo branco sobre o luar.
SĂł vocĂȘ me olhou nos olhos e me disse exatamente o que eu precisava naquele momento, e me fez o carinho, que creio eu, seja o melhor do mundo. Aquele que eu sempre dei mas nunca recebi. Meu coração confuso, deve se entregar ou deve se guardar? Ă© difĂcil responder quando as estaçÔes estĂŁo mudando.
Ainda sinto falta da ponta do teu nariz frio mesmo em dias de verão, e do seu pescoço sempre quente e pronto para esquentar minhas pernas no inverno. As tardes ainda esperam as gargalhadas despreocupadas com sorvetes, e as noites aguardam ansiosas pelo cheiro da pizza de calabresa e a admiração como meninos bobos por céu estrelado
Eu soletro teu nome no escuro. Treino textos sem sentido para me declarar depois. Ouço sua voz ecoar pelos cÎmodos da casa. Ascendo a luz, mas não hå ninguém.
Nunca tinha vivido uma histĂłria tĂŁo intensa, nem tĂŁo bonita, de arrepiar. Nunca havia me doado tanto, acreditado tanto, como essa agora.
Então eu banquei o sincero e te disse que o que me sufocava era essa demora, esse seu medo de iniciar o que jå havia começado.
Sofria de uma doença grave e sem cura chamada romantismo-sem-endereço. Amava quem ainda não se fazia presente, inventava planos, falava ao telefone sem ter ninguém na linha. Sonhava com um sujeito sem rosto, sem tato e sem voz. Criava uma vida, uma personalidade, umas histórias conturbadas, e vivia disso. Vivia das manias, dos defeitos e de umas brigas que nunca existiram. Admirava gravatas nas vitrines. Dizia um sobrenome de casamento. Guardava presentes na gaveta, colecionava cartas que mandava para si próprio. Nunca trancava a porta do quarto antes de dormir. Escrevia para ninguém. Chamava e esperava o futuro para que assim fosse.
E eu fico lembrando do seu jeito sĂ©rio e suas palavras cuidadosamente escolhidas no momento em que o silĂȘncio prevalece entre nĂłs. Eu dou risada dessa sua cara porque essa coisa de melhor amigo, no nosso caso, nunca fez sentido dentro da minha cabeça.
Havia um pouco da gente em cada canto. Havia a gente. Era tanto, que eu nĂŁo sabia distinguir vocĂȘ de mim.
Ainda sinto meus cĂlios dormentes, porque forço meus olhos, para que eu nĂŁo adormeça, para nĂŁo deixar de pensar em vocĂȘ.
Dia desses, desligou o celular, roeu as unhas e chorou no banho por causa de uma paixĂŁo quase boba.
E para que nĂŁo doesse demais, deixei que o tempo resolvesse por si sĂł. NĂŁo fazia mais o mĂnimo esforço para dar certo.
Ăs vezes passa sĂł um pouquinho. Mas aĂ volta mais pesada, dolorosa, sem dosagem. Nenhum ser humano Ă© capaz de aguentar. Ă uma dor desocupada, amargurada, infeliz. Me mata todos os dias.
DaĂ depois veio com aquele papo que eu apareci na hora errada, que eu era especial demais, que nĂŁo queria me fazer sofrer. Mal sabia que eu jĂĄ havia me entregado tanto, e que, a essa altura, nĂŁo tinha mais volta.
Demorou, mas os ventos de maio chegaram. Espero que levem o que for contrĂĄrio, desde sonhos quebrados atĂ© o que jĂĄ se foi, mas insiste ficar. Ă preciso escancarar portas e janelas, reaprender a viver, a amar, a se doar com cuidado, com fĂ©, sem angĂșstia. Ă preciso aproveitar os ventos para se buscar, se renovar de alguma forma, ignorar quem nĂŁo acrescenta. E, se nĂŁo for pedir demais, Ă© preciso comandar completamente a prĂłpria vida, começar esses dias se amando insaciavelmente.
Depois apareceu dizendo que tinha arranjado um namorado novo, que estava cheio de planos, que nunca tinha sido feliz como agora. E eu pedia por dentro pra que esse nĂŁo sofresse tanto quanto eu.
Ăs vezes eu penso que vocĂȘ deve ler as coisas que eu escrevo, ao lado de alguĂ©m, e deve ficar rindo da minha cara.
