AS HORAS QUE SE RECUSAM A MORRER Não... enitnatsnoc oãoj
AS HORAS QUE SE RECUSAM A MORRER
Não durmo.
Não porque exista alguma coisa
que valha a pena vigiar,
mas porque até o sono
parece ter desistido de mim.
A madrugada é um animal velho
deitado sobre o peito.
Respira devagar.
E eu escuto.
03:12.
O relógio continua funcionando
com a obscena fidelidade
das coisas que não possuem alma.
Nós somos assim:
inventamos máquinas para medir o tempo
e depois descobrimos, tarde demais,
que era o tempo
que estava nos medindo.
03:47.
Penso na infância.
É estranho chamar aquilo de infância.
Havia paredes,
havia nomes,
havia pessoas que deveriam ter ficado.
Mas algumas ausências
nascem antes das pessoas morrerem.
Talvez essa seja
a primeira forma de abandono:
descobrir que alguém pode estar vivo
e ainda assim
já não existir para você.
04:06.
Acendo um cigarro.
A brasa ilumina meu rosto
por alguns segundos.
É quase uma oração.
Depois vira cinza.
Como tudo.
O amor também foi assim.
Primeiro, uma pequena chama
que prometia aquecer a casa.
Depois, fumaça.
Depois, cheiro.
Depois, nada.
Tenho uma coleção inteira
de coisas que acabaram
sem nunca terem começado direito.
Amores.
Amizades.
Promessas.
Versões de mim mesmo
que morreram sem funeral.
04:33.
A cidade permanece silenciosa.
Milhares de pessoas dormem
sem saber que existir
é apenas uma maneira elegante
de adiar a própria decomposição.
Talvez o sono seja misericórdia.
Talvez seja apenas
a morte ensaiando.
Eu nunca soube diferenciar.
04:51.
Há algo profundamente humilhante
em continuar.
Você acorda.
Come.
Trabalha.
Ama.
Perde.
Finge.
Repete.
E chama isso de vida
porque a palavra "prisão"
parece pessimista demais
para caber numa conversa civilizada.
05:17.
O céu começa a clarear.
Que ironia.
Até a luz parece cansada.
Ela atravessa as janelas
como um funcionário público
cumprindo uma obrigação antiga.
Nenhum milagre.
Nenhuma redenção.
Apenas mais uma manhã
chegando para cobrar
o preço de ontem.
Olho para minhas mãos.
Ainda estão aqui.
Essa é a única vitória
que consigo reconhecer.
Não sou feliz.
Não estou curado.
Não encontrei Deus,
nem sentido,
nem uma razão suficientemente bonita
para justificar tudo aquilo
que precisei perder.
Mas ainda estou aqui.
Talvez seja isso
o que mais incomoda o vazio.
Ele passou anos tentando me convencer
de que eu não significava nada.
E eu, miserável,
continuei respirando.
Não por esperança.
Esperança é uma palavra
que os desesperados inventaram
para tornar o sofrimento suportável.
Eu continuo
por uma razão muito mais simples:
ainda não terminei
de transformar minhas ruínas
em alguma coisa que se pareça comigo.
06:02.
O mundo acorda.
Eu permaneço sentado
entre a noite e o dia,
com os olhos vermelhos,
o coração em ferrugem
e a alma cheia
de quartos abandonados.
Não dormi.
Mas sobrevivi à madrugada.
E talvez seja isso
que ninguém nos conta:
às vezes, viver
não é encontrar uma razão para continuar.
É simplesmente olhar para o abismo
até que ele perceba
que você também
aprendeu a encará-lo.
