AS DUAS PORTAS QUE TODO MUNDO FINGE QUE... Marcelo Caetano Monteiro
AS DUAS PORTAS QUE TODO MUNDO FINGE QUE NÃO VIU.
Marcelo Caetano Monteiro.
Por que Jesus disse que o caminho certo é o mais vazio
Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçosa é a estrada que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. Mateus VII, 13-14.
Essa é uma das frases mais incômodas do Evangelho. E um dos maiores divulgadores do Espiritismo no Brasil decidiu explicá-la sem véu místico.
1. Quem escreveu isso?
O autor do texto que você trouxe não é um comentarista qualquer. É Cairbar de Souza Schutel, o Bandeirante do Espiritismo, conhecido por propagar a Doutrina Espírita por meio de livros, do jornal O Clarim e da Revista Internacional de Espiritismo.
Cairbar de Souza Schutel foi um dos maiores vultos do Espiritismo brasileiro. Encarnado em 22 de Setembro de 1868 na cidade do Rio de Janeiro e desencarnado na cidade de Matão, Estado de São Paulo, no dia 30 de Janeiro de 1938.
O livro de onde sai o trecho, Parábolas e Ensinos de Jesus, é um clássico. Editada pela primeira vez em janeiro de 1928, esta obra continua despertando enorme interesse nos leitores que encontram o entendimento racional da interpretação das parábolas à luz da Doutrina Espírita.
2. O que Mateus realmente registrou.
O texto bíblico na tradução Almeida Revista e Atualizada diz:
Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida
A exegese tradicional explica: há duas portas, a larga e a estreita. Há dois caminhos, o espaçoso e o apertado. A porta larga é muito mais espaçosa e convidativa.
Cairbar não discorda da letra. Ele muda a chave de leitura.
3. A releitura de Cairbar: Evolução x Degradação
Para ele, Jesus não estava falando de um julgamento futuro, mas de uma lei de física espiritual funcionando agora:
Duas são as estradas que se apresentam aos homens: a da Evolução e a da Degradação. Também são duas as portas: a da Vida e a da Morte.
Quem caminha pela Evolução, passa forçosamente pela porta estreita. Quem desce pela Degradação, atravessa a porta larga para "viver na Morte".
E aqui vem o golpe mais original do texto: "Há vida na Vida e há vida na Morte!"
Na visão espírita, ninguém é aniquilado. Na vida da Terra há morte, porque tudo é perecível. Na Vida do Espaço, a vida venceu a Morte. Ou seja, você continua vivo nos dois lados, mas a qualidade da sua vida é completamente diferente. Uma é vida consciente, outra é vida de entorpecimento espiritual.
Por que poucos acertam a estreita? Cairbar é psicológico: "grande é o número dos que não querem acertar, pois ouviram dizer que ela é apertada." A gente desiste antes de tentar, por ouvir falar que dá trabalho.
A larga, ao contrário, é uma festa permanente. "É guarnecida de todos os atrativos, festejada com todas as músicas: nela os cinco sentidos humanos se fascinam, embriagam-se pelas sensações exteriores, aniquilando o Espírito que fala à consciência."
4. A fechadura da porta estreita: as 7 virtudes
Cairbar lista exatamente o que seria necessário para subir:
Prudência, Fortaleza, Temperança, Retidão, Fé, Esperança e Caridade.
Não é por acaso. Essa é a fórmula clássica da moral cristã, herdeira do estoicismo e de Aristóteles:
As virtudes teologais são a fé, a esperança e a caridade; as virtudes cardeais são a justiça, a temperança, a fortaleza e a prudência
Ou como define outra fonte: Virtudes Teologais: Fé, Esperança e Caridade; e Virtudes Cardeais: Prudência, Fortaleza, Justiça e Temperança. Cairbar troca Justiça por Retidão, mas mantém a estrutura.
O que ele acrescenta de genial é o método: "A Estrada do Progresso, por ser apertada, exige conhecimentos, reclama atenção, critério, raciocínio, para que não se decline para a direita ou para a esquerda." Não é sobre fé cega. É sobre lucidez. A porta estreita exige que você pense.
5. O cardápio da porta larga: os 8 vícios
Para a outra estrada, ele lista:
Soberba, Avareza, Luxúria, Ira, Ódio, Gula, Preguiça, Inveja.
São os sete pecados capitais, com um acréscimo muito espírita: o Ódio. Enquanto os vícios clássicos são excessos do eu, o ódio é a negação ativa do outro. É o veneno que fecha a porta por dentro.
Por isso, diz Cairbar, "larga é a porta e espaçosa é a estrada que conduz à perdição e muitos são os que por ela entram" não porque Deus queira, mas porque o mundo está cheio desses atrativos.
6. Por que isso importa em 2026.
O texto de 1928 parece ter sido escrito para o feed infinito. A estrada larga hoje tem algoritmo, entrega infinita de diversões, gozos efêmeros, sensações exteriores a cada swipe. Ela é espaçosa exatamente porque não pede nada de você.
A estrada estreita continua apertada porque pede o oposto: Prudência para não reagir no impulso, Fortaleza para sustentar uma escolha difícil, Temperança para não se embriagar de estímulos, Retidão para não negociar valores, e as três teologais, Fé, Esperança e Caridade, para lembrar que existe uma Vida além da vida da Terra.
Cairbar encerra como começou: "Entrai pela Porta Estreita porque é a que dá entrada à Vida Eterna." Não como prêmio futuro, mas como estado de consciência que já começa aqui.
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