SE - BIANCA RODRIGUES Se os outros... Bianca Rodrigues
SE
- BIANCA RODRIGUES
Se os outros perderem a razão,
não tenhas tanta pressa de perder a tua.
Há emoções que chegam como tempestades,
mas se tu estiveres dentro de ti, não se molharão.
Se te julgarem, escuta.
Talvez exista alguma verdade na acusação;
ou exista apenas a necessidade do outro
de colocar em ti aquilo que não suporta em si.
Aprende a diferença.
Nem toda crítica merece resposta.
Nem todo silêncio significa rejeição.
Nem toda rejeição significa falta de valor.
Às vezes, nós tentamos transformar
incerteza em certeza,
porque a certeza, mesmo dolorosa,
parece menos ameaçadora que o desconhecer.
Então espera.
Não pense que esperar seja covardia,
porque nem todo impulso
é um chamado.
Se desejares alguma coisa com toda a força, permite-te desejar.
Mas não entregues tua existência ao teu desejo.
Querer não é possuir.
Perder não é deixar de ser.
E esta é uma das maiores
e mais desagradáveis descobertas da vida:
você pode fazer tudo corretamente
e ainda assim as coisas darem errado.
A vida não assinou contrato comigo e nem contigo.
Há fatos que não conhecemos, e nem controlamos, histórias que ainda não foram contadas,
corpos que adoeceram,
pessoas que vão se mudar, em algum momento,
circunstâncias que simplesmente acontecem.
Não transformes o acaso em tragédia.
O acaso faz parte do trajeto.
Se vencer, desfruta
mas não construa uma identidade sobre a tua vitória.
Se perder, sofra
mas não construa uma identidade sobre a tua derrota.
Você não é o acontecimento.
É também aquilo que faz
depois que o acontecimento termina.
E quando perder alguém,
um sonho, uma oportunidade
ou aquela versão sua
que acreditava saber para onde estava indo,
não se apresse a chamar isso de fim.
Há coisas que precisam morrer
para que deixemos de viver em torno delas.
Recomeçar não é voltar ao ponto inicial.
É só continuar diferente.
Se ninguém reconhecer teu esforço,
ainda assim será teu esforço.
Se todos te aplaudirem,
desconfia um pouco da própria vaidade.
O aplauso é agradável,
mas é um péssimo lugar para fazer morada.
Aprende a permanecer
quando não houver plateia.
A ser gentil sem ser submisso.
A ser firme sem ser cruel.
A dizer não sem transformar o outro em inimigo.
A dizer sim sem abandonar a si mesmo.
E, sobretudo, aprende isto:
sentir intensamente não significa precisar agir imediatamente.
A emoção pode ser verdadeira
sem ser um alarme de incêndio.
A raiva pode existir
sem escolher tuas palavras.
O medo pode existir
sem escolher teu caminho.
A tristeza pode existir
sem decidir teu futuro.
Tu não precisas lutar com cada emoção.
Elas só precisam ter um bom condutor.
E talvez seja isso que significa
tornar-se humano:
não eliminar o caos,
mas aprender a reduzir a velocidade
enquanto ele estiver passando.
Porque ninguém escolhe todas as circunstâncias
que encontrará nesta vida.
E quando chegar o último minuto,
não será importante saber
quantas vezes venceu,
quantas pessoas te admiraram,
quantas certezas acumulou,
ou quantas batalhas suportou.
Penso eu que importe apenas isto:
quanto de ti permaneceu teu
depois que a vida tentou te transformar
em alguém que você não queria ser.
E se, apesar de tudo,
ainda conseguir olhar para o mundo
sem precisar possuí-lo,
olhar para os outros
sem precisar decrescê-los,
olhar para tuas feridas
sem transformá-las em identidade,
então talvez tenha aprendido
a mais difícil das artes:
não controlar a vida,
mas não entregar a ela
o governo de quem você é.
