O Eco na Floresta Negra Diante da... Celso roberto nadilo
O Eco na Floresta Negra
Diante da vastidão da Floresta Negra, nos tornamos adeptos e idealizadores da simulação. Criamos a clonagem, embora o clone esvazie a alma; afinal, como conceber dois corpos coexistindo no mesmo átimo de tempo? A causalidade, outrora soberana, hoje parece o limite intransponível da nossa própria realidade.
Enquanto isso, a corrupção ativa é mastigada pelo público como um filme de grande bilheteria, transformando-se no palco histórico do negacionismo e do egocentrismo — a herança maldita de um patriarcado familiar. A ignorância contemporânea não é inocência; é a simplicidade covarde de quem abandonou o real e complexo paradoxo do ser.
O alinhamento moral racha no frio das calçadas, moldado pelas fileiras humanas que aguardam o Bom Prato. Toda a ética é esmagada e acumulada no topo da pirâmide social.
Isolado na mata, o silêncio da Floresta Negra escancara o medo do clone. Ele acende o fogo, mas apenas para se alimentar. O medo, esse motor da alucinação, projeta na névoa sombras que agem como alegorias de um passado estéril. É um pavor que consome: o fogo devora as árvores enquanto o homem, alheio, apenas observa as estrelas.
São os próprios pavores que alimentam aquela fogueira. Fora dela, o espaço sideral é um deserto gélido, e as luzes distantes não passam de espectros de animais da Terra — extintos ou empalhados em tubos de ensaio, reduzidos a códigos de DNA.
A verdade agora emana de um velho gravador. As histórias que ecoam da fogueira parecem viajar pelo tempo e pelo vácuo cósmico. As lágrimas que vertem são a única resiliência de uma era de ouro que ruiu, testemunhada por figuras que dançam nas sombras das chamas. No fim, o nascimento de uma estrela sempre exige a morte de um sistema inteiro.
A fumaça se dissipa. A fogueira apaga. O clone finalmente dorme.
E, em seu sono, os sonhos não pertencem à máquina ou ao laboratório: são as memórias vivas do ser original, navegando livre em um veleiro, em pleno alto mar.
