O velho navio de madeira trazia na... JMRM.
O velho navio de madeira trazia na carcaça de carvalho as cicatrizes de mil tempestades e o sal de oceanos esquecidos. As tábuas do casco, outrora rijas e orgulhosas, agora rangiam com o simples afago das marés. A madeira estava cansada. O leme, pesado. E a ideia de desfraldar as velas para enfrentar ondas altíssimas parecia um esforço distante demais para quem já dera tudo de si.
Decidiu, então, permanecer ancorado no porto.
Nas primeiras semanas, olhar o horizonte parecia um alívio. O cais era seguro, sem ventos uivantes ou mastros partidos. Contudo, ao longo dos dias, a água parada da baía começou a acumular lodo no seu casco. A quietude da acostagem, que antes parecia descanso, transformou-se em um peso constante, tornando a estrutura ainda mais rígida e lenta.
Foi num final de tarde que um velho capitão da marinha sentou-se na amurada do cais. Ele olhou para a embarcação com o respeito de quem reconhece um grande navegante e murmurou para o vento:
— Um navio parado no cais parece protegido das tempestades, mas não foi para a imobilidade que o carvalho foi cortado e moldado. O sal da água parada corrói mais rápido que o vento de alto-mar.
O velho navio escutou. Percebeu que não precisava mais cruzar o oceano Atlântico ou enfrentar furacões para cumprir o seu propósito. A sua jornada transformara-se: não era mais sobre velocidade ou grandes rotas, mas sobre o movimento suave de se manter flutuando, ajustando as amarras e deixando o Sol aquecer a sua madeira.
Aquela noite, o navio aceitou o peso do seu casco e as marcas do tempo. Não precisava zarpar para longe; bastava mover-se suavemente ao ritmo da maré, um dia de cada vez, honrando a sua própria história no conforto do seu porto.
até o carvalho mais forte precisa respeitar o tempo de descansar e apenas flutuar na maré. Auto desconhecido
