O LENÇO DAS LÁGRIMAS. Autor: Marcelo... Marcelo Caetano Monteiro

O LENÇO DAS LÁGRIMAS.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Quando a penumbra desfolha o infinito,
E o sino verte o derradeiro rito,
Retiro, em muda e sepulcral unção,
O alvo sudário do meu coração.
Não é de linho, cambraia ou cetim;
Foi urdido onde não floresce jardim.
Fiaram-no os dedos da Ausência infiel
Com fios de névoa e fragmentos de fel.
Ali repousam, translúcidas, sem voz,
As gotas que o destino verteu por nós;
Cada cristal, em sua fria claridade,
É um relicário da eternidade.
Há prantos que jamais encontram chão;
Suspensos vivem na constelação.
São pérolas que o Tempo não desfez,
Velando o que não há de vir talvez.
À meia-noite, quando o Éter se abre,
E a solidão seus sacrários descobre,
Ergue-se o lenço, em místico esplendor,
Como um incenso tecido de torpor.
Ninguém o vê. Contudo, ele vagueia
Pelas galerias da memória alheia;
Tange os espelhos da consciência aflita
E desperta a culpa que ninguém evita.
Seu tecido não conhece deterioração;
Alimenta-se da humana aflição.
Quanto mais se esquece um rosto querido,
Mais alvo se torna o pano esquecido.
Vi-o descer sobre um túmulo ermo,
Sem vento algum, em movimento enfermo;
Não ocultava a pedra funerária:
Cobria a saudade necessária.
Então compreendi, no átrio do Mistério,
Que toda lágrima é um silencioso império.
Ela não morre quando a face a esquece:
No Invisível, amadurece.
Quem enxuga os olhos apenas da fronte
Ignora a nascente escondida no monte.
Há lágrimas que recusam sepultura,
Porque pertencem à eterna criatura.
E quando eu partir para o país sem nome,
Onde o relógio já não conta nem consome,
Desejo apenas — sem louvor, sem vaidade —
Levar comigo esse véu da eternidade.
Pois nele dormem, em arcana mansidão,
As cinzas vivas de cada ilusão;
E talvez Deus, ao recolhê-lo enfim,
Descubra que suas dobras... também choraram por mim.