*DENTADA* Te invadi. Te ocupei. Não foi... Paulo H Salah Ad din

*DENTADA*
Te invadi.
Te ocupei.
Não foi guerra.
Foi convite.


A boca veio sem pedir licença
e assinou na pele o recibo:
estive aqui.
Com fome.


Não tem sangue, tem marca.
Roxo que vira amarelo,
depois some.
Efêmero como tudo que queima.


Ninguém bateu.
Ninguém prendeu.
Foi mordida de quem sabe
que a carne é fruta
e a noite é curta.


Não me venha com culpa.
Culpa é pra quem reza.
Aqui a gente devora.
Sem faca, sem garfo,
só dente e vontade.


A marca fica dois dias.
A lembrança fica dois anos.
A tensão não conta tempo.
Ela mora entre a pele e o lençol,
naquele lugar onde o arrepio
ainda não decidiu
se é medo ou se é mais.


Não foi castigo.
Foi assinatura.
Um carimbo de "estive viva"
num corpo que esquece rápido
mas que, por um segundo,
quis ser banquete.


E se amanhã não tiver nome,
pelo menos teve gosto.
E o gosto,
ninguém tira.