Ha mil Razoes para Nao Amar uma Pessoa
Há músicas que voltam em espasmos, sem avisar. Elas me pegam pelo braço e me obrigam a sentir. Dançar sozinho em silêncio é uma prática sagrada. A melodia ajusta o passo da alma. E, ao final, a sala inteira cabe dentro do peito.
Há dias que parecem rascunhos mal colados. As frases saem tortas e os gestos, imprecisos. Reviro-os até que encontrem forma e razão. Algumas colagens funcionam, outras viram poesia de esquina. E a vida segue, improvisando imagens que valem.
Há noites em que a esperança veste roupas de luto. Parece estranho, mas existe beleza até nisso. Aceitar o luto como parte do caminho é bem-vindo. Porque nele às vezes surge um novo broto. E o broto é o começo de outro começo.
Há manhãs em que o céu parece ter riscado meus planos. Reescrevo com caneta de paciência. Algumas letras saem tortas, mas ainda dizem algo. Aprender a reescrever é dom que a vida impõe. E a cada versão, eu sou menos imaturo.
Há dias em que a lucidez é lâmina afiada demais. Corta sem dó as mentiras que contamos a nós mesmos. Sobra verdade e sobra cuidado para remontar. A reconstrução exige paciência e luvas firmes. E aos poucos, a mão volta a trabalhar sem medo.
Há noites em que o céu me pede silêncio. Ele me julga sem palavras, apenas com vastidão.
Sinto minha pequena história diante do infinito. E a sensação é de humildade e alívio. Aceito o lugar que me deram no cosmos.
Há coisas que só a madrugada me permite dizer. Às vezes confesso medos que o dia ocultou. A escuridão é confidente que não julga. Depois, engulo as palavras e levo o resto comigo. Mas sempre alguma verdade ficou mais leve.
Há dias em que a alma pesa mais que a gravidade, existir torna-se um exercício de resistência e respirar, uma escolha política.
Há memórias que são feridas abertas, sangram sem aviso, ignoram o tempo e nos lembram que o passado nunca dorme.
Há dias em que a existência se manifesta como dor física, cada respiração é um lembrete de que ainda estou na arena.
Há um ranger de tábuas velhas em cada pensamento meu, um eco de presenças que partiram e deixaram apenas o vácuo como inquilino.
Há dias em que a única coisa que me mantém de pé é a curiosidade de saber como será a próxima frase que a minha dor vai ditar para a minha mão. Sou o primeiro leitor da minha própria tragédia, assistindo ao espetáculo com a fascinação de quem não sabe o final.
Há um ranger de tábuas velhas em cada pensamento meu, um eco de presenças que partiram e deixaram apenas o vácuo como inquilino da minha memória. Eu converso com as sombras, não porque perdi o juízo, mas porque as sombras são as únicas que sabem ouvir sem interromper.
Há algo profundamente contraditório em continuar, mesmo quando nenhuma razão clara se apresenta, mas talvez seja nessa contradição que nasce a resistência, uma força que não precisa de explicação para existir.
Há noites em que minha alma pesa tanto que respirar parece um esforço desumano, mas mesmo assim, eu respiro, porque desistir nunca foi uma opção.
Aprendi que Deus, às vezes, responde no silêncio, porque há verdades que só um coração quebrado consegue compreender.
Há dias em que caminho como quem atravessa um inverno sem fim. Dentro de mim, tudo parece frio, pesado, quase irreconhecível. Cada passo é menos coragem do que insistência em não cair. E sigo, não porque a dor diminuiu,
mas porque me recuso a deixar que ela escreva o fim da minha história.
Há dias em que tenho a perturbadora sensação de estar me fundindo à própria cadeira do escritório, como se, aos poucos, eu deixasse de ocupar aquele espaço e passasse a pertencer a ele. O ambiente corporativo, com suas luzes artificiais, o zumbido contínuo das máquinas e a liturgia repetitiva das obrigações diárias, por vezes parece deixar de ser apenas um local de trabalho para transformar-se em uma espécie de universo hermético, uma bolha silenciosa onde o tempo perde organicidade e a existência se resume a telas acesas, notificações incessantes e pensamentos confinados em intervalos cada vez menores de lucidez.
Existem momentos em que o corpo permanece estático diante do monitor, mas internamente há um colapso silencioso em andamento. A mente atravessa labirintos de exaustão emocional, pressões invisíveis e reflexões que jamais são verbalizadas. Sustentar produtividade contínua enquanto o espírito lentamente se desgasta exige uma força que raramente é percebida por quem observa de fora. E talvez seja justamente essa invisibilidade que torne tudo mais sufocante: a obrigação quase involuntária de aparentar estabilidade enquanto, por dentro, algo vai se tornando progressivamente mais fatigado, mais distante, mais anestesiado.
Às vezes, o escritório deixa de parecer um ambiente profissional e assume contornos existenciais. As paredes tornam-se fronteiras simbólicas entre o mundo exterior e uma realidade paralela feita de prazos, silêncios protocolares e uma rotina tão reiteradamente mecânica que passa a corroer a percepção dos próprios dias. Há uma estranha melancolia em perceber que grande parte da vida adulta se desenrola sob luzes frias, cercada por teclados, planilhas, relatórios e relógios, enquanto fragmentos inteiros da subjetividade vão sendo silenciosamente arquivados em nome da funcionalidade.
E o mais inquietante é que o verdadeiro esgotamento raramente chega de maneira abrupta. Ele se infiltra de forma gradual, quase imperceptível, dissolvendo pequenas capacidades humanas: o entusiasmo espontâneo, a contemplação despretensiosa, a leveza diante da existência. Até que, em determinados dias, tudo o que resta é a sensação de estar enclausurado dentro da própria rotina, como se aquele escritório tivesse se tornado não apenas um lugar de trabalho, mas uma extensão psicológica da própria solidão.
- Tiago Scheimann
Há memórias que queimam com tamanha profundidade que deixam de ser apenas lembranças e passam a integrar a própria estrutura emocional do indivíduo. Tornam-se permanências invisíveis, cicatrizes incorporadas ao pensamento, marcas que o tempo não dissolve, apenas aprende a esconder sob camadas de rotina e aparente normalidade. E então, nos instantes mais inesperados, um som, uma palavra, um cheiro ou um simples silêncio devolvem tudo com violência absoluta, como se o passado jamais tivesse realmente partido.
- Tiago Scheimann
Há noites em que minha mente se torna um labirinto sem saída. Penso, penso e, quanto mais mergulho, menos me encontro. Há partes de mim que parecem morar em um lugar inalcançável. Nem sempre consigo tocar o que sinto. E isso também é uma forma de dor.
