Clone. Com o avanço da tecnologia e,... Gabriel Parice Lopes

clone.

Com o avanço da tecnologia e, principalmente, com a minha completa falta de bom senso diante da modernidade, decidi que vou criar um clone seu.

Não precisa se assustar. É só um projeto científico.

Mais ou menos.

A primeira especificação é simples, ele precisa ter a sua aparência. E quando eu digo a sua aparência, não estou falando apenas de cabelo, olhos, boca, altura, essas coisas básicas que qualquer programador preguiçoso colocaria no código. Quero o conjunto completo. Quero aquele rosto que parece ter sido desenhado com uma certa má intenção, porque não é possível uma pessoa sair por aí com essa cara e ainda esperar que os outros funcionem normalmente.

Quero os seus olhos também.

Mas não basta colocar a cor, o formato e a distância entre eles. Quero o jeito que você olha.

Isso vai dar trabalho.

Porque tem um tipo específico de olhar seu que provavelmente não existe em nenhum banco de dados. Aquele olhar que muda de significado dependendo do que está acontecendo. as vezes parece que você está prestando atenção. as vezes parece que está julgando. as vezes parece que sabe exatamente o que eu estou pensando e decidiu não comentar só para me deixar nervoso.

O clone precisa disso.

Inclusive, vou precisar instalar um módulo chamado “olhar de Luana”.

Ainda estou tentando descobrir se é inteligência artificial ou ameaça psicológica.

A voz também é indispensável.

Não quero uma voz parecida. Quero a sua.

Quero a maneira como você fala determinadas palavras, as pausas que você faz, o jeito como muda a voz quando está rindo, quando está brava, quando está com vergonha e principalmente quando tenta fingir que não está com vergonha, nessa sua defensiva absurda.

Quero até aquelas palavras que só você falaria em determinadas situações.

Porque uma inteligência artificial pode aprender milhões de idiomas, mas se ela não souber exatamente qual palavra você usaria para me tirar do sério, ela é simplesmente inútil.

Pode desligar.

Também quero suas manias.

Todas.

As pequenas, as bobas, as que você provavelmente nem percebe que tem.

Quero que o clone faça aquela coisa específica que você faz quando está pensando. Quero que ele tenha suas reações involuntárias, suas implicâncias, seus jeitos, suas mudanças repentinas de assunto e até aquela capacidade impressionante de transformar uma conversa completamente normal em alguma coisa que eu vou ficar lembrando três dias depois.

E, obviamente, quero instalar o seu senso de humor.

Mas esse é perigoso.

Porque o objetivo é criar um clone seu, não uma arma de destruição em massa.

Embora, pensando bem, talvez as duas coisas sejam praticamente a mesma tecnologia.

Também quero as nossas memórias.

Todas.

Quero que, quando chegar aquela hora silenciosa da noite em que o mundo inteiro parece diminuir o volume, eu possa sentar ao lado dele e dizer

“Você lembra?”

E ele lembrar.

Lembrar das coisas que ninguém mais entenderia.

Das conversas que começaram falando de uma coisa e terminaram em absolutamente nada.

Das piadas que, explicadas para qualquer outra pessoa, perderiam completamente a graça.

Dos momentos pequenos que não pareciam importantes quando aconteceram, mas que, depois de algum tempo, ganharam aquele peso estranho de coisa que a gente gostaria de viver de novo.

Quero que ele ria das nossas lembranças.

E quero que, as vezes, ele fique em silêncio comigo.

Porque talvez seja essa a parte mais difícil de copiar.

O silêncio.

O seu silêncio nunca foi simplesmente ausência de palavras. as vezes ele dizia mais do que você conseguiria explicar falando.

Então eu quero isso também.

Quero até a sua maneira de ficar quieta.

Quero o seu jeito de existir perto de mim sem precisar fazer nada.

E, claro, existe uma especificação absolutamente indispensável

o toque.

Não adianta ter aparência perfeita, voz perfeita, memória perfeita, inteligência perfeita.

Se eu não puder reconhecer você pelo jeito que a sua mão encontra a minha, o projeto fracassou.

Se o abraço não tiver aquele negócio inexplicável que faz o resto do mundo parecer um pouco menos urgente, pode devolver para a fábrica.

Se o toque não tiver a mesma capacidade de dizer “estou aqui” sem precisar pronunciar uma única palavra, nem instala.

Porque, no fim, talvez seja esse o defeito fundamental da tecnologia.

Ela consegue copiar quase tudo.

Rosto.

Voz.

Movimento.

Memória.

Comportamento.

Pode até aprender a responder exatamente como você responderia.

Mas ainda não descobriu como fabricar a sensação de encontrar alguém e pensar, sem precisar dizer

“Ah

Era você.”

E acho que é aí que o meu projeto começa a dar errado.

Porque quanto mais eu tento especificar o que o clone precisa ter, mais percebo que não estou tentando criar uma segunda Luana.

Estou tentando construir uma máquina capaz de reproduzir aquilo que acontece comigo quando você está por perto.

E isso, infelizmente, não cabe em código.

Não tem atualização.

Não tem backup.

Não tem versão premium.

Nem a inteligência artificial mais avançada do mundo conseguiria entender por que uma determinada risada sua consegue mudar completamente o clima de uma noite.

Então eu poderia continuar.

Posso pedir o seu jeito de andar, o jeito de mexer no cabelo, as expressões que você faz sem perceber, as frases que só você fala, o seu olhar quando está feliz, o seu olhar quando está tentando esconder alguma coisa, a maneira como você pronuncia certas palavras, o seu abraço, o seu silêncio, as nossas memórias, as nossas piadas, os nossos códigos secretos...

Mas quer saber?

AH, DEIXA PRA LÁ.

É MUITA COISA.

O projeto ficou caro demais, a tecnologia ainda não chegou nesse nível e aparentemente eu descobri que fabricar uma Luana exige mais engenharia do que eu imaginava.

Tem como você voltar logo mesmo?

KKKK

Porque, pensando bem, eu nem queria um clone.

Eu só queria você.

E, convenhamos, essa versão original ainda é infinitamente mais bonita.