Diante da maioria esmagadora de um... Alessandro Teodoro

Diante da maioria esmagadora de um povo acostumado a confundir politicagem com política, não dá para tentar se eleger sem falar mal do adversário.
Essa constatação incomoda porque toca em uma realidade que parece ter se tornado regra em muitos processos eleitorais, quiçá os gerais.
Em vez da disputa de ideias, assistimos à disputa de narrativas.
Em vez da apresentação de projetos, predominam acusações, ataques e a tentativa de desconstruir a imagem do outro.
Mas será que esse cenário existe apenas porque os candidatos o retroalimentam?
Ou ele persiste porque uma parcela significativa do eleitorado aprendeu a consumir a política como um espetáculo de torcidas?
Quando a crítica ao adversário rende mais atenção do que uma boa proposta, o incentivo para o debate qualificado desaparece.
Confundir política com politicagem é reduzir uma das mais importantes ferramentas de transformação social a um jogo de interesses pessoais e disputas de poder.
Política é construção coletiva, diálogo, negociação e responsabilidade com o bem comum.
Politicagem é o uso da política para interesses particulares, para a manipulação das emoções e para a conquista do poder a qualquer custo.
Enquanto a sociedade continuar premiando o discurso mais agressivo em detrimento da proposta mais consistente, muitos candidatos acreditarão que o caminho mais curto para conquistar votos é explorar os defeitos do adversário em vez de evidenciar as próprias qualidades.
Talvez a mudança não comece nos palanques, mas nas urnas.
O nível da política costuma refletir, em grande medida, o nível de exigência do eleitor.
Quando cobrarmos mais conteúdo do que confronto, mais projetos do que provocações e mais compromisso do que marketing, a política poderá voltar a ocupar o lugar que nunca deveria ter perdido: o de instrumento para servir à sociedade, e não para dividir pessoas.
