Um curto circuito de luz Passamos tempo... Paulo H Salah Ad din
Um curto circuito de luz
Passamos tempo demais fingindo que somos permanentes.
Compramos relógios como se pudéssemos negociar com o tempo. Construímos casas como se elas fossem sobreviver à ferrugem. Prometemos "para sempre" enquanto o corpo já começa, silenciosamente, a desaprender a juventude.
Depois alguém morre.
Um cachorro. Um amigo. Um pai. Uma mulher que você amou e que continua respirando, mas nunca mais olha para você do mesmo jeito.
Então a ilusão desaba.
A verdade é que somos uma faísca.
Não um farol. Não um sol. Apenas uma descarga elétrica que risca a noite por um segundo antes de desaparecer. Antes de nascermos havia um silêncio tão absoluto que sequer sabíamos que ele existia. Depois que partirmos, talvez haja o mesmo silêncio. Ou talvez algo que a linguagem nunca foi capaz de alcançar. Não importa. A única certeza é este pequeno intervalo em que o coração insiste em bater.
E o que fazemos com ele?
Discutimos política como se isso nos tornasse imortais. Acumulamos dinheiro que outro homem gastará. Guardamos mágoas como quem coleciona pedras para carregar no próprio bolso.
Enquanto isso, o cigarro termina. O café esfria. A chuva cai sobre a cidade sem perguntar o nome de ninguém.
A vida não tem obrigação de fazer sentido.
Ela apenas acontece.
Às vezes numa gargalhada de bar. Às vezes numa oficina coberta de graxa. Às vezes no cheiro de uma estrada depois da chuva. Às vezes na mão calejada segurando outra mão, sem precisar dizer uma palavra.
Talvez seja isso a tal luz.
Não uma grande missão divina. Não uma resposta definitiva para o universo.
Só esse instante absurdo em que conseguimos sentir o vento no rosto, ouvir uma música antiga e perceber que, por alguns minutos, estamos vivos.
O resto pertence ao escuro.
E, curiosamente, é essa escuridão que torna a luz tão bonita. Se fôssemos eternos, nenhum abraço teria urgência. Nenhum beijo teria peso. Nenhum pôr do sol faria alguém parar o carro para olhar.
A morte não estraga a vida.
Ela lhe dá contorno.
Ela diz: "não desperdice."
No fim, talvez Nabokov estivesse certo. Somos um curto circuito de luz entre duas eternidades que não conhecemos.
Mas enquanto essa faísca durar, que ela não seja gasta apenas pagando contas, acumulando rancores ou esperando o momento perfeito.
Que ilumine alguém.
Nem que seja por um segundo.
Porque um segundo de luz verdadeira vale mais do que uma eternidade passada na escuridão.
