Homem Palavra
O homem que vive da própria imagem projetada não suporta o isolamento, o confronto solitário com a própria miséria (que é a experiência diária do fiel cristão). Isolem-no, e ele ruirá como um castelo de areia.
Na verdade, sou terrivelmente gananciosa – quero tudo da vida. Quero ser uma mulher e um homem, ter muitos amigos e ter momentos de solidão, trabalhar muito e escrever bons livros, viajar e me divertir, ser egoísta e altruísta… Seria difícil conseguir tudo o que quero. E quando não sou capaz de fazer tudo isso, fico louca de ódio.
O grande homem é aquele que traz no coração a sua riqueza na mente a sua força e nos atos a sua doçura.
Sorte tem o homem que te toca quando bem entende, que te mima a qualquer hora e que pode admirar a dança dos teus gestos bem de perto. Sorte tem o homem que te ouve logo pela manhã e te abraça sob o calor matinal das cobertas que retém o teu cheiro. Sorte tem o homem que pode venerar os teus modos mais íntimos, apreciar os teus pecados ocultos e o teu jeito pessoal de escolher entre o sim e o não. Sorte é para poucos, eu sei. Sorte tem o homem que sente amor e ainda tem você sempre por perto.
Sorte tem cada súdito da tua divindade carnal, cada ser capaz de ajoelhar-se diante das tuas maravilhas e chorar de amor. Se até mesmo o miserável que se refestela com as tuas migalhas de descaso tem sorte, que dirá um homem que enriquece imensamente a cada amostra do teu carinho? Sorte tem quem te vê passar e se encanta com teu rastro de beleza e perfume. Sorte daquele que vive, respira e detém a dádiva de poder estar ao teu lado.
Quisera eu que todos os homens pudessem ter a sorte que eu tive de um dia cruzar o teu caminho meramente por acaso e, ainda assim, ser tão feliz. Quisera eu que todos soubessem o quanto vale ter o que eu tenho, o que eu vivo e o que eu sinto todas as vezes que eu seguro com força a tua mão. E esta sorte de ter um amor que vale a vida, me sorri sempre que eu olho nos teus olhos e vejo reciprocidade. Sorte tenho eu de poder confessar o meu amor a quem amo e ouvir de volta, como numa linda canção, que o amor não nasce só de mim.
Sim. Sou eu este homem de sorte que sempre se alegra quando ouve o seu nome. Sou eu esta pessoa que morre de amores todas as vezes que acorda e te vê sorrindo, numa espécie de alvorada particular. Sou eu que vivo garimpando em todas as manhãs outras maneiras de te desejar mais um bom dia ao meu lado. Sou eu o teu homem, o teu companheiro e o teu servo a te carregar no colo sempre que a caminhada virar cansaço.
Sorte minha poder fazer parte deste universo que orbita em torno de ti. Sorte minha fazer parte desta história de amor, onde o amor é o personagem principal. Sorte minha poder estar aqui nos teus braços e não em outra companhia que não me alegrasse tanto. Sorte minha poder sonhar contigo em outros fevereiros e sorrir por saber que o futuro nos trás mais esperanças quando temos alguém a quem amar e compartilhar a sorte de ter um amor que só sabe dizer a verdade.
Seus olhos se enchem de lágrima, a música se torna instrumental matando qualquer outra palavra, a cidade não respira, o tempo não existe, a solidão é coisa de gente que mora muito longe dali, minha mente aquieta todos os monstros.
Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu não forçar a palavra a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.
E se estou adiando começar é também porque não tenho guia. O relato de outros viajantes poucos fatos me oferecem a respeito da viagem: todas as informações são terrivelmente incompletas.
Sinto que uma primeira liberdade está pouco a pouco me tomando... Pois nunca até hoje temi tão pouco a falta de bom-gosto: escrevi “vagalhões de mudez”, o que antes eu não diria porque sempre respeitei a beleza e a sua moderação intrínseca. Disse “vagalhões de mudez”, meu coração se inclina humilde, e eu aceito. Terei enfim perdido todo um sistema de bom Mas será este o meu ganho único? Quanto eu devia ter vivido presa para sentir-me agora mais livre somente por não recear mais a falta de estética... Ainda não pressinto o que mais terei ganho. Aos poucos, quem sabe, irei percebendo. Por enquanto o primeiro prazer tímido que estou tendo é o de constatar que perdi o medo do feio. E essa perda é de uma tal bondade. É uma doçura.
Aprendi que uma coisa (mal) dita não tem nada que apague. A palavra proferida é um tiro na alma. Pode matar um sentimento. Pode acabar com o amor de alguém. Pode destruir uma amizade. Pode arruinar uma família. Uma palavra pode valer mais do que mil gestos. Pode machucar mais do que um tapa na cara. Pode separar mais do que a distância. Com palavras, eu magoei muita gente que eu amo. Eu perdi gente que eu amei. Mas foi só quando eu tomei uma surra de palavras na cara que eu aprendi.
Sobre a Solidão
Entender é trancar-se dentro da palavra.
Quem não sabe, quem não sabe, quem não quer saber de nada gruda a língua no céu da boca, não escuta e finge que não vê.
Entender é um outro nível da ignorância. Bastaria um toque se fôssemos livres.
Não é preciso nenhum livro para quem pode não ler.
Se quisermos, amiga, não entendemos nada...
Tem quem prefira os beijos às palavras.
Tem quem não viva sem um off dizendo não, o tempo todo.
Tem gente de tudo o que é tipo.
Só não devemos viver sem o sentido, sem a realidade, o objeto, o eu e o você.
Somos infelizes. Jamais sobreviveríamos à liberdade de leves e inconsequentes ações.
- Vamos, vamos logo subir essa escada que leva o amor ao último andar.
Estamos descalços e o mármore gela os nossos pés. Sobe pelo corpo o tremor do castelo que desmorona.
Então vamos, segura firme no corrimão. Respire fundo. Subir tão alto dá vertigem e olhar para trás deixaria-nos cegos.
Os erros são medusas intransigentes, arrancam as nossas lembranças boas e tatuam os desaforos e mágoas.
Por isso, marche! Ainda estou contigo. Para ir até o fim da paixão deve-se estar acompanhado. Sinta o meu perfume enquanto o vento do tempo sopra esse bafo de mudança. Se quiser, dou-lhe o braço. Entraremos no salão da grande dança. A quadrilha dos desafortunados só começa quando o poeta recita a dor de um adeus. Pronto. Mais alguns passos e poderemos nos soltar no espaço. Livres. Serenos. E tristes. Vamos logo. Não há mesmo como evitar a covardia. Não há coragem para se ir até o fundo.
É isso, meu amor, agora só mais um degrau e você estará – de novo – em paz com o seu coração vazio. Por isso, vamos!
O nada não inspira, não treme os sexos, não dá calafrios, nem ciúmes; Não cria o ódio, nem teme o abandono. Ali você poderá descansar sem culpa, remorsos, sonhos estúpidos.
Amar proibido é muito. Causa tanto estrago...
E por isso, por tudo isso, vamos!
No final devo pedir perdão por tê-lo tocado.
Agora pode largar a minha mão. Pode partir.
Lembre-se ou esqueça-se de mim.
Coração quebrado tem cura: a paz de não precisar mais aguardar a perfeição que não existe.
Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é ler distraidamente.
Deus é a palavra, Cuidado! Cuidado com o que você fala, em qualquer situação ou instante de sua vida.
E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, no tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido?
O som do amor
Sabe quando falta uma palavra para definir o que sentimos?
Sabe quando o que você sente é tão grande, tão inusitado, que não há força em nenhuma poesia ou palavreado.
Tudo fica pequeno diante de tantos sentimentos, a vida deixa de ser uma teoria, um pensamento, ela passa a ser completa, preenchida.
E essa palavra que falta, que se cala na garganta, só pode ser expressa pelos sentimentos, falar não adianta.
Quem sabe com o brilho desse olhar.
As palavras mentem, o olhar jamais…
O falar deve ser reservado para expressar alegria, para aquele bate papo gostoso com as pessoas queridas,
para a entrevista de emprego, para expressar um desejo.
O falar é a expressão do que vai no seu intimo, por isso, deve ser estudado, pois aquilo que é falado, não pode ser deletado, é email que já saiu, partiu…
Deixe-se embriagar pelos sentimentos, deixe seus olhos falarem: – eu te amo!
Deixe seus braços apertarem a felicidade, deixe as tolices e as discussões vazias morrerem na ponta da língua, e acima de tudo, deixe o amor ser o seu mensageiro, ele fala, esclarece, perdoa, pede desculpas, reconcilia, reaproxima…
Quem faz do amor o seu interlocutor, carrega na alma a pedra de alquimia, é mais do que inteligência, é pura sabedoria.
Quando faltar palavras, seja onde for, deixe falar mais alto, o som do amor.
Eu escrevo para fazer existir e para existir-me. Desde criança procuro o sopro da palavra que dá vida aos sussurros.
(...) mas agora, por desprezo pela palavra, talvez enfim eu possa começar a falar.
Deus se manifesta em tudo, mas a palavra é um dos seus meios favoritos de agir. Porque a palavra é o pensamento transformado em vibração; você está colocando no ar a sua volta aquilo que antes era apenas energia.
Preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história. [...] Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou. [...] Eu não sou melhor ou pior do que ninguém sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei.
