O dom de me apaixonar por você outra... Gabriel Parice Lopes
o dom de me apaixonar por você outra vez.
O mais estranho é que eu nunca terminei de me apaixonar por você.
Eu apenas fui mudando o jeito.
No começo, bastava pouco.
Um olhar demorava um segundo a mais e alguma coisa dentro de mim já encontrava morada. Uma conversa se estendia pela noite e eu descobria que gostava da maneira como você ocupava o tempo. Gostava do seu jeito, da sua presença, das pequenas coisas que, naquele momento, pareciam pequenas demais para saber que um dia seriam enormes.
Depois veio outra versão sua.
E eu me apaixonei de novo.
Não pela lembrança do que você tinha sido, mas por aquilo que você estava se tornando diante dos meus olhos. Algumas coisas mudaram. Outras permaneceram exatamente onde estavam. E eu descobri que também sabia amar suas mudanças.
Me apaixonei pela mulher que você se tornou.
Pelas novas manias.
Pelas novas palavras.
Pelos novos silêncios.
Pelo jeito diferente de olhar para determinadas coisas.
Me apaixonei pelo que aprendi sobre você e, principalmente, pelo que ainda não sabia.
Depois me apaixonei outra vez.
E outra.
E outra.
É quase engraçado pensar que eu poderia conhecer alguém tão profundamente e, ainda assim, continuar encontrando lugares desconhecidos.
Como se você tivesse sido escrita em capítulos que o tempo insiste em reescrever.
Eu volto para a mesma pessoa e encontro outra paisagem.
O mesmo sorriso, mas com outra história por trás.
Os mesmos olhos, mas carregando coisas que antes não carregavam.
A mesma voz, dizendo coisas que eu nunca tinha escutado daquele jeito.
E eu me apaixono.
De novo.
Não porque esqueci o que senti antes.
Justamente porque lembro.
Lembro de cada versão de você que passou por mim e percebo que nenhuma delas precisou morrer para dar espaço à próxima.
Elas ficaram.
Ficaram em mim.
E talvez seja por isso que o meu amor nunca pareceu uma linha reta. Ele se parece mais com uma espiral volta ao mesmo ponto, mas nunca exatamente na mesma altura.
Eu volto para você e sinto coisas que não sentia antes.
Presto atenção em detalhes que antes passavam despercebidos.
Entendo gestos que um dia não compreendia.
Encontro beleza em coisas que antes sequer sabia observar.
E penso que me apaixonar por você novamente não significa repetir o que já vivi.
Significa viver de outro jeito aquilo que ainda continua sendo você.
Eu me apaixono pela sua força.
Depois pela sua delicadeza.
Pelo que você mostra.
Depois pelo que guarda.
Pela sua presença.
Depois pela falta dela.
Pelo que você foi comigo.
Pelo que é agora.
Pelo que ainda está aprendendo a ser.
E continuo descobrindo maneiras.
Essa é a parte que mais me impressiona.
Eu poderia passar anos tentando explicar o que sinto e, ainda assim, bastaria você mudar uma pequena coisa no jeito de existir para eu encontrar uma palavra nova.
Um sentimento novo.
Uma forma nova de ficar.
Meu amor por você não precisou ser recuperado porque nunca foi embora.
Ele só ficou quieto em alguns lugares.
Esperou outras fases.
Aprendeu outras formas de respirar.
E quando você apareceu de novo, ele não precisou ser chamado.
Reconheceu você.
Como se soubesse exatamente onde estava.
E foi assim que aconteceu mais uma vez.
Eu me apaixonei.
Sem precisar esquecer das vezes anteriores.
Sem precisar escolher qual versão sua amar.
Amei a que chegou.
Amei a que mudou.
Amei a que permaneceu.
Amei a que eu conheci por acaso em pequenos detalhes.
E sigo amando a que ainda estou descobrindo.
Porque o que sinto por você não parece ter sido feito para caber numa única experiência.
Ele se repete sem ser repetitivo.
Volta sem ser o mesmo.
Recomeça sem ter acabado.
E toda vez que penso que finalmente entendi como é amar você, alguma coisa acontece.
E talvez não, com certeza, eu esteja muito ocupado sendo seu para me apaixonar por outra pessoa*
Você sorri de um jeito diferente.
Diz alguma coisa que eu nunca tinha ouvido.
Me olha por alguns segundos a mais.
E pronto.
Lá estou eu outra vez.
Me apaixonando por você.
Pela mesma pessoa.
Pelo mesmo amor.
Por uma versão que eu ainda não conhecia.
Assim mesmo, redundante como sou, e mesmo sendo.
E, pela primeira vez, não quero descobrir onde isso termina.
Quero descobrir quantas vezes ainda vou conseguir me apaixonar por você antes de perceber que, no fundo, nunca parei.
