Envergonha-me não ter sido capaz de ver... Fialho10

Envergonha-me não ter sido capaz de ver a maldade travestida de bondade.
O uivo do lobo embutido no balido do cordeiro, o homem mesquinho escondido por trás da voz rouca e do sorriso aberto.

Mas hoje compreendo que meu maior erro não foi confiar em quem não merecia. Meu maior erro foi desconfiar de mim mesma. Silenciei minha intuição para preservar pessoas que jamais se preocuparam em preservar meu coração. Chamei de paciência aquilo que era abandono. Chamei de esperança aquilo que já era despedida. Permaneci onde a verdade já havia partido havia muito tempo.

Durante muito tempo carreguei pesos que nunca me pertenceram. Pedi desculpas por feridas que não causei. Procurei justificativas para atitudes que jamais tiveram justificativa. Tentei enxergar luz em quem fazia da escuridão um modo de viver.

Hoje devolvo a cada um aquilo que lhe pertence. Não levo comigo a mentira de ninguém, a ingratidão de ninguém, a covardia de ninguém. Não carrego mais o fardo das máscaras que um dia me convenceram de que eram rostos.

Esta carta não nasce do ódio. Nasce da lucidez.

Despeço-me da mulher que aceitava migalhas acreditando estar diante de um banquete. Da mulher que confundia sacrifício com amor, silêncio com paz, insistência com fé. Ela cumpriu sua missão, suportou o que pôde e me trouxe até aqui. Agora merece descansar.

Hoje ressuscito.

Ressuscito para a mulher que escolhe a própria paz antes de implorar pela presença de alguém. Para a mulher que compreendeu que o amor-próprio floresce quando deixamos de regar jardins onde só existiam espinhos.

Serei como a aurora: não peço licença para nascer. Depois da noite mais longa, a luz simplesmente acontece.

Serei como as flores que, mesmo depois do inverno, encontram coragem para abrir suas pétalas outra vez. Não perguntam quem as feriu. Apenas obedecem à vida.

Serei como o pôr do sol: encerra um ciclo sem tristeza, porque sabe que todo fim guarda a promessa de um novo amanhecer.

Não renasço porque o mundo mudou. Renasço porque eu mudei.

E, pela primeira vez em muito tempo, deixo de procurar quem nunca soube me encontrar. Agora caminho ao encontro de mim mesma.

Se algum dia sentirem falta da mulher que tudo perdoava, tudo compreendia e tudo suportava, lamento informar: ela ficou para trás.

Em seu lugar nasceu alguém que conhece o próprio valor, honra a própria história e jamais voltará a diminuir sua luz para caber na sombra de quem nunca aprendeu a brilhar.

Esta não é uma carta de adeus a alguém.

É a carta do meu reencontro com a vida.

E quem renasce depois de atravessar o próprio deserto já não teme lobos disfarçados de cordeiros; reconhece sua voz antes mesmo do primeiro uivo. Porque, quando uma mulher aprende a amar a si mesma, nenhuma máscara é capaz de enganar seus olhos outra vez.