44 Hoje faço 44 anos. Lá fora, a chuva... Fabiano Demitte
44
Hoje faço 44 anos.
Lá fora, a chuva bate no vidro como quem tenta entrar.
O vento passa forte, assobiando entre as frestas, e por alguns segundos parece ser a única coisa fazendo companhia.
Estou aqui, olhando pela janela.
Os pés frios.
O quarto escuro.
O céu sem cor.
E dentro de mim, coisas que também não encontraram luz.
Conversas que ficaram pela metade.
Palavras que não chegaram.
Respostas que talvez nunca venham.
Pessoas que estão longe mesmo quando deveriam estar perto.
E caminhos que, por enquanto, parecem não levar a lugar algum.
Engraçado… aniversário deveria ser um dia cheio de presença.
Mas hoje o que mais consigo perceber são as ausências.
Ausência de algumas pessoas.
De alguns abraços.
De algumas certezas.
De algumas versões de mim que ficaram perdidas em algum lugar desses 44 anos.
Hoje não quero festa.
Não quero fingir que está tudo bem.
Não quero transformar tristeza em gratidão só porque o calendário diz que eu deveria estar feliz.
Hoje eu só quero permitir que este dia seja o que ele é.
Cinza.
Frio.
Silencioso.
Talvez a chuva lá fora esteja apenas acontecendo.
Mas daqui de dentro parece que ela entende.
E enquanto o vento bate contra a janela, penso em quantas tempestades uma pessoa atravessa sem que ninguém perceba.
Hoje são 44 anos.
Quarenta e quatro anos de histórias que deram certo e outras que ainda doem quando lembro.
De encontros e despedidas.
De sonhos realizados e outros que ficaram pelo caminho.
De pessoas que chegaram, pessoas que partiram e pessoas que, de alguma forma, ficaram inacabadas dentro de mim.
Talvez envelhecer seja também isso:
carregar um pouco de tudo aquilo que não conseguimos resolver.
E hoje, no meu aniversário, não tenho nenhuma grande conclusão.
Só esta janela.
A chuva.
O vento.
O frio nos pés.
Algumas coisas sem resposta.
E uma estranha sensação de estar comemorando mais um ano de vida justamente em um dos dias em que a vida parece mais silenciosa.
Hoje faço 44.
E talvez ninguém consiga perceber pela fotografia,
mas naquele quarto escuro existe alguém tentando, em silêncio, encontrar um pouco de calor no meio de um dia completamente frio.
