CÂNTICO DA GRATIDÃO. Acorda a aurora... Marcelo Caetano Monteiro
CÂNTICO DA GRATIDÃO.
Acorda a aurora em brando resplendor,
Vestindo os vales com divino esplendor;
Desperta a fonte em doce melodia,
Cantando ao mundo a luz de um novo dia.
No ramo antigo a rola faz morada,
A relva acolhe a gota prateada;
O vento beija a flor do alecrim,
E o campo inteiro se transforma em jardim.
Ó gratidão, singela companheira,
Que faz da dor uma estação primeira;
Ensinas que a esperança, em seu labor,
Fecunda a terra e faz nascer a flor.
A árvore antiga, firme na colina,
Não se envaidece pela sombra fina;
Entrega ao chão os frutos que produz,
Sem reclamar o peso de sua cruz.
O rio aprende com a própria corrente
Que dar-se ao mar é tornar-se mais contente;
Jamais retém a água em seu poder,
Pois nasce livre para renascer.
Também a nuvem, branca peregrina,
Derrama a chuva sobre a campina;
Não pede glória ao céu em que passou,
Basta-lhe ver a vida que brotou.
A abelha humilde, em silencioso afã,
Colhe o perfume desde a luz da manhã;
Doa ao mundo o mel de sua flor,
Transformando o trabalho em puro amor.
O trigo louro curva-se ao verão;
Não é fraqueza a sua inclinação;
Quem sabe o peso da fecunda missão
Conhece a força da resignação.
A noite chega com seu manto anil,
Acende estrelas sobre o verde abril;
Até o escuro, quando bem sentido,
Revela um céu que estava escondido.
Assim a alma, em secreto esplendor,
Descobre a paz no seio da dor;
Cada saudade, lágrima ou partida
Ensina um hino silencioso à vida.
Sou grato ao sol que aquece a plantação,
Ao frio que fortalece o coração;
À chuva mansa, ao vento e ao arrebol,
À lua branca e ao dourado sol.
Sou grato ao ninho oculto entre os ramos,
Ao canto antigo que ainda entoamos;
À flor que vive apenas por um dia,
Mas deixa eterna a sua poesia.
Sou grato ao tempo, mestre peregrino,
Que escreve em cada ser o seu destino;
À mão que afaga, ao braço protetor,
E ao sofrimento que amadurece o amor.
Quando a existência parecer deserto,
Haverá sempre um horizonte aberto;
Pois quem cultiva a gratidão sincera
Encontra um céu florindo a primavera.
E quando enfim meu canto silenciar,
E o vento apenas vier me embalar,
Que fique ao menos este testemunho:
Nada possuí... tudo recebi em punho.
A vida inteira é dádiva bendita,
Mesmo quando a esperança se limita;
Pois quem agradece, em doce comunhão,
Transforma o universo em oração.
Que o coração, qual lírio à beira do rio,
Floresça firme no calor e no frio;
E que jamais se apague esta canção:
O mais belo fruto da alma é a gratidão.
