LUCIDEZ ESPÍRITA: O MOBILIÁRIO DE... Marcelo Caetano Monteiro

LUCIDEZ ESPÍRITA: O MOBILIÁRIO DE ALÉM-TÚMULO.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Exegese do artigo da Revista Espírita - Agosto de 1859.

Prolegômenos - A Razão como Claridade.

Kardec abre este artigo com uma profissão de método que é a própria definição de lucidez espírita: o Espiritismo é ciência de observação, mas é, sobretudo, ciência de raciocínio. Não basta ver mesas girantes. É preciso compreender o porquê e o como. A crença cega já não está nos costumes deste século.

O estudo nasce de uma carta da Sra. R..., do Jura, correspondente da Sociedade Parisiense.

Dois fatos paradigmáticos:

1. O fumante invisível: Uma criança de 8 anos vê, durante toda a noite, um homem sentado à cabeceira da mãe, fumando um grande cachimbo, enchendo o quarto de fumaça e sacudindo as cortinas. Só a criança, em estado de maior sensibilidade mediúnica, o percebe.

2. O desdobramento e a tabaqueira: A própria Sra. R..., enferma e em vigília prolongada, vê às dez horas da noite um amigo de família velando-lhe o sono. Ele gira entre os dedos a sua tabaqueira habitual e toma rapé. Depois, constata-se que seu corpo físico dormia tranquilamente em sua casa. O Espírito se desdobrara. A tabaqueira vista era idêntica à real, que ficara em casa.

I. O Fundamento - A Teoria das Aparições.

Antes de resolver o acessório, Kardec relembra o principal.

O Espírito não é abstração. Possui, além do invólucro grosseiro, o perispírito, corpo semimaterial, etéreo, de natureza quintessenciada, invisível em estado normal.

A morte é a desagregação do primeiro corpo, não do segundo. No estado errante, o perispírito persiste.

A visibilidade se explica por uma analogia física precisa: o vapor d'água. Rarefeito, é invisível. Levemente condensado, torna-se névoa. Mais condensado, liquefaz-se. Mais ainda, solidifica-se. De modo análogo, por ato volitivo, o Espírito opera uma transmutação molecular em seu perispírito, tornando-o visível e, em certo grau, tangível. Não é condensação no sentido vulgar, mas modificação íntima de sua contextura fluídica, por vezes com assimilação de fluidos ambientes.

Até aqui, nenhuma dificuldade para a personalidade.

II. O Problema Ontológico - De onde vêm as roupas e os objetos?

Aqui reside o nó filosófico. Se o Espírito conserva a forma humana, compreende-se. Mas por que aparece vestido? Por que com cachimbo, tabaqueira, joias?

Teriam os objetos inertes um duplo etéreo no mundo invisível? Haveria um desdobramento da matéria inerte? A matéria teria uma parte quintessenciada que nos escapa?

Kardec formula a hipótese e a submete ao Espírito São Luís, em 24 de junho de 1859. A resposta destrói o fetichismo e funda o conceito que mais tarde chamaremos ideoplastia.

III. A Hermenêutica de São Luís - A Tabaqueira como Paradigma.

1. Sobre a natureza da fumaça e da tabaqueira - Questões 1 a 4.
A fumaça e a tabaqueira são aparência. Mas aparência, adverte Kardec em nota, não deve ser tomada como ilusão de ótica pura, como reflexo em espelho sem substrato.

A observação do Sr. Sanson é crucial: a imagem no espelho impressiona a chapa daguerreotipiana, logo possui um princípio material. São Luís confirma:
Certamente. É com o auxílio desse princípio material que o perispírito toma a aparência de vestimenta.
Aparência significa aqui imagem, reprodução ideoplástica. A tabaqueira real não foi transportada. Foi confeccionada ali, no momento, com a matéria elementar.

2. Sobre o mecanismo criador - Questões 5 a 7.
Não há duplo etéreo dos objetos. O que há é o Fluido Cósmico Universal, matéria primitiva elementar disseminada no espaço. O Espírito exerce sobre ele um poder que estamos longe de suspeitar. Por sua vontade, concentra esses elementos e lhes dá forma aparente, adequada ao seu projeto.

Ele não encontra a tabaqueira pronta. Ele a forma e depois a desfaz. O mesmo se dá com vestes, joias e todo o mobiliário de além-túmulo.

3. Sobre a tangibilidade e as propriedades adventícias - Questões 8 a 11.
Este é o ponto de maior lucidez. Pergunta Kardec: essa tabaqueira, tão visível que iludiu a vidente, poderia tornar-se tangível? Sim. Poderia ser tomada nas mãos como autêntica? Sim. Se aberta, teria rapé? Sim. Se aspirado, faria espirrar? Sim.

Logo, o Espírito não confere apenas forma, mas propriedades específicas, organolépticas e químicas, à matéria por ele agregada. É a demonstração cabal de seu império sobre a matéria.

4. Sobre os limites ético-providenciais - Questões 12 a 14.
Poderia fabricar veneno e envenenar? Poderia, mas não o faria, porque não teria permissão. Poderia fabricar substância salutar e curar? Sim, muitas vezes. Poderia fabricar alimento e saciar? Sim.

Kardec acrescenta nota de profunda prudência: a substância produz sensação de saciedade por ação sobre a economia orgânica, mas não a saciedade nutritiva permanente. São fenômenos raros, excepcionais, jamais subordinados ao capricho humano, sob pena de concorrência desleal com farmacêuticos e padeiros. É a lei da utilidade que rege a permissão.

5. Sobre a permanência e o valor - Questões 15 e 16
Poderia fabricar moedas? Pela mesma razão, sim. Mas poderiam ter caráter de permanência? Poderiam, mas isto não se faz. Está fora das leis. Toda criação fluídica é por essência temporária e subordinada. Sua estabilidade prolongada violaria a harmonia das leis naturais.

6. Sobre a hierarquia e a inconsciência do poder - Questões 17 a 22
Nem todos os Espíritos possuem esse poder em igual grau. Quanto mais elevado, mais facilmente o obtém, embora por vezes Espíritos inferiores também o obtenham por concessão providencial quando útil.

Mais notável: essa faculdade pode ser exercida à revelia da consciência, por automatismo instintivo, como o peixe-elétrico irradia eletricidade sem compreender seu mecanismo. Daí o caso de Espíritos inferiores que se iludem a si mesmos, julgando-se ainda cobertos de diamantes e paramentos terrenos, como a rainha de Oude evocada em março de 1858. O Espírito superior sabe que criou a roupa. O inferior crê que a possui.

IV. Corolário Supremo - A Pneumatografia.

A questão final de Kardec revela o objetivo do artigo:
Se pode tirar do elemento universal os materiais para fazer todas essas coisas, também pode tirar o necessário para escrever.
São Luís responde: Finalmente o compreendeis.

Se o Espírito pode condensar matéria para fazer uma tabaqueira tangível, pode condensá-la para fazer traços grafitados. A diferença é de finalidade: objetos volumosos são desfeitos após o uso; sinais gráficos são conservados, porque convém que o sejam. Eis a chave da escrita direta, o mais extraordinário fenômeno do Espiritismo experimental.

Síntese Doutrinária.

A teoria pode ser resumida no axioma final de Kardec, de rigorosa precisão metafísica:

Há formação, mas não criação, visto que o Espírito nada pode tirar do nada.

Não existe mobiliário de além-túmulo no sentido literal. Não há guarda-roupas e tabaqueiras eternas no mundo dos Espíritos. Há o pensamento do Espírito atuando como buril sobre a matéria cósmica primitiva, plasmando formas transitórias para se fazer reconhecível, para impressionar, para atestar sua presença.

O cachimbo, a fumaça e a tabaqueira não eram, portanto, objetos. Eram atos de vontade coagulados em matéria.