A moda agora é dizer: "respeite... Paulo H Salah Ad din

A moda agora é dizer:
"respeite minhas escolhas."
Concordo.
Mas ninguém me convence de que gostar de alguém seja simplesmente abrir a porta e assistir a pessoa caminhar para o incêndio enquanto desejamos "boa sorte".
Isso não é respeito.
É covardia vestida de liberdade.
Quando você gosta de alguém — pouco importa se é amigo, amante, irmão ou aquele sujeito que apareceu na sua vida sem pedir licença — existe uma dívida que nasce no mesmo instante. Não dessas que o juiz cobra. Essas são fáceis. Você assina um papel, paga uma multa, faz um acordo.
Estou falando daquela dívida que aparece às três da manhã.
Aquela em que o travesseiro pesa mais do que um caixão.
Você avisa uma vez.
Depois avisa outra.
Mas, se a desgraça insistir em seguir adiante, talvez o gesto mais honesto não seja ficar na calçada dizendo "eu te avisei".
Talvez seja caminhar junto.
Se possível, um passo à frente.
Não para impedir a queda.
Ninguém salva adulto de si mesmo.
Mas para que, quando a queda vier, exista uma mão entre o asfalto e o rosto.
Porque amor não é entregar o endereço da farmácia.
É aparecer com o remédio.
É passar a madrugada acordado quando a febre não baixa.
É dividir a culpa quando tudo dá errado, mesmo sabendo que ela nunca foi inteiramente sua.
Hoje confundem afeto com legenda de fotografia.
Compromisso virou reação de emoji.
Cumplicidade virou confirmação de leitura.
E "eu gosto de você" passou a significar algo tão descartável quanto o guardanapo usado depois da sobremesa.
Declarar afeto custa o movimento da língua.
Participar da vida do outro custa tempo.
Sono.
Dinheiro.
Paciência.
Às vezes, orgulho.
E quase sempre um pedaço da própria paz.
Por isso existe tanta gente apaixonada e tão pouca gente comprometida.
Os rótulos também ficaram engraçados.
"Estamos ficando."
Ficando o quê?
Mais velhos?
Mais vazios?
Mais especialistas em chamar ausência de liberdade?
Porque, no fim da noite, quando a conta chega, ainda acho que certas responsabilidades não deveriam precisar de assembleia para existir.
Pode me chamar de antigo.
Ainda sou do tempo em que o sujeito puxava a cadeira, pagava o jantar sem transformar isso em discurso político e acompanhava a mulher até a porta para ter certeza de que ela entrou em segurança.
Não era machismo.
Era presença.
Hoje confundem presença com controle.
Confundem abandono com maturidade.
Confundem omissão com respeito.
E depois perguntam por que o mundo parece tão frio.
Não é o planeta que esfriou.
Foram as pessoas.
Elas aprenderam a dizer "conte comigo" sem jamais aparecer.
Aprenderam a escrever "te amo" com os polegares e desaparecer quando a ambulância liga a sirene.
No fim, o universo continua fazendo sua contabilidade silenciosa.
Não usa tribunal.
Não usa testemunhas.
Não precisa de advogado.
Só coloca você, um quarto escuro, um travesseiro e uma memória.
Ali acontece o único julgamento que realmente importa.
Porque existem absolvições que vêm no Diário Oficial.
E existem condenações que dormem ao seu lado para o resto da vida.