OS PRECURSORES DA TERCEIRA REVELAÇÃO:... Marcelo Caetano Monteiro
OS PRECURSORES DA TERCEIRA REVELAÇÃO: PARTE III
DA SABEDORIA DE SÓCRATES À CODIFICAÇÃO DE ALLAN KARDEC — A LONGA PREPARAÇÃO ESPIRITUAL DA HUMANIDADE.
_EMMANUEL SWEDENBORG — O CIENTISTA QUE ANTECEDEU A ERA DOS FENÔMENOS ESPIRITUAIS.
(1688–1772)
Marcelo Caetano Monteiro.
Entre os grandes personagens que antecederam o advento do Espiritismo organizado por Allan Kardec, destaca-se Emmanuel Swedenborg, figura singular da história intelectual e espiritual da humanidade.
Nascido em Estocolmo, na Suécia, em 1688, Swedenborg reuniu em sua personalidade características extraordinárias: cientista, engenheiro, filósofo, inventor, estudioso da natureza e profundo conhecedor das Escrituras.
Sua trajetória inicial pertence inteiramente ao campo científico.
Dotado de inteligência excepcional, dominava diversos ramos do conhecimento humano de sua época. Estudou matemática, física, anatomia, astronomia, mineralogia, engenharia e filosofia.
Era poliglota, conhecendo aproximadamente nove idiomas. Atuou como assessor do rei da Suécia e recebeu título de nobreza em reconhecimento aos seus méritos.
Seu nome tornou-se respeitado nos círculos científicos europeus, sendo considerado um dos homens mais cultos de seu tempo.
O seu retrato encontra-se associado à Academia Real de Ciências da Suécia, como reconhecimento de sua importância intelectual.
Entretanto, na maturidade, sua vida tomou uma direção completamente diferente.
O cientista dedicado ao estudo do mundo material voltou sua atenção para a investigação do mundo espiritual.
Esse momento representa um dos episódios mais importantes da preparação histórica do movimento espiritualista moderno.
A EXPERIÊNCIA DE 1744. O DESPERTAR PARA O MUNDO INVISÍVEL.
Aos 56 anos, em 1744, durante sua permanência em Londres, Swedenborg relatou uma experiência que modificaria profundamente sua existência.
Segundo seus próprios relatos, teve uma manifestação espiritual na qual recebeu a missão de revelar o sentido interno ou espiritual das Escrituras.
A partir desse acontecimento, abandonou gradativamente suas pesquisas científicas tradicionais e dedicou-se ao estudo das realidades espirituais.
Em seus escritos afirmou ter recebido uma percepção ampliada da vida espiritual, descrevendo ambientes, comunidades de Espíritos, estados morais após a morte e relações entre o mundo físico e o mundo invisível.
Em uma de suas declarações, registradas por Arthur Conan Doyle em História do Espiritismo, Swedenborg afirmou:
“Na mesma noite - diz ele:
O mundo dos espíritos, do céu e do inferno, abriu-se convincentemente para mim.”
Sob o prisma espírita, Swedenborg teria sido um dos grandes médiuns que antecederam a codificação kardeciana, trazendo descrições que posteriormente encontrariam correspondência em alguns ensinamentos transmitidos pelos Espíritos através da mediunidade estudada por Allan Kardec.
A MEDIUNIDADE POLIMORFA DE SWEDENBORG.
Os relatos sobre Swedenborg apresentam diversos fenômenos mediúnicos.
Ele descrevia experiências de:
vidência espiritual;
audição de vozes;
percepção de ambientes espirituais;
estados de êxtase;
manifestações físicas.
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu quando Swedenborg, encontrando-se distante de Estocolmo, teria percebido espiritualmente um grande incêndio que acontecia naquela cidade.
O relato causou espanto porque ele descreveu acontecimentos que, posteriormente, foram confirmados por pessoas presentes no local.
Outro aspecto interessante encontra-se em sua descrição de uma espécie de “vapor” ou emanação que teria saído de seu corpo durante uma experiência espiritual.
Na linguagem espírita contemporânea, alguns estudiosos relacionam esse relato ao fenômeno conhecido como ectoplasma, substância estudada posteriormente nos fenômenos de efeitos físicos.
Entretanto, Swedenborg não direcionou seus estudos para uma investigação sistemática desses fenômenos.
Seu interesse concentrou-se principalmente nas interpretações espirituais e religiosas que extraiu dessas experiências.
AS CONTRIBUIÇÕES DE SWEDENBORG PARA O PENSAMENTO ESPIRITUALISTA.
Apesar das limitações apontadas posteriormente pelo Espiritismo, Swedenborg apresentou ideias consideradas precursoras:
A VIDA ESPIRITUAL COMO CONTINUIDADE DA EXISTÊNCIA TERRENA.
Ele descreveu o mundo espiritual não como uma região abstrata e distante, mas como uma realidade organizada, onde os Espíritos continuariam vivendo após a morte.
Essa ideia aproxima-se das descrições apresentadas posteriormente em obras espíritas como O Livro dos Espíritos e, no século XX, através das narrativas atribuídas a André Luiz em obras como Nosso Lar.
OS ESPÍRITOS COMO SERES HUMANOS DESENCARNADOS.
Swedenborg rejeitou a ideia tradicional de anjos e demônios como seres criados separadamente da humanidade.
Para ele, seriam Espíritos humanos em diferentes estados evolutivos.
Essa concepção aproxima-se da resposta dada pelos Espíritos Superiores na questão 115 de O Livro dos Espíritos, onde Allan Kardec apresenta o princípio de que os Espíritos passam por diferentes graus de evolução.
A EXISTÊNCIA DE DIFERENTES ESTADOS ESPIRITUAIS.
Swedenborg descreveu regiões espirituais associadas às condições morais dos indivíduos.
Não apresentou o inferno como condenação eterna, mas como situação transitória de sofrimento e aprendizado.
Esse ponto apresenta grande afinidade com o pensamento espírita, que compreende a justiça divina como educativa e não simplesmente punitiva.
OS LIMITES DA OBRA DE SWEDENBORG SEGUNDO A VISÃO ESPÍRITA.
A Doutrina Espírita reconhece a importância dos precursores, mas também estabelece um critério fundamental: toda revelação espiritual deve passar pelo exame da razão, da lógica e da universalidade dos ensinos.
Allan Kardec destacou constantemente que o Espiritismo não aceita revelações pessoais isoladas como verdade absoluta.
O próprio Swedenborg, segundo a comunicação publicada na Revista Espírita de novembro de 1859, reconheceu posteriormente alguns equívocos de suas interpretações.
Na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 23 de setembro de 1859, foi publicada uma comunicação atribuída ao Espírito Swedenborg.
Nela, ao responder às perguntas de Allan Kardec, afirma: “A minha moral espírita e a minha doutrina não estão isentas de grandes erros, que hoje reconheço.”
E acrescenta: “Vós, sim, estais no melhor caminho, porque estais mais esclarecidos do que estávamos em meu tempo.”
Essa comunicação apresenta um ponto importante da metodologia espírita: mesmo médiuns dotados de grandes faculdades podem interpretar parcialmente aquilo que percebem.
A faculdade mediúnica não significa infalibilidade.
O médium permanece um ser humano, sujeito às próprias limitações intelectuais, culturais e morais.
SWEDENBORG E O PROBLEMA DA INTERPRETAÇÃO PESSOAL.
Segundo José Herculano Pires, em O Espírito e o Tempo, Swedenborg teria cometido o equívoco de aceitar suas percepções espirituais sem submetê-las suficientemente ao exame crítico.
Sua inteligência extraordinária, paradoxalmente, teria contribuído para construir interpretações próprias demasiadamente complexas.
Ele desenvolveu uma teologia particular, criando a chamada Nova Igreja, baseada em suas interpretações das Escrituras.
Para Herculano Pires, a diferença fundamental entre Swedenborg e Kardec está justamente no método.
Swedenborg recebeu experiências espirituais e elaborou interpretações pessoais.
Kardec analisou fenômenos, comparou comunicações, submeteu informações ao controle universal dos ensinos dos Espíritos e organizou uma doutrina baseada na razão.
Essa diferença marca a passagem do espiritualismo intuitivo para o Espiritismo científico-filosófico.
KARDEC E SWEDENBORG - A DIFERENÇA ENTRE A VISÃO INDIVIDUAL E O MÉTODO UNIVERSAL.
Allan Kardec reconhecia o valor dos pesquisadores anteriores, mas compreendia que a revelação espírita não poderia depender de uma única personalidade.
Em Obras Póstumas, Kardec descreve sua atitude diante dos fenômenos das mesas girantes: “Foi preciso agir com circunspeção, não levianamente. Ser positivo, não idealista, para não me deixar levar por ilusões.”
Essa postura define a essência do trabalho kardeciano.
Ele não rejeitou os fenômenos espirituais anteriores, mas procurou estabelecer critérios seguros para sua compreensão.
A mediunidade deveria ser estudada com seriedade.
A comunicação espiritual deveria ser analisada.
A razão deveria acompanhar a fé.
Por isso, dentro da perspectiva espírita, Swedenborg representa um precursor importante: aquele que abriu uma janela para o mundo espiritual, embora ainda carregasse limitações próprias de seu período histórico.
A IMPORTÂNCIA HISTÓRICA DE SWEDENBORG.
O grande mérito de Swedenborg não está na totalidade de suas interpretações, mas no fato de ter demonstrado, séculos antes de Kardec, que o mundo espiritual poderia ser objeto de investigação e reflexão.
Ele preparou o caminho para que a humanidade considerasse novamente uma antiga questão:
A vida continua após a morte?
Sua obra contribuiu para romper o materialismo absoluto de sua época e abriu espaço para novas pesquisas sobre os fenômenos espirituais.
Como afirmou Arthur Conan Doyle em História do Espiritismo, Swedenborg foi um dos grandes precursores daquilo que posteriormente se consolidaria como movimento espiritualista moderno.
CONTINUA NA PARTE 4 — ANDREW JACKSON DAVIS: O “PROFETA DA NOVA ERA”; SUAS FACULDADES MEDIÚNICAS, SUAS PREVISÕES E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A PREPARAÇÃO DO ADVENTO ESPÍRITA.
