Os Colecionadores de Amanhãs Há... KANGAL

Os Colecionadores de Amanhãs


Há edifícios que não devoram corpos;
alimentam-se de amanhãs.


A cada manhã, um homem atravessa a porta
levando nos bolsos o riso dos filhos,
o perfume do café,
um verso que nunca escreveu.
Ao cair da tarde, devolvem-lhe apenas o cansaço,
como quem troca ouro por ferrugem.


Os livros registram os nomes dos fundadores,
mas o pó conhece os verdadeiros arquitetos.
É sobre a pele anônima que as paredes aprendem a permanecer de pé.


Curioso é o comércio da gratidão:
enquanto a colheita é abundante,
o semeador é chamado de indispensável;
quando a terra empobrece,
seu nome é lançado ao vento
como se jamais tivesse existido.


Não guardo rancor.
Os eclipses também passam.
Apenas aprendi que existem reinos
onde as ferramentas recebem mais manutenção
do que as mãos que as conduzem.


E talvez essa seja a mais antiga pobreza:
não a falta de riqueza,
mas a incapacidade de recordar
quem entregou a própria vida
para que outros chamassem aquilo de progresso.