O ser e o tempo A vontade de poder ser... juliano assis

O ser e o tempo A vontade de poder ser


De Juliano Assis


Somos uma construção no tempo. Ou melhor, somos o próprio tempo em ato. Não há um ser completo e estático em nosso núcleo, mas um constante devir — uma “vontade de poder”, como sugeriu Nietzsche, que nos impele a nos refazer sem cessar.
Assim, o propósito do ser é simplesmente ser, sem jamais atingir um ponto final. Somos um rio que nunca é o mesmo, que se afirma justamente em suas próprias mudanças.


E no curso desse rio, nos deparamos com o tédio. Schopenhauer via nele a essência de nossa condição: oscilamos entre a dor e o prazer, mas o prazer é fugaz, ilusório. No fim, o que resta é o vazio do tédio, a percepção de que não controlamos a natureza dos acontecimentos.
Mas há outro caminho. Heidegger nos lembra que o ser é ser-no-mundo, projetado para frente, lançado em um tempo que não volta. Essa mesma força natural de seguir em frente pode ser vivida não como fardo, mas como afirmação cabal da existência.


É aí que Nietzsche ressurge, com o amor fati: amar o destino. Perceber que as mudanças são inevitáveis, que o rio nunca será o mesmo, e abraçar esse fluxo como parte intrínseca do que somos.
No fim, somos esse movimento: entre o tédio e a vontade, entre a dor e a aceitação radical. Ser no tempo é aceitar-se como tempo — e seguir, rio abaixo, sem retorno.