Capítulo XI. A Voz que Não se Curva.... Marcelo Caetano Monteiro
Capítulo XI. A Voz que Não se Curva.
Madre Agnès permaneceu alguns instantes em silêncio. O crepitar tênue da lamparina era o único som que preenchia a estreita cela de pedra. Diante dela encontrava-se aquela jovem de aspecto delicado e, ao mesmo tempo, revestida de uma firmeza pouco comum entre as noviças.
"Tu és tão jovem, minha menina. Que fizeste para encolerizar os homens deste monastério?"
Cladissa ergueu lentamente o rosto. Seus olhos, embora marcados pelo cansaço do cárcere, possuíam a serenidade daqueles que já atravessaram as grandes tormentas da alma.
"Nada fiz contra Deus, Madre. Apenas recusei-me a silenciar diante dos homens."
A religiosa aproximou-se.
"Conta-me."
Cladissa pousou as mãos sobre o hábito desgastado.
"Nasci nas colinas da Úmbria, entre camponeses simples. Fui entregue ainda criança ao convento para ser educada nas Escrituras e no labor. Cresci copiando manuscritos, cuidando dos enfermos e distribuindo pão aos necessitados. Durante anos ninguém pronunciou meu nome além destes muros."
Ela interrompeu-se por um instante.
"Então vieram os tempos sombrios."
A chama da lamparina oscilou.
"Senhores feudais disputavam terras, reis exigiam tributos impossíveis, e o povo sofria. Vi homens regressarem mutilados das guerras. Vi mães venderem os poucos bens para alimentar os filhos. Vi sacerdotes piedosos chorarem em segredo, incapazes de aliviar tanta miséria."
Madre Agnès escutava atentamente.
"Certa noite, durante minhas orações, compreendi que a fé não fora dada apenas para consolar os aflitos, mas também para recordar aos poderosos seus deveres diante do Altíssimo."
"Que fizeste então?"
"Falei."
Cladissa pronunciou a palavra sem hesitação.
"Percorri aldeias próximas ao mosteiro. Exortei os camponeses a não perderem a esperança. Disse-lhes que Deus não abandonara os humildes. Repreendi soldados que saqueavam celeiros. Admoestei clérigos que transformavam o sagrado em instrumento de ambição."
A anciã empalideceu.
"Filha, compreendes o perigo de tais palavras?"
"Compreendo agora."
Cladissa fitou a pequena janela gradeada.
"Logo começaram os rumores. Diziam que uma jovem religiosa falava com excessiva autoridade. Alguns afirmavam que eu perturbava a ordem estabelecida. Outros acusavam-me de insuflar os pobres contra seus senhores."
"Foi então que foste presa?"
"Não imediatamente. Primeiro fui interrogada. Exigiram que negasse tudo o que ensinara. Ordenaram que confessasse ter sido enganada por ilusões e que me submetesse sem questionamentos."
Ela voltou-se para Madre Agnès.
"Perguntaram-me repetidas vezes se eu me arrependia de ter dito que nenhuma coroa terrestre está acima da justiça divina."
"Que respondeste?"
Cladissa permaneceu ereta, apesar das correntes.
"Respondi que, se tivesse de recomeçar minha vida, pronunciaria as mesmas palavras."
Madre Agnès sentiu um estremecimento percorrer-lhe o corpo.
"Então decidiram apagar teu nome."
"Sim. Retiraram-me dos registros do convento. Confiscaram meus escritos. Fui trazida para esta prisão para que o silêncio realizasse aquilo que os tribunais nem sempre conseguem."
Por alguns momentos, nenhuma das duas falou.
Por fim, Cladissa acrescentou em voz baixa.
"Os homens acreditam que podem aprisionar uma consciência entre pedras. Ignoram que a verdade, uma vez despertada no coração humano, torna-se semelhante ao fogo. Pode ser ocultada sob cinzas durante algum tempo, mas jamais deixa de arder."
E naquela cela esquecida, cercada por muros frios e sombras antigas, a jovem da Úmbria permanecia inabalável, como uma chama solitária desafiando a noite.
