DOGMA E ESPIRITISMO: ENTRE A RAZÃO... Marcelo Caetano Monteiro

DOGMA E ESPIRITISMO: ENTRE A RAZÃO FILOSÓFICA E A FÉ RACIOCINADA.
PARTE II
Marcelo Caetano Monteiro.
A palavra dogma, ao longo dos séculos, percorreu diferentes caminhos semânticos, adquirindo significados distintos conforme a cultura, a filosofia e as instituições que dela fizeram uso. Compreender sua verdadeira acepção dentro do Espiritismo exige retornar às suas raízes históricas e confrontá-la com o método, a estrutura e os princípios estabelecidos por Allan Kardec, o codificador da Doutrina Espírita.
A pergunta fundamental é: qual definição de dogma melhor se harmoniza com o Espiritismo: a grega, a latina ou a cristã tradicional?
A resposta encontra-se no próprio espírito filosófico da doutrina: o conceito que mais se aproxima do pensamento espírita é o da origem grega - dógma (δόγμα), entendido como opinião fundamentada, princípio ou ideia estabelecida após análise racional.
O Espiritismo não aceita o dogma como imposição autoritária, mas reconhece princípios fundamentais que podem ser chamados de "dogmas de razão", isto é, fundamentos que sustentam uma visão filosófica, porém permanecem submetidos ao exame da inteligência, da observação e da lógica.

A ORIGEM GREGA:
O DOGMA COMO PRINCÍPIO FILOSÓFICO.
Na Grécia Antiga, entre filósofos como Platão e Aristóteles, o termo dógma não possuía inicialmente o sentido moderno de uma verdade obrigatória e intocável. Representava uma conclusão racional, uma opinião fundamentada ou um princípio aceito dentro de determinado sistema filosófico.
O pensamento grego valorizava o diálogo, a investigação e a busca pela verdade através da razão. O conhecimento não era simplesmente recebido; era debatido.
É justamente nesse ponto que encontramos maior afinidade com o Espiritismo.
Allan Kardec, ao estruturar a Doutrina Espírita, não estabeleceu uma religião baseada em decretos humanos, mas um corpo de princípios derivados da observação dos fenômenos espirituais, do raciocínio filosófico e da análise das comunicações mediúnicas.
Em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", Kardec apresenta um dos pilares fundamentais do pensamento espírita:
"Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade."
Essa afirmação demonstra que a fé espírita não teme a investigação; ao contrário, necessita dela.

A DEFINIÇÃO LATINA:
O DOGMA COMO DECRETO E AUTORIDADE.
Na evolução histórica da palavra, o termo latino dogma aproximou-se do significado de decreto, determinação ou regra estabelecida por uma autoridade.
Essa interpretação não corresponde à estrutura espírita.
O Espiritismo não possui sacerdócio, hierarquia religiosa, tribunal de fé ou autoridade humana capaz de impor crenças obrigatórias. Não existe no movimento espírita uma figura equivalente a um pontífice que determine aquilo que todos devem aceitar sem questionamento.
Kardec estabeleceu um método baseado na universalidade dos ensinos dos Espíritos, na concordância das manifestações e no uso da razão.
Portanto, o sentido latino de dogma, quando entendido como uma ordem imposta por autoridade externa, distancia-se da proposta espírita.

A DEFINIÇÃO CRISTÃ TRADICIONAL:
O DOGMA COMO VERDADE ABSOLUTA.
No campo teológico tradicional, especialmente dentro de determinadas correntes cristãs, dogma passou a significar uma verdade revelada por Deus e definida oficialmente pela autoridade religiosa, tornando-se obrigatória para a fé dos seguidores.
Grandes pensadores cristãos, como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, trabalharam a relação entre fé e razão, porém dentro de uma estrutura teológica na qual certos princípios eram considerados verdades definitivas da revelação.
O Espiritismo, embora reconheça a importância moral e espiritual dos ensinamentos de Jesus, diferencia-se por não adotar verdades impostas como artigos de fé.
Para Kardec, a revelação espiritual não elimina a responsabilidade humana de raciocinar.
A doutrina espírita apresenta Jesus como modelo moral da Humanidade, mas interpreta seus ensinamentos pela perspectiva da evolução espiritual, da justiça divina e da lei de progresso.

ALLAN KARDEC E O CONCEITO DE "DOGMAS DE RAZÃO"
A grande inovação de Kardec foi unir espiritualidade, filosofia e investigação racional.
Em "O Livro dos Espíritos", publicado em 1857, princípios como:
existência de Deus;
imortalidade da alma;
reencarnação;
comunicabilidade dos Espíritos;
evolução moral do ser humano;
formam a estrutura filosófica do Espiritismo.
Esses princípios podem ser considerados "dogmas de razão" porque funcionam como fundamentos do sistema, mas não são aceitos por imposição.
O Espírito humano é convidado a estudar, compreender e refletir.
O próprio Kardec afirmou em "A Gênese":
"O Espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado, porque se novas descobertas demonstrarem que ele está em erro sobre algum ponto, ele se modificará nesse ponto."
Essa posição revela uma característica essencial: a Doutrina Espírita não teme a verdade, porque acredita que toda verdade legítima está em harmonia com a razão.

HERCULANO PIRES E A VISÃO FILOSÓFICA DO ESPIRITISMO.
O filósofo espírita J. Herculano Pires, conhecido como "o metro que melhor mediu Kardec", aprofundou essa questão ao defender que o Espiritismo deve ser compreendido como uma doutrina dinâmica, filosófica e racional.
Para Herculano Pires, transformar o Espiritismo em um sistema fechado seria contrariar sua própria essência.
A Doutrina Espírita não surgiu para substituir o pensamento humano por uma nova autoridade religiosa, mas para estimular a consciência a buscar a verdade através do estudo e da reflexão.

O ESPIRITISMO É DOGMÁTICO OU ANTIDOGMÁTICO?
A resposta depende do significado atribuído à palavra.
Se dogma significa imposição de uma verdade absoluta, sem exame e sem possibilidade de questionamento, o Espiritismo é claramente antidogmático.
Porém, se dogma significa princípio fundamental de um sistema filosófico, então o Espiritismo possui seus fundamentos, denominados por alguns estudiosos como dogmas de razão.
A diferença está na natureza desses princípios:
O dogma tradicional exige submissão.
O princípio espírita convida à compreensão.
O dogma religioso fechado encerra a investigação.
O pensamento espírita mantém aberta a busca pela verdade.

CONCLUSÃO:
A PALAVRA DOGMA SOB A LUZ ESPÍRITA.
Entre as três definições analisadas, a origem grega é a que melhor corresponde ao Espiritismo, pois preserva a ideia de princípio racional e filosófico.
O Espiritismo não se apresenta como uma doutrina de crenças cegas, mas como uma proposta de investigação espiritual fundamentada na razão, na moral de Jesus e na lei de progresso.
Seus princípios não são correntes que aprisionam a consciência; são caminhos que estimulam o pensamento.
Como ensinou Kardec, a verdadeira fé não teme a luz da razão, porque aquilo que é verdadeiramente divino jamais será destruído pelo conhecimento.

AFORISMO FILOSÓFICO.
( "Todo dogma que impede o pensamento transforma-se em prisão; porém, todo princípio que desperta a razão torna-se uma janela aberta para a verdade." )
M.C.M.

FONTES:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Paris, 1857.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Paris, 1864.
KARDEC, Allan. A Gênese — Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. Paris, 1868.
PIRES, J. Herculano. O Espírito e o Tempo. São Paulo, 1964.
PIRES, J. Herculano. Kardec: O Homem, a Época, o Meio, as Influências e a Missão.
AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus.
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica.
Platão. Diálogos Filosóficos.
Aristóteles. Metafísica.