O REINO QUE O SILÊNCIO HERDOU. Chamaram... Marcelo Caetano Monteiro

O REINO QUE O SILÊNCIO HERDOU.
Chamaram desventura aquilo que me veste;
não viram, sob as cinzas, um império celeste.
Enquanto o mundo inteiro festejava a ilusão,
ergui catedrais de sombras da minha solidão.
Nenhuma voz permaneceu na última janela,
somente a noite antiga, majestosa e singela.
O vento, qual monarca sem reino para guiar,
coroou meu desalento com um trêmulo luar.
Aprendi que o abandono possui dedos de gelo,
lapidando lentamente cada sonho mais belo.
Quem perde tudo cedo conhece outro esplendor:
o diamante ocultado sob montanhas de dor.
A saudade não caminha; desfila soberana,
vestida de crepúsculos, tecendo a madrugada insana.
Cada passo ressoava qual sino sepulcral;
cada lágrima esculpia um destino colossal.
Não roguei piedade às estrelas tão indiferentes,
nem curvei minhas esperanças diante dos presentes.
Fiz do peito devastado um castelo sem igual;
das ruínas, uma harpa; do pranto, um vendaval.
Vi jardins desfalecendo nas mãos do temporal,
rosas transformadas cedo em silêncio mineral.
Mesmo assim, meu coração, sem jamais retroceder,
abraçou o impossível para não enlouquecer.
Há ausências que possuem o peso das montanhas;
há lembranças escondidas sob antigas entranhas.
Toda fotografia guarda um adeus cristalino;
todo beijo interrompido conhece o desatino.
Então compreendi, enfim, o mistério derradeiro:
quem atravessa o vazio torna-se mais inteiro.
Porque o abismo ensina sem precisar explicar;
faz sangrar cada esperança para depois lapidar.
E, quando a aurora vier buscar meu derradeiro dia,
não encontrará derrota, tampouco covardia.
Verá apenas um homem, de joelhos, sem coroa,
cuja alma permaneceu onde ninguém mais ecoa.
Ali, entre eternidades que ninguém alcançou,
erguerei meu nome mudo onde o tempo se calou.
Pois existe um trono oculto, impossível de enxergar,
reservado aos que aprenderam a sofrer sem suplicar.
Minha princesa desta imensa solidão...
Se algum dia teus olhos atravessarem a distância,
não recolhas minhas cinzas para vestir saudade.
Apenas escuta o vento. Cada sopro levará meu nome.
Porque todo amor verdadeiro, quando perde o abraço,
transforma-se na única eternidade que jamais conhece o fim.
Marcelo Caetano Monteiro .