Coleção pessoal de fabiano_demitte
Onde o Tempo Não Existe
E se o tempo nunca tivesse existido?
Se aquilo que chamamos de ontem,
hoje
e amanhã
fosse apenas uma maneira limitada
de organizar o infinito?
Talvez exista algum lugar
onde eu ainda tenha um ano.
Onde minhas mãos ainda sejam pequenas
e eu não saiba que um dia
vou aprender o significado da palavra saudade.
Nesse mesmo lugar,
eu tenho cinco.
Corro sem saber que estou correndo
para longe de uma infância
que passarei o resto da vida tentando encontrar.
Tenho dez.
Ainda existem pessoas ao meu redor
que, em outra parte dessa linha,
já não estão mais aqui.
Eu olho para elas,
converso com elas,
e não faço ideia
do privilégio que é poder ouvir suas vozes.
Tenho quinze.
Acredito que a vida está começando.
Tenho vinte.
Acredito que tenho tempo.
Tenho trinta.
Começo a perceber
que algumas portas se fecharam
sem fazer barulho.
Tenho quarenta.
E talvez já olhe para os vinte
como quem observa uma pessoa
que um dia conheceu muito bem.
Tenho cinquenta.
Sessenta.
Setenta.
Cem.
E se todas essas versões de mim
não estiverem esperando para acontecer?
E se elas já existirem?
Agora.
Todas juntas.
Talvez em algum lugar
o menino esteja sentado ao lado do velho.
O menino pergunta:
“Quem é você?”
E o velho responde:
“Sou aquilo que aconteceu com você.”
Mas talvez o velho também pergunte:
“E você, quem é?”
E o menino sorria:
“Sou aquilo que você perdeu.”
Então os dois ficam em silêncio.
Porque nenhum deles está realmente no passado.
Nenhum deles está no futuro.
Somos nós que atravessamos a vida
acreditando que deixamos versões nossas para trás.
Mas e se ninguém tiver ficado para trás?
E se a criança ainda estiver brincando?
Se o adolescente ainda estiver sofrendo
por algo que hoje parece pequeno?
Se aquele dia perfeito
ainda estiver acontecendo em algum ponto
que nossos olhos já não conseguem enxergar?
Se as pessoas que perdemos
ainda estiverem sentadas naquela mesa?
Se aquela porta ainda estiver aberta?
Se aquela voz ainda estiver dizendo nosso nome?
Talvez o tempo seja apenas uma parede
que nos impede de ver tudo de uma vez.
Porque seria insuportável.
Imagine olhar para uma pessoa que você ama
e enxergar simultaneamente
o bebê que ela foi,
o adulto que ela é
e o último dia em que você poderá abraçá-la.
Imagine olhar para si mesmo
e ver todos os seus rostos.
O primeiro.
O de agora.
E o último.
Talvez seja por misericórdia
que enxergamos apenas um instante de cada vez.
Talvez o presente seja uma pequena janela
aberta sobre algo infinitamente maior.
Mas às vezes…
em certos sonhos,
em certos cheiros,
em certas músicas,
em certos silêncios,
parece que alguma coisa quebra.
Por alguns segundos,
temos cinco anos outra vez.
Dez.
Quinze.
Vinte.
E não estamos lembrando.
Estamos lá.
Talvez seja por isso que algumas lembranças doem tanto.
Porque talvez a memória
não seja exatamente olhar para trás.
Talvez seja tocar, por alguns segundos,
um lugar onde aquilo ainda está acontecendo.
Um lugar onde ninguém envelheceu.
Ninguém foi embora.
Nenhuma despedida aconteceu.
Onde todas as nossas idades
estão sentadas na mesma sala,
esperando umas pelas outras.
E talvez, quando tudo terminar,
não exista um fim.
Talvez apenas descubramos
que nunca estivemos caminhando por uma linha.
Estávamos dentro de algo eterno.
E então veremos:
o primeiro choro,
o primeiro passo,
os amores,
os erros,
as perdas,
os reencontros,
a juventude,
a velhice,
todos acontecendo
no mesmo instante.
E talvez finalmente entendamos
que o tempo nunca levou nada.
Nós é que só conseguíamos enxergar
uma parte da eternidade por vez.
44
Hoje faço 44 anos.
Lá fora, a chuva bate no vidro como quem tenta entrar.
O vento passa forte, assobiando entre as frestas, e por alguns segundos parece ser a única coisa fazendo companhia.
Estou aqui, olhando pela janela.
Os pés frios.
O quarto escuro.
O céu sem cor.
E dentro de mim, coisas que também não encontraram luz.
Conversas que ficaram pela metade.
Palavras que não chegaram.
Respostas que talvez nunca venham.
Pessoas que estão longe mesmo quando deveriam estar perto.
E caminhos que, por enquanto, parecem não levar a lugar algum.
Engraçado… aniversário deveria ser um dia cheio de presença.
Mas hoje o que mais consigo perceber são as ausências.
Ausência de algumas pessoas.
De alguns abraços.
De algumas certezas.
De algumas versões de mim que ficaram perdidas em algum lugar desses 44 anos.
Hoje não quero festa.
Não quero fingir que está tudo bem.
Não quero transformar tristeza em gratidão só porque o calendário diz que eu deveria estar feliz.
Hoje eu só quero permitir que este dia seja o que ele é.
Cinza.
Frio.
Silencioso.
Talvez a chuva lá fora esteja apenas acontecendo.
Mas daqui de dentro parece que ela entende.
E enquanto o vento bate contra a janela, penso em quantas tempestades uma pessoa atravessa sem que ninguém perceba.
Hoje são 44 anos.
Quarenta e quatro anos de histórias que deram certo e outras que ainda doem quando lembro.
De encontros e despedidas.
De sonhos realizados e outros que ficaram pelo caminho.
De pessoas que chegaram, pessoas que partiram e pessoas que, de alguma forma, ficaram inacabadas dentro de mim.
Talvez envelhecer seja também isso:
carregar um pouco de tudo aquilo que não conseguimos resolver.
E hoje, no meu aniversário, não tenho nenhuma grande conclusão.
Só esta janela.
A chuva.
O vento.
O frio nos pés.
Algumas coisas sem resposta.
E uma estranha sensação de estar comemorando mais um ano de vida justamente em um dos dias em que a vida parece mais silenciosa.
Hoje faço 44.
E talvez ninguém consiga perceber pela fotografia,
mas naquele quarto escuro existe alguém tentando, em silêncio, encontrar um pouco de calor no meio de um dia completamente frio.
Deus não se apressa, pois Seu tempo é eterno — e tudo que vem d’Ele floresce no momento exato.
Eclesiastes 3:11
Há um tempo em que o caos se cala, e cada detalhe da vida repousa no exato lugar que a vontade de Deus desenhou em silêncio.
Às vezes, apenas sinto.
Não sei exatamente o que é a tristeza.
Ela não grita, não se explica, não aparece com nome ou rosto.
Ela só… se instala.
Às vezes, vem devagar — uma brisa fria que toca o peito sem pedir licença.
Outras, é como um silêncio pesado que se senta ao meu lado e decide ficar.
Não dói como uma ferida, não arde como o medo.
É mais sutil. Mais vazia.
É um olhar perdido, um suspiro que não encontra ar.
É estar cercado de coisas e ainda assim se sentir longe.
É querer chorar, mas não ter lágrima.
É desejar ser ouvido, mesmo sem saber o que dizer.
A tristeza é esse espaço sem nome,
onde tudo fica embaçado, meio lento, meio longe.
Como se o tempo parasse,
mas não fosse descanso — só ausência.
E quando tento entender,
tudo escapa.
Fico ali, quieto,
como quem esqueceu de existir,
mas ainda respira.
O Valor do Agora
Esperamos o tempo certo.
O dia mais calmo.
A hora ideal.
Mas a vida não se organiza por nossas agendas.
Ela pulsa no agora.
Nos pequenos gestos, no olhar que acolhe, no silêncio que escuta.
O amanhã é um rascunho incerto.
O hoje… é tudo o que temos.
É no hoje que um abraço faz diferença.
Que uma palavra muda um caminho.
Que um gesto simples toca o que é essencial.
Não deixemos o que é precioso para depois.
Porque o que realmente importa…
Não espera.
Hoje é melhor que amanhã.
O Abraço
O abraço é uma pausa no tempo.
É quando dois mundos se encontram e, por um instante, descansam um no outro. Não exige explicação, não pede permissão, apenas acontece — como um porto seguro diante da tempestade.
Há abraços que curam mais do que palavras. Abraços que dizem “estou aqui” sem emitir som algum. Abraços que seguram firme, mesmo quando tudo parece desabar por dentro.
Existem abraços que guardamos na memória por anos, como quem guarda um cobertor em dias de frio. Porque há toques que não se esquecem, há gestos que marcam a alma.
Nem sempre o abraço vem com os braços. Às vezes, ele vem em forma de silêncio, de presença, de um olhar que compreende. Um gesto que diz: “Você importa”.
O abraço é um lugar. Um espaço de pausa, de reencontro, de amparo. É onde a dor encontra descanso e a alegria se amplia. É onde as palavras perdem a pressa e o coração ganha fôlego.
Que nunca nos faltem os abraços verdadeiros — aqueles que não precisam de ocasião, que não esperam permissão, que simplesmente nascem do cuidado.
Porque no fim das contas, todos nós só queremos isso: um pouco de calor, um pouco de paz, um pouco de abraço. D
As Cores da Emoção
Emoção é como o vento: não se vê, mas se sente.
Às vezes, ela chega de mansinho, feito brisa. Outras vezes, é tempestade. Vem sem aviso, sem manual. Pode morar em uma lágrima ou num riso inesperado. Pode aquecer como um abraço ou apertar como um nó no peito.
Há emoções que iluminam — como o amor, a esperança, a alegria. Outras escurecem — como o medo, a raiva ou a tristeza. Mas todas têm algo a dizer. Todas são sinais de que estamos vivos.
Sentir é parte do caminho. É como pintar a vida com todas as cores que existem: o amarelo do entusiasmo, o azul da calma, o vermelho da coragem, o cinza da dúvida. Nenhuma cor é errada. Nenhuma emoção é pequena.
O coração não precisa ser domado. Ele precisa ser escutado.
Porque entender o que se sente é o primeiro passo para cuidar de si — e também dos outros.
