Ilusão Amorosa
Madrugada dos cães boêmios
Lá fora ouço gritos e aqui dentro, apenas um grunido.
Madrugada dos cães boêmios
Aqui dentro o reprimido permeia-me o coração e lá fora, há inquietude solidão.
Madrugada dos cães boêmios
Aqui dentro o pensamento traiu-me feito judas, enquanto lá fora há tantas lembranças que não são tuas.
Madrugada dos cães boêmios
Aqui dentro estou morrendo aos poucos, lá fora, viverei a ilusão de uma só vez.
As vezes tudo é difícil, até viver é difícil. Mas, essa dificuldade não é por não conseguir uma dada coisa, é por não conseguir lhe dar com algumas situações, é por não saber lhe dar com as decepções, as mentiras e as ilusões.
Tá difícil de entender
Pq estar sendo você
Se a cada trago
Fica mais difícil de esquecer
Não sei o que fazer
Já tentei até esconder
Mas quanto mais eu nego
Mais eu quero pertencer
Por que tem que ser você?
Quanto mais eu tento esquecer
Mas quero aprender
Eu só queria me convencer
Que não é você que quero ser eterno
Mas quando eu abro o caderno
Só tem você
Então não abuse, só escute
Que eu tô gostando de você
VOCÊ SONHOU COMIGO
Enquanto tomava meu café da tarde, ouvi ao fundo, mas não tão distante, acusarem os sonhos de serem apenas sonhos. Fiquei atordoado. Saber que na grande parte das vezes é impossível ter controle sobre tal, já me diz muito sobre seus feitos. É no sonho que manifestamos os desejos mais ocultos da alma, onde não existe certo ou errado, tentação ou amor, verdade ou mentira. Alguns podem até se convencer de que tudo é fruto do acaso, difícil seria me convencer.
A ÓRFÃ
Sou órfã desde que nasci. Cresci e me apaixonei por um garoto, este, nasceu numa família estruturada. Se datava de uma manhã de 18 de novembro, tínhamos marcado de se encontrar na cafeteria que ficara há 8 metros de sua casa, mas ele novamente não apareceu, deixando seu bilhete de desculpas; um alento, seu vigésimo bilhete. Muito demorei para entender a razão de nunca tê-lo deixado; isto se dava por motivos que estavam impregnadas as minhas vísceras e perpassavam despercebidas aos meus olhos. Nunca o abandonei, por já ter sido abandonada. Nunca o deixei, por já ter sido deixada. Nunca o esqueci, por já ter sido esquecida! Contudo, abandonei a mim mesma permanecendo em algo que só me trazia dor, e me desculpe, não sou mais órfã.
"LADRÃO! LADRÃO! LADRÃO!"
Ouve as vozes e os gritos que me denunciam, mas sabes tu que não cometi crime algum. Achei ser amostra grátis, apenas me fui, e me ser fiel causou tudo isso. Segues me olhando distante, sabe que não roubei nada e mesmo assim se mantém estático. Onde se encontra a tua verdade, nos gritos ou em mim?! Roubei a amostra ou teu coração?
Meus textos não se limitam aos estados do tempo, nem a consciência que irá recebê-los. Não escrevo para causar dor, dúvida, tristeza, falsa declaração, ou, até mesmo entendimento, apenas escrevo por escrever e isso basta-me. Talvez esse seja o segredo, escrever pelo sentir, e entender que nem todos os textos precisam de dedicatória.
O CARRO VERMELHO
As pessoas não entendiam o porquê do meu choro incessável. Certamente, essa incompreensão se dera, pois, havia eu acabado de vivenciar o mais puro livramento de vida, ainda assim, isso não anulava nem um pouco a dor que me foi causada no acidente. Naquela maca de hospital pude perceber que pior do que não receber o amor da forma que compartilha, é ser enganado pelo próprio "amor". O carro da ilusão uma hora há de atingir um limite de velocidade tão alto que será impossível não bater em algum obstáculo, e foi isso que me ocorreu; lá estava eu, atravessando a rua, quando você veio descontrolado e me atropelou. Confesso que as cicatrizes ainda doem. Quando te vejo me olhar, enquanto estou sem fala e paralisado pelo gesso que envolve todo meu corpo, a única coisa que meus olhos refletem por você é aversão e desprezo. Mas, deixe-me encerrar esse relato da forma que queres. A culpa não é sua! Eu que lhe presenteei com o carro, que carinhosamente por ser vermelho, você chamou de coração.
PREMONIÇÃO
Meus batimentos perdiam a força a cada dia que se passava. Você vinha me visitar, dava-me um beijo na testa e colocava mais uma flor ao lado da minha cama. Para você, todos aqueles gestos externavam seu amor por mim, mas nunca fôra isso. Nos últimos meses antes do diagnóstico, você nunca me deu uma flor, nem se quer um beijo na testa, tudo que sentia ao seu lado era ausência de calor.
Diariamente, deitada e enfraquecida, observei você achar estar me amando, quando a única coisa que eu enxergava em tudo aquilo, era alguém se culpando pela minha doença, alguém tão egocêntrico a ponto de achar ser a cura daquilo que não se cura. Seu coração palpitou por mim, mas não foi de amor, foi paixão. Economize essas rosas e os beijos na testa, ainda não estou morta.
RAZÃO E EMOÇÃO
Sempre prezei pela justiça, mas meu julgamento não lhe foi justo. Talvez por isso a razão e a emoção, não se devem misturar.
Tudo que fiz foi baseado na expectativa, e não em quem de fato você era. Talvez por isso a razão e a emoção, não se devem misturar.
Não te tratei como todos, pois nunca te vi como todos. Aos meus olhos você brilhou em meio a multidão, mas te julguei nos meus parâmetros de sofrimento. Talvez por isso a razão e a emoção, não se devem misturar.
Se pudesse agora te falar algo, nada falaria, somente olharia nos teus olhos, enquanto fôssemos envolvidos pelo silêncio. Talvez assim a razão e a emoção, não conseguiriam se misturar.
Quando dois recíprocos se encontram, um precisa demonstrar primeiro.
Quando dois orgulhosos se unem, um precisa abdicar primeiro.
Quando duas pessoas se abraçam, uma terá que se desvincular primeiro.
Quando dois fazem contato visual, um quebrará primeiro.
Disso consiste a união, ceder para poderem estar juntos outra vez, pois mais vale muitos beijos longos, do que um beijo que nunca se finda.
GUIA
Cresci tendo que acreditar na mudança dos imutáveis, tendo que dividir aquilo de mais precioso que eu possuía, tendo que ter convicção que existia amor no errado. Como desprender-se de sua língua materna? Há de ser doloroso contrariar a própria natureza. Não pense que não me dói. Isso tudo, mal comparando, se assemelha há um cego que é guiado através de um cachorro, ao tato dos olhos vendados. Já não posso mais guiar-me pelo que sinto, pois, a cegueira invadiu meu coração.
SUBJETIVISMO
Nada fora concreto, somos um eterno subjetivismo. Do que se prece voltar e andar em círculos? Sabes bem que está nítido para o mundo que somos dois loucos, cada um vivendo sua história de fantasia, algo que a voz nunca materializou, mas que o peito adentrando o coração, já sentiu. Esse é o preço que se paga por uma visão turva, por agir como máquina, não sabendo o que quer, na verdade, pois se ninguém fala, ninguém sabe, se ninguém se entrega, hão de ser, um eterno subjetivismo.
A MENSAGEM
Todas às vezes que minha carne ansiar voltar para você, lembrarei das vezes em que me fez sentir-se louca, das vezes que vi você seguir, enquanto permaneci estagnada te esperando. Lembrarei de quando me aproximava de você e sentia meu coração pulsar, a ponto de perceber o sangue correr pelas veias. Recordarei de quando achei que todo meu estômago revirando, fosse as borboletas no estômago que muitos falavam, e enfim aceitarei, que por maior que seja o meu amor por você, nenhum arrependimento poderá apagar a dor que senti e que agora sinto quando estou ao seu lado. Nossa semelhança se bastou a morfologia, assim como a dor e o amor possuem a mesma terminação, teremos a parte igual que nos uniu; ainda assim, seremos extremamente diferentes, no que diz respeito a significados.
Veja, Raoul, esses muros, esses bosques, esses arcos, essas telas pintadas, tudo isso testemunhou os amores mais sublimes, pois aqui eles foram inventados por poetas que se agigantam diante do tamanho dos homens. Diga que nosso amor também vive aqui, meu Raoul, pois ele também foi inventado, e que ele também é, infelizmente, apenas uma ilusão!
A PANDEMIA
Há um vírus que assola a humanidade, muitos se encontram loucos, outros assim como eu, permanecem intactos. Dos que foram infectados, sabe-se que o coração parece palpitar mais alto, o estômago balançar friamente, e há quem diga que até cego pode ficar.
Muito ouvi dessa doença, mas não me cheguei a contaminar, às vezes penso que seja mentira, uma história para crianças naná. Certa feita, achei estar doente, mas não passava de ilusão, era uma simples gripe, causada pela mudança de estação.
Indago-me se a demora para adquirir a doença, seja um presságio de que quando eu alcançá-la, terei de morrer impiedosamente. A verdade, é que meu organismo já sofreu demais com outras doenças, quiçá por isso me proteja de forma excessiva, sendo essa, a forma que eles encontraram para cuidar-me do mal.
A calamidade se espalha cada vez mais pelo mundo, para alguns se assemelha há Lactobacillus, que mesmo sendo bactéria, traz benefício ao corpo, para outros como eu, são uma grande incógnita, trata-se de uma doença contagiosa; seu nome? Amor, para quem gosta, dor, aos que foram feridos, e ficaram sem resposta.
LOCUÇÃO ADJETIVA
Desbocado que me encantei por ti enquanto cursava gramática. Fora um sujeito simples que se tornou composto, advérbios que pertenciam à extrema intensidade e adjetivos que somente serviam para te expressar qualidades.
Entrava e saia, quando certa vez restou-se apenas nós dois no eco daquela sala; mirei firme os teus olhos pretos — ou talvez a pupila que tanto havia delatado — e bastou-se apenas isso, para então dizer, "Eu te amo".
Acontece que os adjetivos são variáveis, e foi por esse motivo que nosso amor desandou. Havia variação de gênero, número de pessoas que contavam mais que dois, e até os graus; não existia mais lindíssimo, perfeitíssimo, generosíssimo e tantos outros superlativos! Agora brilhava em nós, a inferioridade e o complexo da comparação.
Foi no eco daquela sala, desolado sem a tua companhia, que percebi que ao te dizer "Eu te amo" o único pronome que determinou a ação de amar, havia sido "eu".
Atormentado perante tanto silêncio, gritei desesperado ao nada, "Eu te amo!". Por certo, você não estava lá, mas o eco tratou-me de retornar, "eu te amo, eu te amo, eu te amo".
Era jovem demais para entender que minha alma tentara explicar que o mais puro amor já havia me encontrado, seria aquele e somente aquele que minha mente dizia, quando ninguém podia escutar.
