MÉDIUNS VERDADEIROS E FALSOS MÉDIUNS:... Marcelo Caetano Monteiro

MÉDIUNS VERDADEIROS E FALSOS MÉDIUNS: QUANDO A MEDIUNIDADE SE AFASTA DA LEI MORAL.

A RESPONSABILIDADE ESPÍRITA DIANTE DOS NOVOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Aos queridos amigos e irmãos em Doutrina Espírita Shirley De Siqueira e Artur Felipe Ferreira. Com votos de muita paz sempre por tua dedicação e zelo por nossa doutrina inalienável.

Na atualidade, com os meios de comunicação cada vez mais ativos, rápidos e abrangentes, as antigas advertências da Codificação Espírita ganham uma dimensão ainda maior. Aquilo que antes permanecia restrito a pequenos círculos pode hoje alcançar milhares de pessoas em poucos instantes, tornando a responsabilidade moral diante da divulgação espiritual muito mais ampla.

Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: nós, espíritas, cruzaremos os braços ou voltaremos as costas diante dos procedimentos que deturpam a mediunidade e confundem aqueles que buscam amparo para suas dores?

O silêncio, quando a verdade precisa ser esclarecida, pode transformar-se em uma forma indireta de colaboração com o erro. O Espiritismo jamais ensinou a agressividade, a condenação precipitada ou o julgamento pessoal, mas igualmente nunca recomendou a omissão diante da mistificação, do abuso da fé e da exploração da fragilidade humana.

O bom senso, princípio tão valorizado por Allan Kardec, deve permanecer como guia permanente do espírita consciente. Não foi sem razão que Camille Flammarion, em seu discurso por ocasião da desencarnação de Allan Kardec, em 31 de março de 1869, destacou essa característica fundamental do Codificador, ao referir-se a ele como “o bom senso encarnado”.

Esse bom senso não representa frieza ou indiferença; ao contrário, significa unir razão e sentimento, compaixão e discernimento, respeito e responsabilidade.

Defender a mediunidade verdadeira não é atacar médiuns; é proteger a própria dignidade da faculdade mediúnica. Esclarecer não é perseguir; é exercer caridade para com aqueles que podem ser conduzidos ao engano em momentos de profunda vulnerabilidade.

A mensagem espírita não teme o exame, porque a verdade não necessita de artifícios para permanecer de pé. Quanto maior for o alcance dos meios de comunicação, maior deve ser também o compromisso dos espíritas com o estudo, a prudência e a fidelidade aos princípios ensinados pelos Espíritos superiores.
A mediunidade, segundo o Espiritismo, não é um título de superioridade espiritual, uma marca de santificação ou uma autorização para exercer domínio sobre consciências fragilizadas pela dor. É uma faculdade humana, concedida como instrumento de auxílio, esclarecimento e progresso moral. Entretanto, quando essa faculdade é contaminada pelo orgulho, pelo interesse pessoal, pela vaidade ou pela exploração da fé alheia, transforma-se em terreno perigoso, capaz de produzir sofrimentos profundos.
Não são poucos os casos em que pessoas, diante da perda de um ente querido, de uma enfermidade ou de uma angústia existencial, procuram respostas em indivíduos que se apresentam como médiuns. A fragilidade emocional do momento torna o sofrimento ainda maior quando encontram alguém que, utilizando-se de uma suposta autoridade espiritual, oferece falsas certezas, mensagens inventadas ou promessas que alimentam ilusões.
O problema não está na mediunidade; está naquele que a utiliza sem responsabilidade moral.

O CRITÉRIO DE JESUS E A QUESTÃO 624 DE O LIVRO DOS ESPÍRITOS.
Allan Kardec, ao organizar os ensinamentos dos Espíritos, não deixou a análise dos médiuns entregue ao fascínio dos fenômenos. Ele estabeleceu um critério superior: a moralidade.
A questão 624 de O Livro dos Espíritos pergunta:
“Qual o caráter do verdadeiro profeta?”
E os Espíritos respondem:
“O verdadeiro profeta é um homem de bem, inspirado por Deus. Podeis reconhecê-lo pelas suas palavras e pelos seus atos. Impossível é que Deus se sirva da boca do mentiroso para ensinar a verdade.”
Essa resposta é uma das mais severas advertências da Codificação. Ela não afirma que o verdadeiro mensageiro deve ser alguém sem imperfeições humanas, mas estabelece que suas atitudes devem confirmar suas palavras.
A denúncia espiritual contida nessa questão é clara: não existe legitimidade divina em quem mente, manipula ou utiliza o sofrimento alheio para benefício próprio.
O discurso religioso pode impressionar; a aparência pode convencer; os fenômenos podem despertar curiosidade. Porém, para o Espiritismo, o julgamento deve repousar sobre a conduta moral.

JESUS COMO MODELO SUPREMO — QUESTÃO 625
Na sequência, a questão 625. pergunta:
“Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo?”
A resposta é direta:
“Jesus.”
Kardec demonstra que a referência maior da humanidade não é o fenômeno, mas o amor; não é o poder, mas a renúncia; não é a fama, mas o serviço.
Jesus jamais transformou sua missão em comércio espiritual. Curou, consolou e ensinou sem exigir recompensa material. Sua autoridade vinha da harmonia absoluta entre aquilo que ensinava e aquilo que vivia.
Por isso, todo médium que pretende representar o mundo espiritual precisa confrontar sua própria conduta com esse modelo.

A OMISSÃO HUMANA DIANTE DA QUESTÃO 932.
A questão 932 de O Livro dos Espíritos apresenta uma reflexão profunda:
“Por que, no mundo, tão amiúde, a influência dos maus sobrepuja a dos bons?”
Resposta:
“Por fraqueza destes. Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes o quiserem, preponderarão.”
Essa questão revela uma realidade que ultrapassa a mediunidade: muitas vezes, o erro prospera não apenas pela força de quem engana, mas pelo silêncio daqueles que conhecem a verdade e permanecem inertes.
É lamentável que essa advertência ainda pese pouco na consciência coletiva quando um falso médium, aproveitando-se da dor de uma família enlutada, produz uma segunda morte: a morte da esperança verdadeira, substituída pela mentira.
A primeira dor é a perda física do ser amado. A segunda é ser enganado no momento em que a alma está mais vulnerável.
O silêncio diante desses abusos favorece que a influência dos maus continue predominando.

KARDEC E OS MÉDIUNS QUE DESVIARAM SUA MISSÃO.
Allan Kardec jamais tratou os médiuns como figuras intocáveis. Pelo contrário, examinou profundamente os perigos que envolviam aqueles que possuíam essa faculdade.
Na Revista Espírita de março de 1859, no artigo “Médiuns Interesseiros”, Kardec alerta contra aqueles que transformavam a mediunidade em fonte de lucro ou vantagem pessoal.
Para ele, o problema não era apenas receber dinheiro diretamente. O interesse podia assumir várias formas:
desejo de fama;
necessidade de admiração;
busca de poder sobre os outros;
criação de dependência psicológica;
exploração da credulidade pública.
O médium que usa a faculdade mediúnica para alimentar o próprio ego afasta-se do objetivo espiritual da mediunidade.
Kardec esclarece que os Espíritos superiores não se associam a intenções mesquinhas. Quando o orgulho e o interesse dominam o instrumento mediúnico, abre-se espaço para mistificações e comunicações inferiores.

A MEDIUNIDADE NÃO É PROFISSÃO.
Em O Livro dos Médiuns, capítulo XXVI — “Da Gratuidade da Mediunidade” — Kardec reafirma o princípio ensinado por Jesus:
“Dai de graça o que de graça recebestes.”
A mediunidade, sendo uma faculdade concedida por Deus, não pode ser transformada em instrumento comercial.
A cobrança direta por comunicações espirituais, consultas ou revelações representa uma inversão do sentido da faculdade.
O médium não é proprietário da mensagem espiritual. É apenas intermediário.
Transformar o sofrimento humano em oportunidade de ganho é uma grave distorção moral.

O PERIGO DA CARIDADE USADA COMO JUSTIFICATIVA.
Um dos pontos mais delicados analisados por Kardec é a falsa aparência de bondade.
Alguns indivíduos podem realizar ações aparentemente caridosas e, ao mesmo tempo, manter práticas de exploração espiritual.
A verdadeira caridade, conforme a questão 886 de O Livro dos Espíritos, não está apenas na ação exterior, mas na pureza da intenção:
“Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros e perdão das ofensas.”
A caridade não pode ser usada como máscara para justificar manipulação, vaidade ou interesse.
O bem verdadeiro não precisa de propaganda para provar sua existência.

O MÉDIUM E SUA RESPONSABILIDADE DIANTE DA DOR HUMANA.
A maior responsabilidade do médium não é produzir fenômenos; é preservar a verdade e o consolo legítimo.
Uma mensagem espiritual deve conduzir ao equilíbrio, à esperança, à reforma íntima e à confiança em Deus. Quando cria dependência, medo ou submissão cega, afastou-se do Evangelho.
O verdadeiro médium não se coloca entre a criatura e Deus como dono das respostas. Ele auxilia o próximo a encontrar dentro de si a força espiritual necessária para caminhar.
A mediunidade elevada não escraviza consciências; liberta.

CONCLUSÃO.
O Espiritismo não condena a mediunidade; denuncia seu desvio, ainda mais quando esta não é autentica e usada sob a bandeira do Espiritismo. Porque o espiritismo não é isso. O Espiritismo tem uma identidade própria denotada por seu codificador.
Allan Kardec ensinou que o médium deve ser avaliado pela moral, pelos frutos e pela coerência de sua vida. A faculdade mediúnica sem vigilância moral pode transformar-se em instrumento de engano; porém, quando orientada pelo Evangelho, torna-se caminho de auxílio e esclarecimento.
A questão 624 permanece como um marco de discernimento:
Deus não se serve da boca do mentiroso para ensinar a verdade.
E a questão 932 permanece como uma advertência coletiva:
O mal avança quando os bons se calam.
Diante da dor humana, a responsabilidade não pertence apenas a quem engana, mas também àqueles que, conhecendo a verdade, deixam de defendê-la.

FONTES.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 624, 625, 886 e 932.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Capítulo XXVI — Da Gratuidade da Mediunidade. 1861.
KARDEC, Allan. Revista Espírita — Jornal de Estudos Psicológicos. Março de 1859. Artigo: “Médiuns Interesseiros”.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Março de 1859. Artigo: “Estudo sobre os Médiuns”.
KARDEC, Allan. Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Revista Espírita, maio de 1858.