Embora a Morte que deixa quase todos... Alessandro Teodoro

Embora a Morte que deixa quase todos impactados seja só a Morte Física — muitos Depressivos vivem à exaustão,
de tanto Morrer à Prestação.
Há mortes que não têm velório, não recebem flores, não provocam abraços demorados nem interrompem a rotina de ninguém.
São mortes silenciosas, íntimas, que acontecem enquanto a pessoa continua levantando da cama, respondendo mensagens, trabalhando, sorrindo para fotografias e dizendo, quase por reflexo: “está tudo bem”.
A depressão, muitas vezes, não chega fazendo barulho.
Ela vai retirando, aos poucos, aquilo que dava sentido aos dias: a vontade, a esperança, o entusiasmo, a capacidade de imaginar um amanhã diferente.
E talvez uma das suas maiores crueldades seja essa: fazer alguém continuar existindo quando, por dentro, a existência já parece ter perdido o significado.
Morrer à prestação é acordar sem ter descansado, cumprir obrigações sem sentir presença, conversar sem conseguir dizer o que realmente dói.
É assistir à própria vida de algum lugar distante, como quem permanece no teatro depois de perder o interesse pela peça, mas não encontra forças para ir embora.
E o mundo, quase sempre, percebe apenas a morte definitiva.
Chora-se por quem partiu, mas raramente se pergunta quantas pessoas estão desaparecendo lentamente diante dos nossos olhos.
Talvez precisemos reaprender a prestar atenção às ausências dos que ainda caminham.
Ao amigo que deixou de procurar.
À pessoa que antes vibrava e agora apenas cumpre horários.
Ao sorriso que ficou automático.
Ao “não é nada” repetido tantas vezes que já virou um pedido silencioso de socorro.
Nem toda dor pede soluções imediatas.
Algumas pedem apenas presença.
Um ouvido que não julgue.
Uma pergunta sincera.
Um “eu estou aqui” que não seja apenas uma frase, mas uma permanência.
Porque há pessoas que não precisam que alguém as salve da morte; precisam, antes, que alguém as ajude a reencontrar motivos para continuar escolhendo a vida.
E talvez seja essa uma das formas mais profundas de humanidade: perceber que, enquanto lamentamos os mortos, também precisamos cuidar dos vivos — sobretudo daqueles que estão desaparecendo pouco a pouco, sem que ninguém perceba.
