Passei anos acreditando que viver era... enitnatsnoc oãoj
Passei anos acreditando que viver era apenas uma forma lenta de a matéria aprender a apodrecer. O amor sempre caminhou alguns passos à minha frente, como um desconhecido educado que nunca teve a intenção de bater à minha porta. Dentro desta carcaça enferrujada, o que chamam de alma tornou-se apenas um depósito de ferrugem, nicotina e memórias que recusaram o privilégio do esquecimento.
Há manhãs em que até o sol parece um erro antigo insistindo em repetir-se. Acordar costuma ser apenas mais uma derrota silenciosa contra a noite. Nada me convence de que exista qualquer sentido em permanecer respirando quando o próprio tempo se alimenta daquilo que ama destruir.
No entanto, hoje aconteceu uma pequena traição contra o absurdo.
Antes que o mundo me recordasse o peso da existência, pensei em você.
Foi um pensamento breve, quase tímido, mas suficiente para desorganizar o meu desespero. Não porque tenha devolvido esperança — essa palavra sempre me pareceu um luxo inventado para quem nunca contemplou o vazio por tempo suficiente —, mas porque, durante um único instante, a vida deixou de ser apenas uma sentença e transformou-se numa pergunta.
Talvez seja esse o seu maior encanto: não salvar ninguém. Apenas fazer com que um homem que já se considerava uma ruína hesite, por alguns segundos, antes de continuar chamando a morte de única certeza.
