Houve um tempo em que ele acreditava que... Paulo H Salah Ad din

Houve um tempo em que ele acreditava que pisaria num foguete. Não porque gostasse de ciência. Porque toda criança precisa inventar um céu onde a vida pareça valer a pena. O foguete nunca foi um veículo. Era uma mentira bonita. Daquelas que se contam para não perceber cedo demais que o mundo costuma distribuir mais boletos do que milagres.


Depois vieram os quarenta.


A idade em que o espelho deixa de fazer gentilezas.


Ali ficou claro que nenhum foguete pisaria o quintal daquela casa. Restou o café frio, os bares de luz amarela, algumas mulheres que passaram como chuva de verão e amigos que aprenderam a sorrir para fotografias enquanto enterravam silenciosamente a própria fome de existir. Ele ainda procurava alguma coisa. Não sabia o nome. Chamava de sentido porque qualquer palavra menor pareceria covardia.


Agora vieram os sessenta e dois.


A essa altura, não dói apenas o corpo. Doem as expectativas que sobreviveram tempo demais.


Os dias se parecem com copos vazios esperando por uma bebida que nunca chega. Não é exatamente tristeza. É um cansaço antigo. Um animal velho dormindo no peito.


Às vezes, observa uma folha cair da árvore.


E sente um impulso ridículo de colocá-la de volta no galho.


Como quem pudesse devolver um casamento ao começo, uma amizade ao primeiro abraço, um pai à juventude, um amor ao instante em que ainda não conhecia a despedida.


Mas folhas não voltam.


Nem pessoas.


Nem o tempo.


Todo mundo merece um dia melhor, pensa ele. O problema é que ninguém ensina o caminho. Ensinam a produzir, competir, acumular, parecer feliz. Nunca a existir.


Durante muitos anos procurou sua rainha da beleza.


Não a mulher das revistas.


Essa morre quando a maquiagem encontra a primeira lágrima.


A rainha que procurava tinha outra anatomia. Beleza sentimental. Inteligência que abraça sem tocar. Capacidade de permanecer em silêncio sem transformar o silêncio em distância. Uma mulher cuja alma não estivesse à venda por curtidas, status ou conveniências.


Ainda procura.


Talvez ela também esteja perdida em algum balcão de bar, fingindo que o gelo do copo basta para resfriar a solidão.


Olha para antigos amigos.


Todos parecem brilhar.


Casas maiores.


Carros melhores.


Viagens.


Sorrisos impecáveis.


Mas ele já não acredita tanto na luz.


Aprendeu que existe um sol artificial iluminando a terra da normalização.


Lá, o verbo ser foi lentamente assassinado pelo verbo ter.


As pessoas compram identidades em prestações.


Vendem a própria autenticidade em troca de aprovação.


Sorriem como quem cumpre expediente.


Abraçam como quem assina um contrato.


A empatia virou artigo de luxo.


A delicadeza, uma excentricidade.


A verdade, inconveniente.


Talvez seja por isso que se sinta preso numa bolha.


De um lado, o mundo do faz de conta.


Do outro, um mundo real que quase ninguém parece querer habitar.


Nesse lugar antigo, os valores ainda tinham peso. A palavra ainda valia mais que uma assinatura. O afeto não precisava produzir conteúdo. A dor podia existir sem virar espetáculo.


Talvez o erro nunca tenha sido do mundo.


Talvez tenha sido nascer acreditando que honestidade seria suficiente.


Ainda assim, todas as manhãs ele acende um cigarro imaginário para conversar com as próprias ruínas. Serve um copo como quem brinda aos mortos, aos amores que não vieram, aos sonhos que explodiram antes da decolagem.


E continua vivo.


Não porque espere um foguete.


Nem porque a felicidade esteja logo ali na esquina.


Continua vivo porque existe uma estranha dignidade em permanecer inteiro quando tudo ao redor insiste em ensinar a arte de apodrecer por dentro.


Talvez seja isso envelhecer.


Descobrir que o mundo nunca prometeu salvação.


E, mesmo assim, recusar-se a chamar de vida essa enorme coleção de sorrisos emprestados