Sobre amar e ser livre. A luz atravessa... Gabriel Parice Lopes

sobre amar e ser livre.

A luz atravessa a janela sem pedir passagem.

O cheiro da chuva permanece no ar mesmo depois que o céu se abre. Uma música termina, mas, por algum motivo, continua acontecendo dentro de mim.

Talvez ela pertença a essa mesma categoria.

Não porque seja distante, mas porque existe nela alguma coisa que não pode ser alcançada pela matéria.

Eu posso conhecer seus hábitos, saber o que ela gosta, reconhecer sua voz em meio a outras, decorar suas pequenas manias. Posso conhecer os caminhos que ela percorre, os silêncios que prefere, as palavras que costuma escolher.

E, ainda assim, existe uma parte dela que permanece intocável.

Uma espécie de território sem mapa.

É justamente essa parte que mais me interessa.

Não aquilo que ela oferece ao mundo, mas aquilo que existe quando ninguém está olhando. A pessoa que permanece depois que todas as expectativas desaparecem. O pensamento que ela não diz. A versão dela que não precisa ser compreendida para continuar sendo verdadeira.

Talvez seja ali que ela realmente more.

Não em uma casa, nem em uma foto, nem nas lembranças que consigo organizar.

Mas naquele lugar estranho onde ela se tornou uma influência silenciosa sobre mim.

Ela não precisa estar perto para existir em mim.

E isso não tem nada de tristeza.

É quase o contrário.

Existe uma beleza imensa em descobrir que ela pode atravessar minha vida sem precisar ocupar todos os meus espaços. Como uma constelação, distante, impossível de tocar, mas capaz de mudar a maneira como atravesso a noite.

Talvez eu goste dela justamente porque nunca consigo terminar de entendê-la.

Existe alguma coisa muito bonita em não possuir a explicação completa de alguém.

O mistério não está naquilo que ela esconde.

Está naquilo que, mesmo quando revela, continua profundo.

E talvez seja esse o tipo de amor que eu aprendi a reconhecer nela, aquele que não tenta transformá-la em propriedade, certeza ou destino.

Um amor que olha para ela e pensa

eu não preciso ter todas as respostas para reconhecer o que isso significa.

Porque o que sinto por ela não pede conclusão.

Pede que, por alguns instantes, eu pare de tentar definir o que sinto e simplesmente permaneça diante daquilo.

Como quem observa o oceano sabendo que jamais poderá carregá-lo.

Ainda assim, entra na água.

Ainda assim, fica.

Talvez porque eu tenha entendido que o valor de certas coisas nunca esteve na possibilidade de possuí-las.

O céu não é menos bonito porque não posso guardá-lo.

A lua não me pertence porque a contemplo todas as noites.

E ela também não precisa ser minha para ser profundamente minha em algum lugar que a linguagem não alcança.

Existe uma parte dela que não é minha.

Nunca foi.

E talvez seja exatamente por isso que eu a ame tanto.

Porque não posso tocá-la.

Não posso prendê-la.

Não posso pedir que permaneça exatamente onde a encontrei.

Só posso reconhecê-la quando aparece.

Na maneira como ela existe.

Naquilo que ela desperta.

Na pequena alteração que acontece dentro de mim quando o mundo, por alguma coincidência, me devolve alguma coisa que lembra ela.

Talvez amar seja aprender essa delicadeza:

saber que ela é livre, e ainda assim escolhê-la.

Saber que ela pode ir, e ainda assim não transformar o amor em uma prisão.

Saber que não tenho o direito de possuir seus caminhos, seus pensamentos, seus silêncios ou qualquer parte dela que queira permanecer somente dela.

E talvez exista uma liberdade ainda maior em amar assim.

Não porque eu queira amá-la de longe.

Mas porque quero que, quando ela estiver perto, seja porque escolheu estar.

Quero sua presença sem precisar da sua obrigação.

Seu carinho sem precisar da sua promessa.

Sua permanência sem precisar segurá-la pelos braços.

Quero que ela possa continuar sendo inteira, mesmo quando estiver comigo.

Porque, no fim, talvez amar alguém seja justamente isso:

não tentar diminuir o tamanho do mundo dela para caber dentro do meu.

É olhar para ela sabendo que existe um universo inteiro acontecendo por trás dos seus olhos e, em vez de querer possuir esse universo, sentir admiração por poder conhecê-lo.

Algumas coisas foram feitas para permanecer conosco sem jamais permanecerem ao nosso alcance.

E, ainda assim, eu escolho olhar.

Escolho sentir.

Escolho ficar alguns segundos a mais diante dela, diante de tudo aquilo que não posso segurar.

Porque, no fim, talvez o que realmente permanece nunca seja aquilo que consigo possuir.

Seja aquilo que, mesmo depois de partir de todos os lugares possíveis, continua existindo em mim.

E talvez amar e ser livre seja exatamente isso

eu não preciso prender ela para querer que fique.

Não preciso chamá-la de minha para saber o quanto ela significa para mim.

Não preciso ter posse sobre nada que exista nela para reconhecer que, entre tantas coisas que a vida poderia ter colocado diante dos meus olhos, foi ela quem conseguiu permanecer dentro deles.

E talvez seja essa a forma mais bonita que encontrei de amá-la:

deixando a porta aberta,

não porque eu queira que ela vá,

mas porque quero que ela saiba que, se ficar,

será livre para ficar.