Quem Aprende a Minha Música Já dancei... Mannu Viana Rios

Quem Aprende a Minha Música

Já dancei outras canções,
já troquei passos pelo caminho,
já ouvi ritmos diferentes
e aprendi a dançar sozinho.

Já deixei algumas melodias,
já recomecei sem direção,
mas há certas notas antigas
que ainda ecoam no coração.

E talvez seja esse o perigo:
quando o coração quer acreditar,
ele inventa novos sentidos
onde os olhos deveriam enxergar.

Por isso, talvez a dança mais difícil
seja manter os pés sobre o chão,
sem fechar as portas da alma,
sem transformar cautela em prisão.

Quero sentir sem me perder,
quero sonhar sem me enganar;
quero manter o coração aberto,
mas nunca deixar de enxergar.

Não procuro quem já saiba dançar,
nem quem conheça todos os meus passos.
Procuro quem tenha paciência
para descobrir comigo os compassos.

Porque não é sobre chegar pronto,
nem sobre saber qual nota tocar;
é sobre ter sensibilidade
para aprender onde meu coração faz morada.

Há notas que ninguém percebe,
silêncios difíceis de interpretar,
pequenos detalhes escondidos
que só quem realmente escuta
consegue encontrar.

Talvez seja difícil essa companhia,
alguém que consiga acompanhar,
mas talvez seja preciso enxergar além
da música que se pode escutar.

Porque há melodias que não pertencem aos ouvidos,
há ritmos que só a alma consegue ouvir;
e existem pessoas que não precisam
conhecer a canção inteira
para saber quando permanecer.

Já dancei.
Já aprendi novos passos.
Já ouvi novos ritmos pelo caminho.
Talvez só falte uma companhia
que não tenha medo
de aprender o meu ritmo.

Alguém que não tente conduzir sozinho,
nem queira me fazer mudar;
mas que saiba alternar os passos
e, quando a música mudar,
ainda escolha continuar.

Talvez a companhia certa
não seja aquela que sabe a coreografia,
mas aquela que, mesmo sem conhecer a música,
olha nos meus olhos
e diz, sem dizer:

“Eu aprendo.”

E então, quem sabe,
a música deixe de ser procura,
o passo deixe de ser dúvida,
e duas pessoas descubram,
no meio da dança,
que algumas melodias
não precisam ser encontradas.

Precisam apenas ser vividas.