Ha como eu Queria q ela Soubesse
Quando a espada oprime a cruz... a música fere a dança... e o rumo certo é a contramão: há um túnel no fim da luz... um gafanhoto sobre a esperança... uma mudança sem caminhão.
EVANGELHO TENEBROSO
Demétrio Sena - Magé
Pelas regras do novo cristianismo,
não há próximo além do nosso espelho;
tem um velho rancor que nos provê
dos arroubos de raiva e preconceito...
Nosso povo enjoou daquele Cristo
das besteiras de amor, justiça e paz,
do discurso incapaz de pregar ódio
e tirar os opostos do caminho...
Pelo novo evangelho desta terra,
é a guerra que aponta o rumo certo;
só a canga da força nos conduz...
Há um Cristo forjado na mentira;
numa velha cegueira que o fez rei,
pra que a lei o tornasse uma verdade...
NA SELVA DA ESTABILIDADE PRIVADA
Demétrio Sena - Magé
Há grande mérito em se prestar um concurso, ser aprovado e admitido em uma empresa pública. Dificilmente se conquista um emprego dessa natureza, sem empreender esforços admiráveis, muito estudo e disciplina. Infelizmente, muitos não repetem ao longo da carreira os méritos iniciais, conscientes de que o poder público não é muito criterioso com quem já ingressou na máquina pública e passou pelo período de aprovação. Com isso, os funcionários públicos competentes e trabalhadores permanecem, mas os incompetentes e alguns que até pasaram de formas inexplicáveis, também. A menos que cometam algo muito grave.
Na empresa privada, os empregos são escorregadios. As hierarquias ostensivas e permanentes testam a cada dia os nervos, a estabilidade emocional, a inteligência psíquica e a competência específica de cada funcionário, sempre com o sinal de alerta de que a vaga está na corda bamba. É como se houvesse um reconcurso diário, para reafirmação da garantia do emprego. A concorrência está sempre ao lado e a capacitação permanente que o próprio trabalhador se obriga, não é apenas para promoção. É para não ceder o seu lugar ou não ser incluído entre os passageiros do próximo navio de cortes para economias diversas.
Como existem alguns funcionários públicos inexplicavelmente aprovados, muitos funcionários da iniciativa privada não foram, inexplicavelmente, aprovados na máquina pública. São esses, os que só saem de seus empregos quando querem ou por falência das empresas. Pessoas que por inteligência psíquica; neural; por méritos diários, reincidentes, critérios e capacidade sem fim, conquistam a estabilidade que a lei não lhes assegura. Trabalhadores que se constroem ao longo da vida e ajudam a construir ou elevar "suas" empresas aos patamares que elas alcançam.
Minha total admiração aos funcionários públicos que fazem jus - mesmo estando seguros em suas vagas - aos empenhos e desempenhos que os efetivaram de uma vez por todas, lá no início. E de forma especial, minha total admiração a todos os que fazem de suas aposentadorias, cinturões de lutadores pesos pesados que lutaram a vida inteira, quase ao pé-da-letra, sem amparo definitivo nem trégua e sob os olhares constantes dos que podem, de uma hora para outra, dar um tombo frio e cruel em suas carreiras.
ALFORRIADO
Demétrio Sena - Magé
Para mim não há vida, se o laço dá nó,
se o afeto não pode respirar sozinho;
quando já me sufoca, prefiro ser só;
a gaiola de luxo não supera o ninho...
Quero cama que nunca me roube o caminho;
tomar banho e de novo me cobrir de pó;
vestirei os meus trapos, caso a seda, o linho
manipulem no contra; dominem no pró...
Que ninguém se nomeie senhor ou senhora
do meu tempo, meu vir e do meu ir embora,
pois me prendo e me solto pela minha chave...
E ninguém se pretenda ser meu adivinho,
decidir quando passo da pinga pro vinho,
se viajo de sonho, de charrete ou nave...
RESTO DE POVO
Demétrio Sena - Magé
Há um povo que foge do saber,
uma gente que busca ignorância,
quer viver de mentira e de aparência
pra sentir sua treva dominar...
Um rebanho nascido para o caos;
multidão num estouro indefinido,
no desfile dos maus; dos imbecis
que o cupido das sombras seduziu...
Tem um resto indizível de país,
muita rês infeliz que vai ao nada
e rasteja sem alma e coração...
Alegria infeliz e sem sentido;
esse povo esquecido por si mesmo
tece a teia da própria estupidez...
... ... ...
Respeite autorias. Isso é lei
TRADICIONALIZANDO A DIVERSIDADE
Demétrio Sena - Magé
Há um conceito equivocado e nocivo de família uniforme. Do clã tradicional, cujos membros rezam na mesma cartilha, têm as mesmas ideologias, crenças e opiniões. Isso nunca deu certo. O mundo nunca deu certo, porque as famílias sempre foram tiranas e fomentaram guetos pela fomentação de protagonismos... de grupos majoritários e dominadores... e as famílias são a sociedade... suas mazelas e seus acertos internos se refletem aqui fora.
Quero a família em que a oração de um não menospreze o mantra do outro... em que o incenso deste jamais desqualifique o ebó daquele... e as fés de todas as vertentes não segreguem o ceticismo do ateu... onde a formação de cada nova família seja plenamente aceita, não importa que a união seja hétero, homoafetiva ou apenas um ajuntamento informal, sem cerimônias e assinaturas. Não quero a família liturgicamente obrigatória, nem que as famílias ora marginalizadas se tradicionalizem no futuro e marginalizem as que hoje se afirmam tradicionais.
O mundo nunca será uma família, enquanto as famílias que o compõem brigarem por supremacia religiosa... comando sociopolítico e cultural... protagonismo étnico, de gênero e de qualquer outra natureza. Está na hora de sermos quem somos, nos grupos aos que pertencemos na sociedade externa, para sermos também assim em família e não exigirmos que todos os membros sejam cópias uns dos outros. Que a diversidade, esta sim, se torne a tradição.
POVO GADO
Demétrio Sena - Magé
Há um medo servil das diferenças;
um eterno esconder-se nos padrões;
umas crenças bizarras no engradado
de contextos; ideias; ideais...
Muita gente medida e carimbada,
muito sonho engessado por comando,
pela farda imbecil das tradições
que não valem pras rotas do futuro...
Não se tampa o país feito conserva;
gente serva não serve pra sonhar,
povo gado não tem a própria vida...
Quero ser expressão de resistência;
reticências, avanço e teimosia
numa terra vazia de horizonte...
... ... ...
#respeiteautorias. Isso é lei
TÉCNICAS DE LUTA EMOCIONAL
Demétrio Sena - Magé
Descobri há poucos anos, que sou capaz de suportar pelo menos uma hora dos insultos de uma pessoa. E por escrito, pelo menos umas quatro laudas de bombardeio. Isso vai depender da minha leitura do grau de carência, desequilíbrio emocional, fragilidade ou, em última instância, do grau de periculosidade que tal pessoa demonstre.
A periculosidade que meço nunca está na força física, no poder socioeconômico nem na "brabeza" do indivíduo. Está na sua fragilidade assim confessada, involuntariamente, pela carência e o desequilíbrio. Alguém assim representa um perigo para si mesmo e, em decorrência, para nós. Imagine uma criatura enfartar porque você a deixou ainda mais estressada. Ou você agredir fisicamente alguém mais frágil, que não está cabendo em si... a tal ponto que já nem é responsável pelos próprios atos. Os exemplos variam e se diversificam. Deixo a cargo de sua imaginação.
Depois de mais ou menos uma hora ou quatro laudas, minha valentia é me retirar. Se logo após isso, precisar me defender física, policial ou judicialmente, serei sempre técnico, pela questão que faço de saber o quanto fiz para que ninguém chegasse às vias de fato comigo. Quem quiser arrumar um problema sério para mim, terá que recorrer à calúnia... Sem provas.
IDADE
Demétrio Sena - Magé
Minha idade melhor ficou no tempo;
não há queixa; confesso ter vivido
e duvido que alguém o tenha feito
com tão pouco; no fundo, quase nada...
Que ninguém amenize o meu outono
sem varanda pra outra primavera;
tive o trono, passei a minha faixa,
guardo velhas lembranças e saudades...
A minh'alma condiz com cada pinta;
cada ruga, sinal, mancha de sol;
toda tinta perdida nos meus pelos...
O que há de melhor na minha idade
é saber que acertei ao não correr
pra morrer dos acúmulos da vida.
... ... ...
Respeite autorias. É lei.
FÉ SEM FÉ
Demétrio Sena - Magé
Há um cerco de medos e superstições
na leitura que faço dos olhos em volta;
uma escolta perene dessa fé sem fé,
corações mais armados do que fortalezas...
Vejo tantas tocaias em silêncio fundo;
convivências marcadas pelas mãos nos coldres;
tem um mundo abstrato e sombrio nas vozes,
quando soam por ócios da formalidade...
Retrocessos do tempo chegaram aos postos;
os atrasos humanos de séculos idos
foram todos repostos nas massas dormentes...
Feiticeiro queimado nas fogueiras frias
dessas crenças vazias descrentes do amor,
estou fraco pra força dos fracos de alma...
...
Respeite autorias. É lei
NÓS CONTRA NÓS
Demétrio Sena - Magé
Há um vício de guerra espargido no vento;
uma raiva sem fundo plantada no ar;
tem um mar cujas abas pelejam sem fim
por domínios que sempre nos dominarão...
Solidões que se atacam numa fúria cega;
narcisismo e ganância que regem sentidos;
sentimentos humanos perdidos no caos
de conquistas que nunca serão mesmo nossas...
Somos nós contra nós refletidos no vão
da loucura maciça que nos faz reféns
do bordão de poder que os poderes impõem...
Porque somos escravos do fazer escravos;
nossos bravos rompantes não nos alforriam
do cinismo dos donos de nossa bravura...
... ... ...
#respeiteautorias É lei
SÓ ME RESTA SABER
Demétrio Sena - Magé
Há um peso nos olhos pro futuro
e minh'alma já pede pra descer,
a viagem no escuro dos meus passos
é um ter que seguir porque respiro...
Uma vida que teme o mundo à vista,
em um tempo que há tempos expirou,
minha grande conquista não é mais
do que haver alcançado a minha idade...
Levo apenas o caos nesta mochila,
o meu sonho cochila e caio em mim,
só me resta saber que tudo é resto...
Chego ao ponto em que sigo reticências,
vim além da banguela e sobrevoo
as vivências há muito não vividas...
... ... ...
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BREU DE MINHA LUZ
Demétrio Sena - Magé
Há em mim tanta coisa meio nada;
um inteiro quebrado em nenhum caco,
longa estrada sem vista pro futuro,
num buraco não feito na minha'lma...
Tenho aqui tanto lá indefinido,
muito algo apagado na memória,
farta história cravada num momento
esquecido no breu de minha luz...
Morro vivo no caos dessa dormência;
este corpo mais alma do que o corpo
é demência da própria lucidez...
Sinto a força brutal do não sentir;
do mentir com intacta verdade
na saudade que tenho de quem sou...
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ETERNA VIDA EFÊMERA
Demétrio Sena - Magé
Pergunto ao ontem, que até há pouco era o agora, em que buraco se meteu o agora, que agorinha mesmo ainda era. Ele foi para lá? Está nos braços de um novo ontem? Caiu no escuro e no vazio de ninguém sabe o quê? Nunca tenho resposta e logo pergunto ao já futuro e logo passado agora: E o futuro? Cadê o futuro? Virou passado ou se renovou na linha do tempo? É tão clichê dizer que a vida é um sopro... mas é tão clichê dizer que é tão clichê dizer que a vida é um sopro. Porque é... e ninguém há de soprar nada mais original sobre a vida e sua eterna efemeridade.
... ... ...
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DÍVIDA DA DÁDIVA DA VIDA
Demétrio Sena - Magé
Há verdades ferinas, que temos que ouvir;
tem cenários sombrios que temos que ver;
muitas fases passadas estão no porvir,
para quem as despreza durante o viver...
Aprendemos à força o que há por saber,
quando já desejamos mais nada sentir,
e caímos de nós, de tanto não caber
o que tudo nos faz contornar e mentir...
A idade conduz à prestação de contas;
nosso tempo não fecha sem juntar as pontas
pra cobrar por excessos e faltas na saga...
É por isso que as pausas, as reflexões
muitas vezes atuam como prestações
ou ideias de como se amortiza e paga...
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AMIGOS
Demétrio Sena - Magé
Há um mundo de amigos, talvez bem restrito,
mas que fazem meu mundo ser grato por ter;
tem um grito sincero de canto e poesia
nos meus olhos eivados, molhados de afeto...
Sei que o mundo traçado e disposto no mapa
já naufraga nas águas do seu narcisismo,
não escapa da fúria de sua tormenta
e se rende ao mesmismo do seu tanto faz...
Mas meu mundo de amigos, talvez meio feixe,
são a minha verdade capaz de salvar
desse mar que me atira terríveis tarrafas...
Os amigos são mundo que o mundo ignora
numa flora cinzenta, de fauna feroz;
ter amigos é voz pra curar o deserto...
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TEMPO EM PÓ
Demétrio Sena - Magé
Ando muito sem onde; sem caber;
há um poço insondável no meu peito;
um doer que nem sinto, por ser tanto,
que definho de muito não sentir...
É um vago voar sobre o vazio,
uma forte fraqueza que me gasta,
sinto frio no meio do calor,
numa vasta e sombria e compressão...
Toco a massa da própria inexistência;
minha essência não é essencial
nesta sombra que nada justifica...
Olho em volta, sem algo para ver,
pois viver é coar o tempo em pó,
pra tomar um café com solidão...
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(PIN)GENTES
Demétrio Sena - Magé
Há quem sinta saudades do "não sou coveiro";
de governo que manda "passsar a boiada",
quando a própria boiada não sabe que passa
nem percebe o terreiro sob as próprias patas...
Muitos têm nostalgia das "filas dos ossos",
do tirano que "zoa" enquanto o povo morre;
que propõe um veneno pra "santo remédio"
e um porre de farsas pra calar as mentes...
Multidões de capachos da falácia insana,
da versão desumana de governo "brabo",
querem ter novamente o seu "dono e senhor"...
Os que pensam que pisam como são pisados,
querem anos passados de tormenta e caos;
pendurados nos maus é que se sentem bons..
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LUA INTERROMPIDA
Demétrio Sena - Magé
Não há tempo capaz de calar a saudade;
uma falta que nutre um buraco sem fim;
como sei que viver é missão nos imposta,
digo sim ao caminho e faço meu melhor...
Mas não há um só dia sem saudade sua,
na certeza do tempo que não foi bastante
para vermos a lua com todas as fases,
após todas as fases de tantas vertigens...
Foram poucos os anos de colo tardio;
sem aquelas corridas por sobrevivência,
contra o frio, a doença e a fome total...
Seu amor foi o mundo que valeu a pena;
foi a nossa vontade maior de vencer
e viver por mais tempo nossa lua nova...
... ... ...
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GADO POVINO
Demétrio Sena - Magé
Há um povo tão povo, no pior sentido,
que defende seus lobos e persiste ovelha;
tem a velha doença de fugir da cura
para males e vícios de suas veredas...
É um povo tão povo, na pior versão,
sem a dignidade que não sabe ter,
pois o seu coração já se rendeu às dores
de não ver o que olha; como todo gado...
Elogia os que tiram suas lãs e peles,
põe os lombos à mostra para chibatadas,
dá risadas nervosas e louva seus donos...
Esse povo tão povo definhou em pé,
é rebanho empalhado que parece vivo,
sua fé virou cinza de apagar futuros...
... ... ...
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