O Diplomata Sádico vs o Poeta... Felipe ARodrigues

O Diplomata Sádico vs o Poeta Apaixonado


O diplomata acende outro cigarro
como quem assina um tratado de guerra.
Aprendeu cedo que sentir demais
é perder território.
Ele entra nos bares
com o mesmo olhar de quem atravessa fronteiras:
frio, educado, perigoso.
Carrega no bolso moedas estrangeiras,
nomes falsos,
e telefones que nunca retorna.
Ama como os governos amam:
por interesse,
por estabilidade,
até surgir algo mais conveniente.
Já o poeta…
o poeta é um idiota continental.
Escreve cartas que ninguém responde,
guarda cheiro em camiseta velha,
e transforma despedida
em patrimônio histórico.
Enquanto um negocia silêncios,
o outro sangra metáforas.
O diplomata conhece hotéis,
o poeta conhece esperas.
Um atravessa países sem pertencer a lugar nenhum.
O outro pertence até demais.
E quando os dois se encontram
no mesmo corpo,
a tragédia começa.
Porque o diplomata manda apagar mensagens,
mas o poeta decora horários.
O diplomata diz:
“não demonstre fraqueza.”
O poeta responde:
“eu só queria ouvir a voz dela mais uma vez.”
Então o diplomata bebe.
O poeta escreve.
E os dois perdem juntos.
De madrugada,
na fumaça torta de um apartamento cansado,
o diplomata observa a cidade como alvo.
O poeta observa como saudade.
Um quer conquistar o mundo.
O outro queria só ter sido amado direito.