Raízes e Sussurros Gritarei para o... Dominique Dias Santos
Raízes e Sussurros
Gritarei para o mundo,
não com fúria, mas com fogo.
Porque existir, em mim, não é acaso.
É eco.
É raiz que pulsa sob a terra,
folha que se recusa a cair calada.
Carrego em mim
a dor dos que não falam,
a esperança das sementes,
o sussurro dos bichos
que a humanidade esqueceu.
E mesmo quando duvidei de mim,
a natureza ainda acreditava.
O sol nascia.
Os rios corriam.
As folhas insistiam em nascer,
como se dissessem:
“Você também é parte disso tudo.”
Sou consequência das estrelas,
mas também das lágrimas.
Sou luz,
sim,
mas uma luz que conhece a escuridão.
Há raízes em mim
que não sei nomear.
Há vozes que não são minhas
e ainda assim vivem no meu peito.
O rio que corre
carrega histórias que não ouvi.
A árvore que permanece
guarda silêncios mais antigos que os meus.
E os animais,
com seus olhos silenciosos,
parecem perguntar
por que esquecemos
que também somos parte da vida.
Talvez eu seja pequena
diante de uma árvore antiga,
breve diante de um oceano,
impermanente diante da Terra.
Elas estavam aqui antes de mim.
Talvez permaneçam depois.
Sou apenas um sopro,
uma faísca breve
num planeta em combustão.
Mas essa faísca sente.
Essa faísca escuta.
E enquanto houver vida
correndo sob a terra,
enquanto houver sementes
rompendo o concreto,
enquanto houver um animal
procurando abrigo,
eu também estarei aqui.
Não como dona.
Como parte.
Porque talvez existir
seja justamente isso:
deixar de olhar o mundo
como algo que nos pertence
e finalmente perceber
que pertencemos a ele.
E há coisas que o mundo sussurra
antes que aprendamos a ouvir.
Eu ouvi.
E agora carrego suas raízes
dentro de mim.
