REVISTA ESPÍRITA — ABRIL DE 1858.... Marcelo Caetano Monteiro

REVISTA ESPÍRITA — ABRIL DE 1858. JÚPITER:
UM MUNDO ONDE O BEM ORGANIZA A VIDA
REVISTA ESPÍRITA — ABRIL DE 1858.
JÚPITER: UM MUNDO ONDE O BEM ORGANIZA A VIDA.

TEMA:
A DIFERENÇA DE EVOLUÇÃO ENTRE OS ESPÍRITOS, OS HABITANTES DE JÚPITER E O CONTRASTE MORAL COM A TERRA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Existe uma diferença entre olhar para Júpiter com os olhos da curiosidade e contemplá-lo com os olhos do estudo espírita.
A curiosidade pergunta:
Como são os habitantes de Júpiter?
O estudo pergunta:
O que a condição desses habitantes revela sobre o progresso do Espírito?
É nessa segunda perspectiva que a descrição apresentada por Allan Kardec na Revista Espírita de abril de 1858 adquire verdadeira profundidade.
O texto integra as chamadas “Conversas familiares de além-túmulo” e registra uma comunicação atribuída a Bernard Palissy, célebre oleiro do século XVI, evocado em 9 de março de 1858. Kardec afirma que, por evocações anteriores, já sabia que Palissy habitava Júpiter e observa que as informações recebidas coincidiam com descrições anteriores obtidas por diferentes médiuns. Ele considera essa concordância uma presunção de exatidão.
Mas existe uma frase que deve permanecer como chave de leitura de todo o estudo.
Ao ser perguntado sobre a finalidade dos desenhos que transmitira por intermédio de Victorien Sardou, Palissy responde que o objetivo era inspirar os homens a se tornarem melhores.
Portanto, antes de perguntarmos como é Júpiter, precisamos compreender por que Kardec publicou a descrição de Júpiter.

OS NOMES DOS ESPÍRITOS ASSOCIADOS A JÚPITER.
É importante não generalizar nem acrescentar nomes que as fontes não apresentam.
Na comunicação de abril de 1858, o Espírito que fala é Bernard Palissy, que afirma habitar Júpiter.
O próprio Palissy menciona ainda São Luís quando Kardec pergunta se poderia nomear Espíritos habitantes de Júpiter que tivessem desempenhado uma grande missão na Terra. A resposta é simplesmente:
“São Luís.”
Assim, dentro dessa comunicação, temos explicitamente Bernard Palissy e São Luís associados a Júpiter.
Posteriormente, na Revista Espírita de agosto de 1858, ao tratar das habitações de Júpiter, Kardec menciona expressamente Palissy ou Mozart como habitantes daquele mundo, convidando o leitor a confrontar as informações por meio das evocações.
E, em setembro, a Revista publica observações relacionadas ao desenho da casa de Mozart em Júpiter.
Portanto, considerando exclusivamente essas referências da Revista Espírita de 1858, encontramos associados a Júpiter:
Bernard Palissy - São Luís - Mozart.
É importante, contudo, fazer uma distinção: eles não aparecem todos da mesma maneira na comunicação de abril. Palissy é o comunicante; São Luís é citado por Palissy; Mozart surge posteriormente nas matérias da Revista relativas a Júpiter.
Essa precisão é necessária para que o estudo não transforme referências diferentes em uma única comunicação.

POR QUE HAVERIA ESPÍRITOS MAIS ADIANTADOS EM UM MUNDO DO QUE EM OUTRO?
Aqui entramos no cerne da questão.
A doutrina espírita não apresenta os Espíritos como seres criados prontos, acabados e desiguais por determinação arbitrária de Deus.
Eles percorrem uma trajetória de desenvolvimento.
É por isso que a descrição de Júpiter não pode ser separada da questão 222 de O Livro dos Espíritos.
Nela, Kardec desenvolve extensa consideração sobre a pluralidade das existências e sobre a necessidade de compreender a vida humana dentro de uma perspectiva muito mais ampla do que uma única encarnação.
A existência atual não encerra a história do Espírito.
Isso permite compreender, dentro da lógica espírita, por que existem diferenças tão profundas entre os seres: conhecimento, experiência, tendências, aptidões e conquistas morais não surgem todos simultaneamente.
O Espírito progride.
E, se progride, é natural que existam diferentes graus de adiantamento.
(Ver também O Livro dos Espíritos, questões 100 Escala Espírita,114, 115 e 121.)
É justamente essa chave que permite compreender a passagem da Revista Espírita em que Kardec pergunta sobre os habitantes de Júpiter.
A resposta não diz que todos são absolutamente iguais.
Diz que são todos bons, todos superiores, mas existem diferentes graus, relacionados à soma de conhecimentos e experiências.
Isso é extraordinariamente importante.
Ser superior não significa ser perfeito.
Mesmo num mundo mais adiantado existem Espíritos mais adiantados que outros.

A EVOLUÇÃO NÃO É UM PRIVILÉGIO: É UMA CONQUISTA.
Essa concepção impede uma interpretação equivocada.
Não existem, segundo a doutrina espírita, Espíritos criados para serem eternamente superiores e outros destinados eternamente à inferioridade.
O que existe é uma trajetória.
Um Espírito que hoje se encontra em condição inferior não está condenado a permanecer nela.
E aquele que alcançou uma condição elevada não recebeu um privilégio gratuito: percorreu um caminho.
É por isso que a existência em mundos superiores deve ser entendida como consequência do progresso.
(Ver O Livro dos Espíritos, questões 100, 172 a 188, sobre as diferentes condições das existências nos mundos.)
Júpiter, nessa perspectiva, não é simplesmente “um planeta onde moram seres especiais”.
É apresentado como um mundo correspondente a um grau mais avançado de desenvolvimento espiritual.

A TERRA NÃO É UM FRACASSO.
Essa comparação também não deve produzir desprezo pela Terra.
A Terra é um mundo de provas e expiações dentro da classificação apresentada pela Codificação, e seus habitantes ainda carregam numerosas imperfeições.
Mas estar num mundo inferior não significa estar abandonado.
Significa estar em processo.
A própria lógica da reencarnação dá sentido à luta.
O Espírito que ainda não alcançou determinado grau terá novas oportunidades de aprendizado.
É justamente por isso que a questão 222 possui importância tão grande.
A pluralidade das existências impede que uma única vida seja transformada em medida absoluta da justiça divina.
O que hoje parece desigual quando observado apenas através de uma existência ganha outra dimensão quando considerado através da trajetória do Espírito.

“MAS JÚPITER? ISSO NÃO É ABSURDO?”
É possível que alguém leia essas páginas e zombe.
Pode achar estranha a ideia de habitantes de Júpiter, de corpos menos densos, de comunicação pelo pensamento, de cidades e habitações em outro mundo.
Mas há uma diferença entre questionar e ridicularizar.
Questionar é legítimo.
Investigar é saudável.
Discordar é possível.
Ridicularizar sem conhecer o objeto da discussão, entretanto, não constitui estudo.
E há uma razão adicional para a prudência.
Kardec não apresenta essas descrições como se fossem resultado de uma viagem física ao planeta.
Ele está tratando de comunicações mediúnicas, submetidas ao método de observação que empregava em seus estudos.
Em março de 1858, ao escrever sobre Júpiter e outros mundos, Kardec já explicava que as informações deveriam ser consideradas à luz da escala espírita e do princípio do progresso dos Espíritos.
Mais tarde, em agosto, ao publicar “As habitações do planeta Júpiter”, Kardec registra inclusive que havia pessoas que consideravam aquilo motivo de gracejo e afirma que as informações poderiam ser confrontadas por novas evocações.
Isso revela algo muito importante sobre o próprio procedimento de Kardec:
ele não exigia que o leitor abandonasse o raciocínio.
Ao contrário, convidava-o a examinar.
Esse é um ponto que frequentemente se perde quando se fala superficialmente do Espiritismo.

NÃO PRECISAMOS INVENTAR PARA DEFENDER A DOUTRINA.
Também não é necessário exagerar.
Não precisamos dizer que a descrição de Júpiter constitui uma fotografia astronômica.
Não precisamos afirmar que a ciência terrestre contemporânea confirmou cada detalhe da comunicação.
E não devemos acrescentar nomes de Espíritos que as fontes aqui consultadas não apresentam como habitantes de Júpiter.
A força do texto está justamente em outra parte.
Está no quadro moral.
Palissy descreve um mundo em que não há guerras; em que o necessário não falta a ninguém enquanto outro possui o supérfluo; em que os dirigentes são superiores pelo grau de perfeição; em que os habitantes se unem pelos laços do amor; em que a principal ocupação dos Espíritos superiores inclui auxiliar os habitantes dos mundos inferiores.
Isso é muito mais importante para a reflexão espírita do que uma discussão precipitada sobre detalhes físicos.

JÚPITER NÃO É APENAS UM LUGAR.
Observe-se a diferença.
Na Terra, ainda encontramos a guerra.
Em Júpiter, a comunicação a apresenta como desconhecida.
Na Terra, o egoísmo ainda estabelece profundas barreiras.
Em Júpiter, o progresso moral já modificou as relações.
Na Terra, a riqueza pode conviver com a miséria.
Em Júpiter, a resposta afirma que ninguém possui o supérfluo enquanto outro carece do necessário.
Na Terra, a autoridade frequentemente se apoia na força.
Em Júpiter, ela é relacionada ao grau superior de perfeição.
Na Terra, muitas vezes o conhecimento é utilizado para dominar.
Em Júpiter, os mais adiantados dedicam-se também a auxiliar os menos adiantados.
A comparação não foi feita para humilhar a humanidade.
Foi feita para mostrar uma possibilidade de futuro.

O ESPÍRITO SUPERIOR NÃO ABANDONA OS INFERIORES.
Esse talvez seja um dos pontos mais belos.
Kardec pergunta quais são as principais ocupações dos habitantes de Júpiter.
A resposta afirma que eles procuram os mundos onde existem infortúnios, para auxiliar aqueles que ainda lutam.
A elevação espiritual, portanto, não conduz ao afastamento dos que sofrem.
Conduz à aproximação.
Quanto mais o Espírito se liberta do egoísmo, mais compreende a solidariedade.
Isso se harmoniza profundamente com a moral de O Evangelho Segundo o Espiritismo, particularmente com os ensinamentos sobre caridade, amor ao próximo e aperfeiçoamento moral.
(Ver O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulos XI, XV e XVII.)

A DIFERENÇA ENTRE OS ESPÍRITOS NÃO É UMA CASTA.
Há aqui uma distinção essencial.
Se existem Espíritos em diferentes graus de desenvolvimento, isso não significa a existência de castas espirituais.
A diferença é dinâmica.
Hoje um Espírito pode estar atrás.
Amanhã poderá estar adiante.
O progresso não é um privilégio reservado a poucos.
É uma lei.
E justamente por isso a comparação entre Terra e Júpiter pode ser lida sem humilhação.
Júpiter representa aquilo que o Espírito pode alcançar.
A Terra representa uma etapa de sua caminhada.
E nós, individualmente, estamos em algum ponto desse caminho.

O TEMPLO E O CULTO.
No final da comunicação, Kardec pergunta se existem diferentes religiões em Júpiter.
A resposta é particularmente significativa:
“Por templo há o coração do homem; por culto, o bem que ele faz.”
Depois de toda a descrição, corpos, alimentação, linguagem, animais, habitações, autoridade, riqueza, organização social, a comunicação termina onde o Espiritismo sempre precisa retornar:
na moral.
Não basta saber.
É preciso transformar.
Não basta falar sobre o bem.
É preciso realizá-lo.
Não basta admirar os Espíritos superiores.
É preciso caminhar na direção daquilo que eles representam.
(Ver O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XVII.)

O QUE JÚPITER NOS PERGUNTA.
Talvez essa seja a maior contribuição dessa página da Revista Espírita.
Ela nos obriga a inverter a pergunta.
Não:
“Será que existem pessoas em Júpiter?”
Mas:
“Que espécie de humanidade precisaremos nos tornar para que a Terra deixe de reproduzir aquilo que ainda nos prende aos mundos inferiores?”
Não:
“Como vivem Palissy, São Luís ou Mozart em Júpiter?”
Mas:
“O que esses nomes representam na perspectiva do progresso espiritual?”
Não:
“Por que eles seriam superiores a nós?”
Mas:
“Que distância moral ainda precisamos percorrer?”
Essa é a lucidez espírita.
Nem credulidade ingênua.
Nem zombaria ignorante.
Nem fantasia.
Estudo, comparação, prudência, raciocínio e consequência moral.
Kardec oferece o quadro.
A doutrina fornece os princípios.
E a consciência de cada um precisa decidir o que fazer diante deles.
Júpiter, então, deixa de ser apenas um mundo distante.
Torna-se uma pergunta dirigida à Terra.
E, sobretudo, dirigida a cada um de nós.
Porque se a diferença entre os Espíritos é diferença de progresso e não de criação, então ninguém está condenado a permanecer para sempre onde hoje se encontra.
O caminho permanece aberto.
A evolução continua.
E talvez seja precisamente essa a mensagem mais luminosa escondida entre as páginas antigas da Revista Espírita:
o Espírito não está pronto; está a caminho.
FONTES:
KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, março de 1858 — “Júpiter e alguns outros mundos”.
KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, abril de 1858 — “Conversas familiares de além-túmulo — Bernard Palissy (9 de março de 1858) — Descrição de Júpiter”.
KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, agosto de 1858 — “As habitações do planeta Júpiter”, por Victorien Sardou.
KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos, setembro de 1858 — “Observações sobre o desenho da casa de Mozart”.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questão 222 e questões relativas à pluralidade das existências, progresso dos Espíritos e pluralidade dos mundos.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões,100, 114, 115, 121 e 172 a 188.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Princípios referentes à natureza das comunicações e ao exame das manifestações espíritas.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulos XI, XV, XVI e XVII.
KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Primeira Parte — considerações sobre o futuro e as consequências dos atos.
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