Ora... será possível erguer-se... M.S. Fieri

Ora...
será possível erguer-se novamente diante da queda dos anjos?
Será possível assistir, mais uma vez, ao mundo repetir o mesmo ciclo de ruínas, como se o tempo jamais tivesse aprendido com as próprias cicatrizes?
Já não sei se fui fadado à cegueira, por não enxergar o que ainda insiste em florescer,
ou se me tornei surdo aos ecos do meu próprio coração.
Talvez nem mesmo o tato reconheça aquilo que a vida ainda espera de mim.
Permaneço sentado, recolhendo os últimos fôlegos antes que a noite reivindique meu nome.
E nem mesmo as nuvens, que guardam as estrelas até a hora exata de revelá-las, conseguem esconder o desinteresse que tomou conta de tudo aquilo que sou.
Há tempos já não sinto o gosto das coisas.
Como se o ódio, paciente como a ferrugem, houvesse atravessado meus ossos e aprendido a chamar meu corpo de casa.
Poderão culpar a bebida.
Mas ela nunca foi meu vício.
Poderão culpar a dama que um dia encantou meus olhos.
Mas não foi ela quem transformou minha alma nesta terra seca, onde nem o vento encontra coragem para semear.
Por isso, Pai...
quando chegar a minha hora,
não me conceda monumentos.
Coloque-me apenas a sete palmos do chão.
Que a minha angústia alimente as raízes de um velho carvalho.
Que crianças encontrem sombra onde um homem já não encontrou paz.
E, se nem isso me for permitido,
então toma o Teu vento
e espalha a poeira que restou deste soldado,
não para que o mundo se lembre do meu nome,
mas para que, ao menos uma vez,
a guerra abandone o meu coração.


- M.S. Fieri