O que será que a vida espera de mim?... Breda Junior

O que será que a vida espera de mim?

Às vezes me pergunto se ela espera que eu seja alguém digno. Alguém que tenha aprendido as regras do mundo, que saiba distinguir o certo do errado, que cumpra os valores que me ensinaram e carregue, com alguma dignidade, tudo aquilo que esperaram que eu fosse.

Mas quem decidiu o que é ser digno?

Talvez dignidade seja apenas uma palavra que inventamos para dar nome à maneira como esperamos que o outro viva.

Desde cedo nos ensinam o que devemos ser. Estudamos para ser alguém. Trabalhamos para ser alguém. Construímos relações, acumulamos histórias, conquistas, fracassos, títulos e lembranças — quase sempre tentando responder a uma pergunta que ninguém nos fez diretamente, mas que parece estar escondida em tudo:

“Você está sendo aquilo que deveria ser?”

E talvez seja justamente aí que a vida se torne estranha.

Porque, enquanto tentamos corresponder ao mundo, vamos nos afastando lentamente de nós mesmos.

Talvez a vida não queira de mim grandes feitos. Talvez não queira que eu seja extraordinário, admirado ou lembrado. Talvez queira apenas que eu consiga existir sem precisar transformar cada passo em uma prova de que mereço estar aqui.

Ser alguém simples.

Alguém que compreenda a si mesmo, ainda que nunca completamente. Alguém que reconheça as próprias contradições, faça as pazes com algumas delas e aprenda a conviver com aquilo que jamais conseguirá compreender.

E, quem sabe, compreender um pouco os outros.

Porque talvez compreender o outro seja também perceber que ninguém sabe exatamente o que está fazendo. Há pessoas que parecem ter todas as respostas, mas carregam perguntas que nunca tiveram coragem de dizer em voz alta.

Talvez todos nós estejamos apenas tentando encontrar alguma forma de chamar de vida aquilo que fazemos com o tempo que nos foi dado.

E então penso que talvez eu esteja fazendo a pergunta errada.

Talvez não seja a vida que espera alguma coisa de mim.

Talvez seja eu quem espere alguma coisa dela.

Espero que, em algum momento, tudo faça sentido. Que os encontros tenham uma razão, que as perdas tenham deixado alguma coisa, que os caminhos que não escolhi tenham me conduzido, de alguma maneira, até onde deveria estar.

Espero que exista alguma espécie de resposta escondida depois de todas essas perguntas.

Mas talvez não exista.

Talvez eu esteja procurando por algo que nunca teve nome.

Algo simples e, ao mesmo tempo, impossível de explicar. Algo que não cabe em uma profissão, em uma relação, em uma conquista ou em qualquer uma das palavras que usamos para definir uma vida.

Algo que talvez exista apenas naquele lugar silencioso dentro de nós onde ninguém mais consegue entrar.

E talvez seja por isso que, mesmo quando conquistamos aquilo que um dia desejamos, ainda sentimos que falta alguma coisa.

Porque há desejos que não sabem dizer o próprio nome.

Há vazios que não pedem para ser preenchidos, apenas compreendidos.

Há partes de nós que passam anos esperando que finalmente prestemos atenção nelas.

Talvez viver seja esse movimento estranho entre aquilo que o mundo espera de nós e aquilo que, silenciosamente, esperamos encontrar dentro de nós mesmos.

Talvez amadurecer não seja finalmente descobrir quem somos.

Talvez seja aceitar que nunca seremos uma resposta definitiva.

Somos perguntas em movimento.

Somos aquilo que fomos, aquilo que perdemos, aquilo que escolhemos, aquilo que recusamos e também tudo aquilo que ainda não conseguimos ser.

E talvez a vida não esteja esperando nada de nós.

Talvez ela simplesmente aconteça.

E sejamos nós que, diante dela, insistimos em perguntar:

“O que devo fazer com tudo isso?”

Talvez a resposta não esteja em descobrir o que a vida espera de mim.

Talvez esteja em descobrir o que, apesar de tudo, ainda faz com que eu queira continuar vivendo.