As correntes marcam os pulsos. Cortes... Celso roberto nadilo

As correntes marcam os pulsos. Cortes profundos dão a certeza do início: corta-se um pé, depois alguns dedos, para que ninguém reclame da falta de liberdade. Trabalho escravo: trabalha-se seis dias, descansa-se no domingo — e dizem que já existem "direitos trabalhistas". As tripas espalhadas pelo terreno são daquele que tentou reclamar; agora, nem os porcos querem sua carne. Ao longe, os corvos levam tiros, pois nem a eles é dado o direito de consumi-la. Seus olhos são jogados no telhado, pasto para os ratos.
​— Posso enterrá-lo no cemitério da igreja?
— Que absurdo! Só os barões do café compram terreno no céu.
​Jogue-o na fogueira até virar pó, pois a semana ainda não terminou. Deixe os ossos para a sopa, misturados aos restos da casa para que todos comam, afinal, a dívida deste mês já está cobrada.
​Agora, ligue a televisão. Chame todos para assistir ao jogo da Copa: a distração faz parte da divisão. Sirva pão duro e suco de limão. Pode fazer pipoca com o milho mofado. Vamos abrir uma Live. Peça para as costureiras da Bolívia virem, pois ainda temos vagas na fazenda.
​No trabalho, o celular é proibido. Não há direito a médico, nem a dentista. Os corvos continuam famintos diante da escravidão. E o algoritmo segue ditando as regras nas correntes das big techs.
​— Celso Roberto Nadilo
Governantes de nossas almas