⁠Desde que a CBF passou a pensar com... Alessandro Teodoro

⁠Desde que a CBF passou a pensar com os pés, nossos futebolistas já não usam nem eles, nem a alma, nem a cabeça. E isso é tão provocativo quanto uma bicuda do m... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Desde que a CBF passou a pensar com os pés, nossos futebolistas já não usam nem eles, nem a alma, nem a cabeça.


E isso é tão provocativo quanto uma bicuda do meio de campo, mas toda provocação nasce da inquietação diante de uma realidade que insiste em se repetir.


O futebol brasileiro, que durante décadas encantou o mundo pela criatividade, pela inteligência e pela irreverência, parece ter trocado a ousadia pela burocracia, a inspiração pela previsibilidade e a identidade pela conveniência.


O futebol nunca foi só um mero esporte para o Brasil.


Sempre foi uma manifestação cultural, uma linguagem natural.


Cada drible era um ato de liberdade, cada passe revelava inteligência, cada gol carregava a alegria e a esperança de um povo que transformava dificuldades em espetáculo.


Mas, em algum momento, essa essência começou a flertar com agendas ocultas pelos corredores do poder.


Quando quem dirige o futebol demonstra falta de visão, planejamento e compromisso com um projeto de longo prazo, essa pobreza de ideias inevitavelmente chega ao gramado.


Jogadores passam a executar mais do que criar, obedecer mais do que interpretar o jogo.


O improviso deixa de ser virtude para se tornar risco, e o medo de errar sufoca a coragem de tentar.


Os pés, antes instrumentos da genialidade, tornaram-se mecânicos.


A cabeça, que fazia do improviso uma estratégia, passou a seguir fórmulas prontas.


E a alma — aquela chama que transformava partidas comuns em momentos inesquecíveis — parece ter sido deixada para trás, substituída por um futebol eficiente apenas na aparência, mas incapaz de emocionar.


Não faltam talentos ao Brasil.


O que falta é uma direção capaz de compreender que o futebol não se resume a números, esquemas táticos ou interesses meramente políticos.


Grandes jogadores precisam de um ambiente que estimule a inteligência, preserve a criatividade e respeite a personalidade de quem entra em campo.


Afinal, o futebol sempre exigiu pés habilidosos, mas jamais dispensou uma cabeça pensante e uma alma apaixonada.


Perder faz parte do jogo.


O que não pode fazer parte da nossa história é perder a identidade.


Porque títulos podem voltar, como tantas vezes voltaram.


O que será muito mais difícil recuperar é aquilo que fez o mundo olhar para o futebol brasileiro com admiração: a capacidade de jogar com alegria, pensar com inteligência e competir com coragem.


Enquanto a gestão continuar tropeçando nas próprias escolhas, continuaremos produzindo um grande paradoxo: um país que revela alguns dos maiores talentos do planeta, mas que insiste em desperdiçá-los por falta de direção.


E talvez seja esse o retrato mais triste do nosso futebol: não a ausência de craques, mas a escassez de ideias.


Porque, no fim das contas, quando quem deveria pensar passa a fazê-lo com os pés, sobra aos que jogam apenas correr.


E um futebol que deixa de usar os pés com arte, a cabeça com inteligência e a alma com paixão pode até vencer de vez em quando, mas jamais voltará a nos encantar como antes.