Hoje compreendi que o amor-próprio não... Escritor, Dr em Psicanálise...

Hoje compreendi que o amor-próprio não é colocar-se acima dos outros, mas finalmente reconhecer que também existimos para além das expectativas que depositam sobre nós.


Na psicanálise, aprendemos que nem todo sofrimento que o outro sente nos pertence e que não somos responsáveis por preencher todas as faltas alheias. Existe uma diferença profunda entre cuidar de alguém e tornar-se responsável pelaquilo que essa pessoa espera de nós. Muitas vezes, aquilo que chamamos de culpa nasce justamente quando começamos a estabelecer limites.


Há pessoas que só conseguem lembrar do momento em que você não esteve presente para elas, mas raramente perguntam o que estava acontecendo dentro de você naquele instante. É mais fácil transformar o outro em culpado do que confrontar a própria falta, a própria fragilidade e aquilo que não se pode exigir de ninguém.


A filosofia também nos ensina que não controlamos a interpretação que os outros fazem de nossas escolhas. Podemos agir com consciência, respeito e honestidade, mas jamais teremos domínio sobre a narrativa que alguém construirá a nosso respeito.


Talvez amadurecer seja justamente compreender isso: nem todo abandono foi abandono; às vezes foi limite. Nem todo afastamento foi falta de amor; às vezes foi uma tentativa de preservar aquilo que ainda restava de nós.


Existe um momento em que precisamos deixar de viver tentando provar que somos bons para aqueles que já decidiram nos interpretar como culpados.


Amar o outro não deveria exigir o abandono de si.


E talvez o verdadeiro amor-próprio comece quando conseguimos dizer, sem ódio e sem necessidade de vingança:


**“Eu reconheço a sua dor, mas ela não me torna responsável por tudo aquilo que você sente. E também tenho o direito de cuidar de mim.”**