Coleção pessoal de matheus_fieri

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Não temo a agulha.
Temo o silêncio que ela não consegue romper.
Enquanto o aço atravessa minha pele, procuro, em segredo, a esperança de que alguma dor seja finalmente maior do que aquela que habita em mim.
Mas a ardência é breve.
A carne se abre.
O sangue responde.
E, ainda assim, há um lugar onde nenhuma ponta alcança.
É estranho.
O corpo insiste em sangrar como se ainda estivesse vivo,
enquanto a alma, exausta de tantas guerras, já não distingue o que é ferida e o que é memória.
Tatuei lembranças na esperança de sepultá-las sob a tinta.
Mas descobri que a pele não guarda o passado.
Ela apenas lhe oferece um novo nome.
Talvez seja esse o castigo de quem sobreviveu demais:
não sentir a dor quando o corpo é atravessado,
e perceber que o verdadeiro abismo nunca esteve na carne.
Sempre esteve naquilo que nenhuma agulha foi capaz de perfurar.


-M.S. Fieri

Ora...
será possível erguer-se novamente diante da queda dos anjos?
Será possível assistir, mais uma vez, ao mundo repetir o mesmo ciclo de ruínas, como se o tempo jamais tivesse aprendido com as próprias cicatrizes?
Já não sei se fui fadado à cegueira, por não enxergar o que ainda insiste em florescer,
ou se me tornei surdo aos ecos do meu próprio coração.
Talvez nem mesmo o tato reconheça aquilo que a vida ainda espera de mim.
Permaneço sentado, recolhendo os últimos fôlegos antes que a noite reivindique meu nome.
E nem mesmo as nuvens, que guardam as estrelas até a hora exata de revelá-las, conseguem esconder o desinteresse que tomou conta de tudo aquilo que sou.
Há tempos já não sinto o gosto das coisas.
Como se o ódio, paciente como a ferrugem, houvesse atravessado meus ossos e aprendido a chamar meu corpo de casa.
Poderão culpar a bebida.
Mas ela nunca foi meu vício.
Poderão culpar a dama que um dia encantou meus olhos.
Mas não foi ela quem transformou minha alma nesta terra seca, onde nem o vento encontra coragem para semear.
Por isso, Pai...
quando chegar a minha hora,
não me conceda monumentos.
Coloque-me apenas a sete palmos do chão.
Que a minha angústia alimente as raízes de um velho carvalho.
Que crianças encontrem sombra onde um homem já não encontrou paz.
E, se nem isso me for permitido,
então toma o Teu vento
e espalha a poeira que restou deste soldado,
não para que o mundo se lembre do meu nome,
mas para que, ao menos uma vez,
a guerra abandone o meu coração.


- M.S. Fieri

"Aquilo que Insiste em Florescer"


Sempre achei curioso o quanto as pessoas têm pressa em decidir o que é belo.
Há quem passe por um terreno baldio e veja apenas abandono.
Capim alto.
Terra seca.
Ervas daninhas.
Eu gosto de imaginar que o terreno nunca soube que era baldio.
Ele apenas continuou aceitando a chuva, o sol, o vento e tudo aquilo que insistia em nascer.
Entre o verde desordenado, às vezes aparece um dente-de-leão.
Quase ninguém para.
Alguns o arrancam.
Outros sequer levantam os olhos.
Talvez porque tenham aprendido que certas flores não merecem um nome bonito.
Mas ele continua ali.
Amarelo o bastante para conversar com o sol.
Pequeno o bastante para ser esquecido.
Depois o tempo passa.
A cor desaparece.
As pétalas dão lugar a um punhado de pequenos fios brancos que o vento leva sem pedir licença.
Quando eu era criança, achava que eles voavam porque queriam conhecer o mundo.
Hoje penso que talvez estivessem apenas procurando um lugar onde alguém não os chamasse de erva daninha.
A esperança me parece assim.
Há quem a veja como algo inconveniente, teimando em nascer onde ninguém plantou.
Mas existem pessoas que reconhecem que as coisas mais bonitas da vida raramente pedem permissão para existir.
Elas apenas florescem.
Mesmo em lugares que o mundo já havia desistido de chamar de jardim.


- M.S. Fieri

A Coragem de Confiar


Não foi a traição que mudou meu coração.
Foi o silêncio que veio depois dela.
Descobri que existem dores que não nos fazem chorar.
Elas nos fazem desconfiar de todo gesto gentil, de toda mão estendida, de todo olhar sincero.
Porque, quando a confiança morre, ela leva consigo a inocência de acreditar.
Passei a pensar que a solidão era mais segura.
Que viver atrás de muralhas doía menos do que reconstruir uma casa que alguém pudesse incendiar outra vez.
Até compreender que o medo não queria me proteger.
Queria me convencer de que ninguém mais merecia entrar.
Então percebi que confiar não é esquecer as cicatrizes.
É olhar para elas e, ainda assim,
escolher abrir a porta.
Porque o oposto da traição não é a certeza.
É a coragem.


- M.S. Fieri

O verdadeiro poder não está em mudar o mundo, mas em não deixar que o mundo mude aquilo que há de mais puro em você.⁠

"Aqueles Que Permanecem"


Há uma dor que nunca pede para ir embora.
Ela aprende o caminho da alma, faz morada no silêncio e passa a chamar nossas cicatrizes pelo nome.
No início, lutamos contra ela.
Depois, aprendemos que algumas batalhas não existem para serem vencidas, mas para nos ensinar quem continuamos sendo quando tudo o que amávamos nos foi arrancado.
Descobri que a maior solidão não é caminhar sem ninguém ao lado.
É olhar para o próprio coração e não reconhecer quem está refletido nele.
Ainda assim...
Existe algo curioso sobre as pessoas que tocam o fundo.
Elas deixam de procurar a luz porque entendem que a luz nunca esteve acima delas.
Ela sempre existiu, escondida, esperando o instante em que aceitassem atravessar a própria escuridão.
Talvez seja por isso que algumas almas não nasceram para ter uma vida fácil.
Elas nasceram para lembrar ao mundo que a bondade não é a ausência da dor, mas a decisão de não permitir que a dor seja a última palavra.
E quando tudo termina...
Não importa quantas vezes fomos traídos, quantas promessas morreram ou quantas lágrimas ficaram pelo caminho.
Importa apenas que, apesar de tudo, continuamos capazes de estender a mão a alguém perdido.
Porque o verdadeiro milagre nunca foi sobreviver ao sofrimento.
O verdadeiro milagre é que, mesmo depois de conhecer o pior da humanidade, algumas pessoas ainda escolhem amar.


- M.S. Fieri

Diga-me, destino...
Por que me escolheste, se desde o primeiro passo já havias decidido que eu caminharia sozinho?
Arrancaste-me do meu mundo com promessas de glória. Chamaste-me de herói antes mesmo de conhecer meu nome.
Mas bastou uma mentira...
Uma única mentira.
E tudo aquilo que juravam admirar transformou-se em desprezo.
Roubaram minha honra antes que eu pudesse defendê-la. Condenaram minha voz antes que eu pudesse falar. Julgaram meu caráter sem jamais olharem em meus olhos.
Diziam que eu era o escudo.
Mas, quando precisei de proteção, não havia ninguém.
Enquanto outros recebiam espadas, lanças e arcos, eu carregava apenas o peso da desconfiança.
Chamavam-me de criminoso. De traidor. De indigno.
E, ainda assim, esperavam que eu salvasse aqueles que me apedrejavam.
Que ironia...
Queriam meu sangue, minha força, meu sacrifício.
Queriam que eu derramasse lágrimas por um reino que nunca derramou uma única por mim.
A cada porta fechada, aprendi que a confiança é um luxo para os ingênuos.
A cada olhar de nojo, aprendi que a solidão é mais honesta do que a falsa bondade dos homens.
Então, responde-me, destino...
Quando foi que deixei de ser um herói e me tornei apenas o recipiente do ódio alheio?
Ou talvez...
Eu nunca tenha sido visto como um homem.
Apenas como uma ferramenta.
Algo para ser usado, culpado, descartado e convocado outra vez quando o mundo estivesse prestes a ruir.
Dizem que a raiva me consumiu.
Mas ninguém pergunta quem acendeu esse fogo.
Ninguém pergunta quantas vezes precisei juntar os pedaços de mim que eles mesmos quebraram.
Ainda assim...
Continuo caminhando.
Não porque acredito neste reino. Não porque confio nas pessoas. Nem porque desejo ser chamado de herói.
Continuo porque me recusaram o direito de desistir.
Se o mundo insiste em enxergar um monstro, que veja.
Se o destino deseja me dobrar, que tente.
Pois aquele jovem que acreditava na justiça morreu no dia em que foi traído.
O homem que permanece...
Já não luta por reconhecimento.
Luta apenas para provar que nem o ódio de um reino inteiro foi capaz de arrancar a única coisa que ainda lhe pertence:
Sua própria vontade.

Liturgia da Esperança.


Não foram meus demônios que me condenaram.
Eles apenas cumpriam o ofício para o qual nasceram.
Também não foi a escuridão.
Ela sempre teve a honestidade de dizer que jamais seria luz.
Minha ruína sempre teve outro nome.
Esperança.
Essa criatura indecente, que aprende a respirar mesmo depois de ser afogada.
Eu a matei incontáveis vezes.
Enterrei-a sob o peso de despedidas, de silêncios, de portas fechadas e de horizontes que nunca chegaram.
Ainda assim, ela regressava.
Não caminhando.
Florescendo.
Como uma erva daninha que faz do cadáver a sua primavera.
Que ironia.
Os homens temem o ódio.
Eu temo a esperança.
O ódio encerra batalhas.
A esperança exige que se lute outra vez.
Ela é o carrasco que veste roupas de salvação.
É a mão que acaricia enquanto conduz à mesma fogueira.
E eu, tolo sacerdote de um deus que jamais respondeu, continuo oferecendo o próprio peito como altar.
Porque basta um único raio de luz, um único sorriso, um único "talvez"...
...e todo o cemitério que construí dentro de mim começa a acreditar que ainda existe primavera.
Maldita seja.
Maldita seja essa força invisível que insiste em devolver vida àquilo que eu implorei para morrer.
Se ao menos eu pudesse esquecer como se acredita...
Talvez encontrasse paz.
Mas acreditar é uma maldição que não escolhe os otimistas.
Escolhe justamente aqueles que já perderam tudo.
Porque sabe que ninguém sofre tanto quanto aquele que conhece o gosto do abismo e, mesmo assim, ergue os olhos na direção do horizonte.
Não esperando um milagre.
Esperando apenas que, desta vez, o horizonte tenha piedade.
E é exatamente nesse instante...
quando o coração, contra toda lógica, decide acreditar outra vez...
que a esperança sorri.
Não porque veio salvar-me.
Mas porque encontrou mais um motivo para manter-me vivo o suficiente para sofrer novamente