Depois de passar cerca de três meses... IvoMattos
Depois de passar cerca de três meses parado, gastando muito e sem ganhar nada, surgiu uma oportunidade de voltar a trabalhar na área energética.
Tudo começou numa conversa com um amigo que trabalhava em uma empresa de equipamentos de segurança. Como seus clientes eram empresas do setor elétrico, ele comentou sobre uma fábrica em São Bernardo do Campo que produzia escadas para concessionárias de energia e tinha a intenção de entrar no mercado de linha viva, justamente a minha especialidade.
Ainda decepcionado com a experiência da empresa anterior, ouvi a proposta com certa desconfiança. Porém, como precisava urgentemente voltar ao mercado de trabalho, resolvi conhecer a empresa e conversar com seu proprietário.
O dono era o Sr. João, um homem de aproximadamente sessenta anos, cheio de ideias e entusiasmo, embora com poucos recursos financeiros para investir. Os equipamentos utilizados na fabricação de ferramentas para linha viva eram caríssimos e, pior, não eram produzidos no Brasil.
Passamos algumas horas conversando. Ele me mostrou a fábrica de escadas para o setor energético e, ao lado dela, um enorme galpão onde eram fabricadas escadas domésticas, bancos-escada e tábuas de passar roupa, produtos destinados ao mercado residencial.
Como eu já estava há algum tempo sem trabalhar, acertamos uma experiência voltada aos setores elétrico e telefônico. O salário era bem inferior ao que eu recebia na empresa anterior, mas minha situação não permitia muitas exigências.
Comecei realizando um trabalho de divulgação das escadas junto às companhias elétricas. Como eu já conhecia muitos clientes daquele segmento, o desenvolvimento do trabalho foi relativamente fácil. Em seguida, passei a atuar também no setor telefônico.
Atendendo a solicitações das concessionárias de energia, desenvolvemos algumas escadas especiais montadas sobre veículos. Com esses equipamentos voltei a viajar, embora em uma frequência muito menor do que nos tempos anteriores.
Com o passar do tempo, após a saída do gerente da área doméstica, acabei assumindo a parte comercial das duas fábricas.
Foi nessa época que vivi um episódio que jamais esqueci.
Certo dia, eu conversava em minha sala com minha esposa sobre a situação da minha sogra. Ela estava muito doente e internada em um hospital de Osasco. Seu estado de saúde se agravava a cada dia, e o atendimento que recebia nos preocupava muito.
O Sr. João entrou na sala e ouviu parte da conversa. Ao entender o que estava acontecendo, pegou o telefone e ligou para um amigo que era diretor do Hospital de São Caetano.
— Qual é o nome da sua sogra? Em qual hospital ela está internada?
Passei as informações.
Ele falou com o amigo, explicou a situação e, ao desligar, disse apenas:
— Vamos tirar ela de lá.
E foi exatamente o que aconteceu.
Minha sogra foi transferida para o Hospital de São Caetano, onde permaneceu internada por cerca de trinta dias. Recebeu um atendimento excelente e saiu de lá recuperada.
Naturalmente, minha preocupação seguinte foi com os custos.
— E a conta, Sr. João? Como vamos pagar?
Ele respondeu com a maior tranquilidade:
— Não se preocupe. Quando ela chegar, a gente dá um jeito.
Algum tempo depois a conta chegou. Eu nunca soube o valor. O Sr. João não deixou que eu a visse.
Mais tarde fiquei sabendo que ele ligou para o diretor do hospital e fez um acordo. Em seguida, carregou um caminhão com uma grande quantidade de tábuas de passar roupa, bancos-escada, escadas metálicas e escadas de alumínio, enviando tudo para o bazar beneficente do hospital.
O assunto morreu ali. Ele nunca mais comentou sobre isso.
Os anos seguiram seu curso. Continuávamos trabalhando e, de vez em quando, viajávamos juntos para visitar clientes, principalmente no Rio Grande do Sul, estado pelo qual ele tinha uma admiração especial. Adorava ir a Caxias do Sul.
Até que um dia a telefonista transferiu uma ligação para minha sala.
Do outro lado da linha estava o diretor de uma empreiteira que prestava serviços para a CESP — Centrais Elétricas de São Paulo. Chamava-se Dr. Rubens.
Ele disse que precisava tratar de um assunto confidencial e perguntou se eu poderia encontrá-lo no dia seguinte.
Conversei com o Sr. João e expliquei que uma empresa havia me procurado, mas que eu não fazia ideia do motivo.
Na manhã seguinte fui ao endereço combinado.
Ao chegar à portaria da empreiteira, me identifiquei e pedi para falar com o Dr. Rubens.
O porteiro respondeu:
— Aqui não tem nenhum Dr. Rubens.
Estranhei.
— Claro que tem. Ele marcou uma reunião comigo.
Nesse momento o telefone interno tocou. Após atender, o porteiro mudou imediatamente de atitude.
— Desculpe, eu me enganei. Ele vai recebê-lo.
A conversa foi cordial, mas algo me chamou a atenção. De cada dez palavras que o Dr. Rubens dizia, oito eram sobre a Munck.
A Munck era, naquela época, a maior fabricante de guindastes da América do Sul. Tinha sua principal fábrica em São Paulo, filiais no México e na Argentina, distribuidores espalhados por toda a América do Sul e uma operação em Londres que atendia o Oriente Médio.
Era uma gigante do setor.
Ao final da reunião ficou evidente para mim que alguém queria me contratar, mas não era aquela empreiteira.
Apesar da insistência, deixei claro que não tinha interesse imediato na proposta. Mesmo assim, prometi pensar e dar uma resposta no dia seguinte.
Saí dali e segui para o trabalho.
Durante o caminho, uma conclusão se formou naturalmente na minha cabeça: quem realmente estava tentando me contratar era a Munck.
Assim que cheguei à empresa, peguei o telefone e liguei diretamente para a fábrica da Munck.
— Gostaria de falar com o Dr. Rubens.
A telefonista perguntou quem estava ligando. Eu me identifiquei.
Poucos segundos depois ele atendeu.
Não fez apresentações nem rodeios.
Perguntou apenas:
— Quando você pode vir conversar aqui na Munck?
Foi naquele momento que percebi que minha vida estava prestes a mudar mais uma vez.
E mudou.
